Quem convive com intolerância à lactose conhece bem o desconforto que pode surgir depois de refeições aparentemente simples. O café com leite da manhã, uma sobremesa após o almoço, um pedaço de pizza ou um sorvete podem desencadear horas de distensão abdominal, gases, cólicas e diarreia. Muitos pacientes evitam refeições fora de casa, reorganizam hábitos alimentares e recorrem aos comprimidos de lactase, na tentativa de controlar os sintomas sem abrir mão completamente dos laticínios.A intolerância à lactose acontece quando o organismo produz pouca lactase, enzima responsável por quebrar a lactose, açúcar presente no leite e em derivados como queijos, cremes e sorvetes. Sem digestão adequada, a lactose chega praticamente intacta ao intestino grosso, onde sofre fermentação pelas bactérias intestinais. O resultado é aumento da produção de gases, distensão abdominal, flatulência, cólicas e diarreia.Uma revisão científica publicada em 2019 na revista Gut, intitulada Update on lactose malabsorption and intolerance: pathogenesis, diagnosis and clinical management, estima que a má absorção de lactose afete cerca de 68% da população mundial. Nem todos, porém, desenvolvem sintomas importantes. A intensidade do quadro depende da quantidade de lactose ingerida, da atividade residual da enzima lactase, do funcionamento intestinal, da composição da microbiota e até da presença de outras doenças digestivas associadas.O diagnóstico exige avaliação cuidadosaO diagnóstico não deve ser baseado apenas na percepção individual do paciente. A investigação costuma começar pela relação entre sintomas e consumo de leite ou derivados. Quando existe suspeita clínica, exames específicos ajudam a confirmar o quadro.O teste respiratório de hidrogênio é um dos mais utilizados. Nele, o paciente ingere lactose e nas horas seguintes são medidos os níveis de hidrogênio eliminados na respiração. Quando a lactose não é digerida adequadamente, ela sofre fermentação pelas bactérias intestinais, aumentando a produção desse gás. Outra possibilidade é o teste de tolerância à lactose, que avalia alterações da glicemia após o consumo da substância.Também é importante investigar doenças que podem provocar deficiência secundária de lactase, como gastroenterites, doença celíaca, doença de Crohn, quimioterapia e uso prolongado de antibióticos. Nessas situações, a intolerância pode surgir temporariamente como consequência de outra condição intestinal em atividade.Lactase ajuda, mas depende do uso corretoA lactase funciona como uma reposição temporária da enzima que o intestino produz em quantidade insuficiente. Sua função é quebrar a lactose em moléculas menores, permitindo absorção adequada antes que ela chegue ao intestino grosso e seja fermentada pelas bactérias intestinais.O efeito da enzima depende diretamente do momento em que ela é utilizada. Os comprimidos devem ser ingeridos imediatamente antes do consumo de leite e derivados ou junto da primeira porção da refeição. Quando a lactase é usada depois de comer, parte da lactose já percorreu o intestino sem digestão adequada, reduzindo o efeito do suplemento.Também existe muita confusão em relação à dose necessária. Um café com leite possui quantidade de lactose muito diferente daquela encontrada em milk-shakes, sobremesas à base de creme ou refeições com vários derivados lácteos. A suplementação melhora a digestão da lactose, mas não neutraliza completamente excessos alimentares em todos os pacientes.Intolerância à lactose não é a mesma coisa que alergia à proteína do leite de vaca. Apesar de ambas estarem relacionadas ao consumo de leite e derivados, são condições diferentes, com causas e manifestações distintas. Na intolerância à lactose, o organismo apresenta dificuldade para digerir a lactose por produzir pouca lactase, enzima responsável pela quebra desse açúcar no intestino delgado. Já a alergia à proteína do leite ocorre quando o sistema imunológico reage às proteínas presentes no leite de vaca. Diferentemente da intolerância à lactose, o problema não está na digestão do açúcar do leite, mas em uma resposta imunológica que pode provocar urticária, coceira, manchas vermelhas na pele, inchaço nos lábios, vômitos, chiado no peito e até reações respiratórias mais graves. Por isso, suplementos de lactase não produzem benefício clínico em pessoas com alergia alimentar.Essa diferenciação é importante porque o desconforto causado pela intolerância costuma levar muitas pessoas a retirarem completamente leite, iogurtes e queijos da alimentação, mesmo quando apresentam quadros leves ou moderados. Em longo prazo, essa exclusão indiscriminada pode reduzir a ingestão de cálcio, proteínas e vitamina D, nutrientes importantes para a saúde óssea e muscular.O artigo publicado em 2019 na revista Gut destaca que muitas pessoas com intolerância à lactose conseguem tolerar pequenas quantidades da substância, principalmente quando o consumo ocorre junto das refeições. Os autores também observam que gases, distensão abdominal e diarreia nem sempre estão relacionados exclusivamente à lactose, outros fatores como sensibilidade intestinal, composição da microbiota e doenças digestivas associadas também podem contribuir para o quadro.Alguns derivados lácteos tendem a causar menos sintomas em pessoas com intolerância à lactose. Iogurtes fermentados com culturas bacterianas ativas e queijos maturados, por exemplo, apresentam menor quantidade de lactose em comparação ao leite. O mesmo artigo publicado em 2019 na revista Gut aponta que a maioria das pessoas com má absorção de lactose consegue consumir cerca de 12 g da substância, quantidade equivalente a aproximadamente um copo de leite, sem apresentar sintomas importantes, principalmente quando a ingestão ocorre junto das refeições. Os autores ressaltam, porém, que a tolerância varia de pessoa para pessoa e depende de fatores como quantidade ingerida, sensibilidade intestinal, microbiota e presença de outras doenças digestivas associadas.Dor abdominal frequente, excesso de gases, distensão e diarreia persistentes não devem ser tratados apenas com exclusão alimentar automática ou uso indiscriminado de suplementos de lactase. Além disso, sintomas semelhantes também podem estar associados a outras condições digestivas, como síndrome do intestino irritável, doença celíaca, supercrescimento bacteriano intestinal e doenças inflamatórias intestinais, o que reforça a importância de uma avaliação clínica adequada.Dr. Fábio Kassab – CRM/SP 67330 | RQE 98452Gastroenterologia