Michael Burry, investidor que ficou famoso por prever o colapso do mercado imobiliário dos Estados Unidos, está antecipando sua aposta contra o boom da inteligência artificial. Segundo ele, a bolha do setor pode estourar antes do que imaginava, em meio à preocupação com investimentos que ainda precisam gerar retorno.Para reforçar essa posição, Burry trocou parte das apostas vendidas por opções de venda de ações ligadas à IA e aos semicondutores. A estratégia aumenta sua exposição a uma eventual queda e concentra os contratos em prazos que chegam a 2027.O mercado de IA cresce rapidamente, mas investidores discutem se os retornos acompanham o volume de capital aplicado. – Imagem: MiniStocker/ShutterstockBurry encurta o prazoEm sua newsletter, Burry afirmou que está “adiantando os prazos” de sua tese e, por isso, quer mais alavancagem nas posições. Parte das mudanças também teve como objetivo reduzir sua carga tributária, mas ele disse que a principal razão é acreditar que “a bolha da IA pode estourar mais cedo ou mais tarde”.As principais alterações envolvem:Micron: posição vendida substituída por opções de venda com vencimento em junho e preço de exercício de US$ 500 (cerca de R$ 2.605);Nebius: troca por opções com vencimento em junho e preço de exercício na casa das dezenas de dólares;SOXX: posição vendida substituída por opções para setembro de 2027, na faixa dos US$ 400 (cerca de R$ 2.084);Palantir: posição ampliada em opções de venda com vencimento em setembro de 2027, na faixa dos US$ 100 (cerca de R$ 521).A escolha por opções também está relacionada aos níveis de volatilidade, que Burry considera excepcionalmente baixos. Isso torna os contratos relativamente baratos e permite buscar maior exposição em um período mais curto.Onde está o risco da IA?O argumento passa pela relação entre o dinheiro investido no setor e a capacidade de transformar esses aportes em receitas. Burry citou uma análise da Ares Management segundo a qual bastaria um período de receitas de IA abaixo do necessário para sustentar os investimentos para que conselhos de empresas decidissem redirecionar capital.O debate aparece também entre analistas e autoridades financeiras. O presidente do Banco da Inglaterra, Andrew Bailey, afirmou que pode haver correções nos preços dos ativos e observou que o mercado pode estar precificando empresas como vencedoras antes de saber quais realmente conseguirão se destacar.Outro ponto é a oferta de chips de memória. Jason Chen, CEO da Acer, afirmou que o aumento da produção chinesa pode mudar a dinâmica de escassez do setor.Como poderia haver uma escassez contínua? A capacidade de produção da China vem aumentando consistentemente e não há absolutamente nenhum problema de escassez.Jason Chen, CEO da Acer, à CNBC.O temor de investidores é de que o fluxo contínuo de capital entre gigantes crie uma falsa demanda. – Imagem: royyimzy / iStockBolha ou crescimento sustentado?O cenário, porém, não é interpretado da mesma forma por todos. Há avaliações de que parte da expansão da IA tem fundamentos mais sólidos, apoiados por contratos de longo prazo e pelo aumento da demanda por chips, data centers e capacidade computacional.Também existe o argumento de que empresas menores podem ampliar esse mercado à medida que o acesso à inteligência artificial se torna mais barato. Nesse caso, a demanda não dependeria apenas das grandes empresas de tecnologia.Leia mais:Nvidia anuncia recompra de ações recorde de R$ 795 bilhões e se beneficia de boom da inteligência artificialInvestimentos em IA podem levar anos para dar retorno, alerta análise do Goldman SachsOpenAI prevê “queimar” US$ 280 bilhões até 2030 para financiar expansão da infraestrutura de IAAinda assim, o crescimento dos investimentos elevou a preocupação com o retorno financeiro. O investidor já havia comparado o mercado, em maio, aos meses finais da bolha de tecnologia de 1999 e 2000. Agora, sua estratégia mostra que passou a trabalhar com um horizonte mais curto para essa tese.O mercado, por enquanto, segue em direção oposta: o Nasdaq Composite atingiu recorde recentemente, enquanto Micron e Palantir permanecem abaixo de suas máximas históricas. A divergência resume o debate: a IA pode continuar ampliando sua utilidade enquanto investidores discutem se o dinheiro aplicado no setor está crescendo mais rápido que os retornos capazes de sustentá-lo.O post Investidor que previu crise de 2008 aposta em queda de ações de IA apareceu primeiro em Olhar Digital.