Em praticamente toda mesa em que me sento para discutir o futuro do imóvel como ativo no Brasil, observo a mesma inversão: fala-se de tokenização, blockchain, Drex, stablecoins e ativos digitais, enquanto seguimos sem saber, com precisão e em tempo real, quanto vale o estoque imobiliário do país. É como debater o pregão de uma bolsa em que os papéis não têm preço público. A conversa avança no andar de cima, enquanto o porão segue sem fundação.Vejo o imóvel como um ativo, como qualquer outro investimento. E ativos, em mercados maduros, têm preço dinâmico, liquidez, velocidade de venda e marcação a mercado. Essa é a semântica que precisamos trazer para o universo imobiliário, não como retórica ou mais um buzzword setorial, mas como infraestrutura. É disso que falamos quando tratamos de destravar o ativo imobiliário no Brasil: aplicar ao imóvel a mesma gramática que o mercado financeiro consolidou décadas atrás.O imóvel é a principal forma de preservação e geração de valor de famílias e empresas brasileiras. Ainda assim, opera com baixa liquidez. Uma transação leva meses. Cada imóvel é tratado como peça única. Cada negociação é, na prática, artesanal.Os fundos imobiliários começaram 2026 com mais de 3 milhões de investidores e patrimônio próximo de R$ 200 bilhões, segundo a B3, com volume médio diário negociado crescendo perto de 50% em relação ao ano anterior. É um avanço relevante, mas resolve a liquidez na ponta do investidor de FII. O problema estrutural permanece nas camadas abaixo, no ativo subjacente.O setor ainda carrega três passivos que o mercado financeiro resolveu há décadas: primeiro, é a falta de transparência de preço; a precificação ainda nasce de anúncios, não de transações reais. Já o segundo é a fragmentação documental: cartórios, prefeituras, bancos, incorporadoras e seguradoras operam em silos que mal se conectam. E o terceiro é o custo de transação, multiplicado pelo retrabalho a cada operação.Leia também: Imóvel tokenizado: o que já é possível e o que ainda falta no Brasil, segundo juristasA esses três soma-se um quarto, que considero o mais crítico: a ausência de uma camada comum de confiança entre os agentes. Sem ela, qualquer inovação fica suspensa no ar, e nenhuma promessa, por mais sofisticada, escala.A consequência aparece no dia a dia. No mercado financeiro, um ativo é precificado em segundos a partir de dados auditáveis. Já no setor imobiliário, a análise de uma garantia ainda depende de vistorias, planilhas e um laudo que entra na pasta do processo e desaparece. Quando o banco precisa revisitar esse ativo dois anos depois, ele já é outro. Falta monitoramento, falta histórico vivo, falta lastro contínuo. Em pleno 2026, trata-se de um mercado que ainda define preços por instinto e revisita garantias de forma reativa.A boa notícia é que o ferramental para resolver isso já existe. AVMs e PTAMs — modelos automatizados de avaliação combinados com inteligência estatística e análise técnica, alinhados às normas da ABNT — entregam avaliações consistentes, rápidas e auditáveis. Tecnologias de registro distribuído, quando bem aplicadas, permitem representar direitos de forma rastreável, fracionada e interoperável. Bases de dados públicas, quando se conectam, tornam-se patrimônio coletivo.O que falta no Brasil não é tecnologia. É integração. É infraestrutura.E é aqui que a discussão precisa mudar de tom. A pergunta relevante não é “quando vamos tokenizar imóveis em larga escala”, mas sim como construir a camada de confiança que torna isso possível. Sem preço auditável, documentação estruturada e interoperabilidade entre cartórios, bancos e investidores, qualquer token é, no limite, uma promessa frágil, e promessas frágeis não escalam. Tokenizar antes de precificar é colocar a carruagem na frente dos cavalos e cobrar do investidor uma paciência que o mercado não tem.Os efeitos de uma infraestrutura mais robusta aparecem rapidamente. Análises de crédito que levavam dias passam a acontecer em minutos. Carteiras de garantia deixam de ser revisitadas apenas em momentos críticos, sendo monitoradas continuamente. Em ativos estruturados, como CRIs e recebíveis, o lastro deixa de ser promessa e é dado vivo.O que precisa avançar agora é menos tecnológico e mais institucional. Primeiro, uma regulação que estimule e, em casos críticos, exija a interoperabilidade entre bases públicas e privadas que hoje operam em silos. Segundo, padronização entre os agentes do mercado, para que avaliação, registro e crédito conversem na mesma língua. Terceiro, a maturidade no uso da tecnologia: parar de tratar IA, blockchain e tokenização como bandeiras de marketing e utilizá-las em que resolvem problemas concretos de confiança e escala.O Brasil tem uma chance rara de pular etapas. Países que digitalizaram cedo construíram suas camadas sobre cadastros amarrados a soluções dos anos 1990. Aqui, ainda há espaço para avançar direto para uma infraestrutura conectada, viva e baseada em dados, articulando B3, registradores, Banco Central do Brasil, mercado de capitais e mercado imobiliário.Mas isso não acontece sozinho. Requer alinhamento entre regulador, registradores, instituições financeiras e companhias de tecnologia e exige reconhecer que o gargalo não está em um único agente. Está na ausência de uma camada que faça todos conversarem.O imóvel não vai se tornar um ativo líquido por decreto nem por hype. Vai avançar quando for, finalmente, legível, quando preço dinâmico, velocidade de venda e marcação a mercado deixarem de ser conceitos do mundo financeiro e forem prática cotidiana do mercado imobiliário. E ser legível, no Brasil de 2026, é uma escolha de infraestrutura.Sobre o autorAndré Araújo é CEO da Real Price e trabalha no desenvolvimento de soluções tecnológicas para o mercado imobiliário e financeiro. Procurando uma alternativa para aumentar seus ganhos? A Renda Fixa Digital do MB é a solução: até 18% de ganho ao ano, risco controlado e a segurança que seu dinheiro merece. Conheça agora!O post Antes de tokenizar imóvel, o Brasil precisa aprender a precificá-lo apareceu primeiro em Portal do Bitcoin.