Novos dados do mercado de trabalho nos Estados Unidos divulgados nesta sexta-feira (5), que vieram mais fortes do que o esperado em um cenário de taxas mais altas e incertezas geopolíticas, fizeram investidores repensarem suas apostas sobre a trajetória dos juros norte-americanos.Nesta sexta-feira (4), o mercado voltou a precificar uma elevação nos juros pelo Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) no segundo semestre deste ano. De acordo com a ferramenta FedWatch, do CME Group, por volta de 15h (horário de Brasília), os traders observavam 52,2% de chance de o Fed retomar o aperto monetário na decisão de política monetária em outubro. Atualmente, a taxa de referência dos EUA está na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano. Entre as apostas, os agentes financeiros precificam 40,4% de probabilidade de alta de 0,25 pontos-base, 10,9% veem chance de acréscimo de 50 pontos-base nas taxas e 0,9%, de 0,75 pontos-base na penúltima decisão de 2026. Na véspera, a aposta majoritária do mercado era de retomada das altas nos juros em janeiro de 2027. O que fez o mercado adiantar a alta nos juros nos EUA? Mais cedo, o relatório oficial de empregos, o payroll, apontou a criação de 172 mil empregos em maio, segundo relatório publicado nesta sexta-feira (5) pelo U.S Bureau Labor Statistics. Os economistas consultados pela a Reuters esperavam a criação de 85 mil vagas no mês. O resultado também representa um avanço no mercado de trabalho em relação a abril, quando foram abertas 179 mil vagas não-agrícolas, dado revisado hoje. O payroll é a principal métrica do mercado de trabalho dos EUA e avaliado de perto pelo Fed. “Um dado de emprego acima do esperado nos Estados Unidos, em um ambiente de inflação crescente, está alimentando as expectativas de que o Fed volte a elevar os juros antes do fim do ano”, avalia James Knightley, economista-chefe internacional do ING. Ele, porém, considera que o resultado acima do esperado pode ter sido impulsionado pela Copa do Mundo, já que o relatório mostrou um número “extraordinariamente forte” dos setores de lazes e turismo. Além do mercado de trabalho ainda forte, o ING chama a atenção para os números de inflação elevados nos últimos meses. Segundo o economista-chefe, as apostas de novas altas nos juros podem ganhar ainda mais força com a divulgação do índice de preços ao consumidor (CPI), prevista para próxima quarta-feira (10). A expectativa do banco é de que a inflação cheia acelere para 4,2%, ante 3,8%, enquanto o núcleo do indicador avance para 2,9%, de 2,8%. A meta de inflação do Fed é de 2%. “Há um longo caminho até o fim do ano, e continuamos inclinados para a direção de eventuais cortes de juros, assumindo que um acordo possa ser alcançado para reabrir o Estreito de Ormuz”, acrescentou Knightley, do ING. Vale destacar que, no início da tarde, o presidente norte-americano, Donald Trump afirmou que o “payroll foi muito bom” e reiterou que gostaria de ver taxas de juros mais baixas a frente. “Deixarei um corte na taxa de juros a cargo de [Kevin] Warsh na reunião do Fed em outubro”, disse. Cenário geopolíticoO impasse nas negociações no Oriente Médio e os preços do petróleo próximos a US$ 100 o barril também segue no radar dos investidores, em meio ao temor de uma reescalada das tensões entre Estados Unidos e Irã e possível choque inflacionário.Desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, o fechamento do Estreito de Ormuz, controlado pelo Irã – sendo uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo para o transporte de petróleo–, é principal ponto de atenção do mercado.Cerca de um quinto do consumo global da commodity passa pelo ‘corredor’, que conecta grandes produtores do Oriente Médio — como Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Catar — aos mercados da Ásia, Europa e América do Norte.Hoje, em entrevista à CNN, Mohsen Rezaei, conselheiro militar do Líder Supremo do Irã, afirmou que “as negociações estão num impasse e [o presidente dos EUA, Donald] Trump precisa romper esse impasse”.Segundo ele, sem acordo, o país persa pode expandir a guerra para o Oceano Índico e atacar outras bases militares dos EUA.Também nesta sexta-feira, os EUA impuseram novas sanções relacionadas ao Irã, concentradas em entidades, indivíduos e navios-tanque de gás GLP, segundo o Departamento do Tesouro norte-americano.Entre as 12 entidades designadas, estão cinco sediadas nas Ilhas Marshall, quatro nos Emirados Árabes Unidos e uma na China, de acordo com detalhes publicados no site do departamento. Seis embarcações foram visadas, incluindo quatro navios-tanque com bandeira do Panamá.No Brasil, cortes na Selic está perto do fim No Brasil, a curva de juros futuros passou a precificar 60% de chance de a taxa básica de juros, a Selic, fique estável em 14,50% na decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) no fim deste mês. Na última semana, grandes players do mercado revisaram suas projeções e passaram a ver menos chance de continuidade da flexibilização dos juros pelo Copom iniciada no início deste ano. Parte do mercado já trabalha com a possibilidade de que a próxima reunião do Copom, em 17 de junho, marque o último corte nos juros em 2026.Curva de juros já precifica fim de cortes na Selic