Quase dois terços dos casos de Alzheimer atingem mulheres, um dado que ainda intriga cientistas. Um novo estudo com camundongos, publicado na revista Aging Cell, aponta uma possível pista: a queda do estrogênio no cérebro e uma estrutura pouco conhecida entre as células cerebrais podem estar relacionadas aos problemas de memória típicos da doença.O trabalho também destaca uma região do cérebro ainda pouco explorada, que pode vir a ser alvo de novos tratamentos para o Alzheimer e outras doenças neurodegenerativas, segundo o ScienceAlert.Estudo indica que estrutura do cérebro pouco estudada pode ter papel importante na memória e no Alzheimer. Imagem: SewCreamStudio / Shutterstock – Imagem: SewCreamStudio / ShutterstockHormônio pode ter papel mais amplo do que se imaginavaCientistas da Northwestern University, nos Estados Unidos, modificaram geneticamente camundongos machos e fêmeas para que não produzissem estrogênio, seja no cérebro ou em todo o organismo.O que chamou atenção da equipe foi a diferença entre os sexos. As fêmeas sem o hormônio apresentaram piora da memória espacial, menor interação social e sinais de depressão, principalmente na velhice. Já os machos quase não apresentaram mudanças perceptíveis.Em fêmeas mais jovens e mais velhas, a ausência total de estrogênio também esteve ligada a alterações de humor. Os dados sugerem que o impacto da falta do hormônio é mais forte no cérebro feminino ao longo do envelhecimento.As análises genéticas revelaram padrões semelhantes aos encontrados em cérebros de pessoas com Alzheimer. No cérebro, o estrogênio tem atuação importante no hipocampo, região ligada à memória.Os genes mais ativos nas fêmeas sem estrogênio estavam associados à matriz extracelular, conhecida como ECM. Essa rede ocupa os espaços entre as células cerebrais e participa de processos ligados à memória, manutenção e crescimento do cérebro. Apesar disso, ainda é menos estudada do que neurônios e células da glia.Entre os principais efeitos observados: perda de memória espacial nas fêmeas;redução da interação social e sinais de depressão ealterações genéticas na matriz extracelular.Fornecemos algumas das evidências mais convincentes de que o estrogênio é muito importante para a função de memória e outras funções de humor no cérebro feminino. Isso deveria motivar os clínicos a estarem mais atentos ao papel essencial do estrogênio para o cérebro das mulheres, porque uma vez que a memória vai embora, ela vai embora.Serdar Bulun, obstetra e ginecologista que participou do estudo, em nota.Cientistas investigam como a redução de estrogênio pode influenciar o risco de Alzheimer, especialmente após a menopausa. Imagem: Shutterstock/LightField StudiosEstrutura pouco estudada entra no radar da pesquisaA matriz extracelular, ou MEC, voltou a ganhar atenção neste estudo. Ela funciona como uma espécie de suporte entre as células cerebrais e ajuda na organização e no funcionamento do cérebro.Os pesquisadores acreditam que essa estrutura pode ter papel direto nos efeitos causados pela queda de estrogênio. Nos experimentos, genes ligados à MEC ficaram mais ativos nas fêmeas sem o hormônio, o que pode indicar mudanças associadas aos problemas de memória observados.Diferenças marcantes entre machos e fêmeas de camundongos chamaram atenção em estudo sobre estrogênio e saúde do cérebro. Imagem: Robert Kneschke/ShutterstockDescobertas ainda precisam de confirmação em humanosApesar dos resultados, o estudo foi feito apenas com camundongos e ainda não permite conclusões sobre humanos. Os cientistas ressaltam que mais pesquisas são necessárias para entender se o mesmo mecanismo acontece em pessoas.Leia mais:Esteira inteligente usa algoritmos para ‘prever’ Alzheimer e ParkinsonAlzheimer: exame de sangue pode detectar sinais anos antes dos sintomasEstudo liga desregulação do sono a inflamação no cérebroA bióloga molecular Hong Zhao afirma que os achados abrem caminho para novas investigações sobre o papel do estrogênio no cérebro feminino, principalmente após a menopausa, e sobre como sua redução pode aumentar a vulnerabilidade ao Alzheimer. Segundo ela, esse conhecimento pode ajudar no desenvolvimento de terapias mais seguras no futuro.Estudos anteriores sobre terapia hormonal já tentaram reduzir o risco de demência, mas sem resultados conclusivos. O Alzheimer continua sendo uma doença multifatorial, influenciada por genética e estilo de vida, e a matriz extracelular surge agora como um possível foco de novas pesquisas.O post Hormônio feminino pode ajudar a explicar o Alzheimer em mulheres apareceu primeiro em Olhar Digital.