As regiões Sul e Centro-Oeste devem ser as mais afetadas pelo El Niño previsto para o segundo semestre deste ano, segundo especialistas do Instituto Nacional de Metereologia (Inmet) e do Instituto Equilíbrio.Essas condições reforçam a necessidade de monitoramento constante do fenômeno para as culturas de milho e soja no Centro-Oeste e para as de feijão, trigo e cevada, no Sul.O El Niño é um fenômeno climático que ocorre quando as águas superficiais do oceano na região central e leste do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal. No Brasil ele pode causar chuvas intensas e enchentes no Sul, enquanto Norte, Nordeste e Centro-Oeste são mais impactados por secas prolongadas. Na última semana, a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização Meteorológica Mundial declararam que o evento pode começar já neste mês. A intensidade do fenômeno, porém, ainda está em debate entre cientistas, com alguns apontando a possibilidade de um “super” El Niño, mais forte do que o normal, e outros indicando mais chances de um evento com efeitos moderados.“Mesmo que não seja ‘super’, já estamos entrando em El Niño. Então, de toda forma, o setor do agronegócio precisa estar atento”, alerta Camila Dias de Sá, Gerente de Programas do Instituto Equilíbrio, que analisa os efeitos da transição climática para o agronegócio brasileiro.As culturas que correm maior riscoA expectativa, segundo Anderson Poersch, metereologista do Inmet, é de que o fenômeno tenha seus primeiros efeitos no final do inverno deste ano, com pico na primavera e se estendendo pelo verão de 2027. Essa previsão está diretamente associada ao comportamento do El Niño.“O El Niño começa de forma suave. Nem todos os episódios extremos estão relacionados a esse fenômeno. Normalmente, ele dura de 12 a 18 meses, então podemos sentir os efeitos até o outono do ano que vem, já que o El Niño demora entre 1 a 3 meses para enfraquecer e cessar”, explica o especialista.O Inmet e o Ministério da Agricultura e Pecuária publicaram, em março, uma nota técnica com as previsões de impactos na agricultura durante esse período, ligados também ao El Niño.Segundo o documento, nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste, o momento mais crítico deve ser na safra de verão, devido a períodos de estiagem mais extensos, com o aumento de veranicos na primavera. “Isso pode prejudicar a implantação das lavouras (plantio) e o desenvolvimento inicial de culturas como soja e milho, além de aumentar o risco de perdas em sistemas de sequeiro”, afirma a nota. Os especialistas ainda alertam para o risco de redução da disponibilidade hídrica nessas regiões, resultado esperado para este El Niño.Já no Sul, o efeito previsto é inverso, sobretudo no inverno e primavera. “Para essa região, a previsão é de muita chuva, tempestades, eventos muito mais extremos”, afirma Camila de Sá. A Gerente de Programas do Instituto Equilíbrio explica que o maior risco para essa região está associado não só ao excesso de umidade, mas à saúde do solo, propenso a erosões, à incidência de doenças fúngicas e a questões logísticas, como colheita, armazenagem e transporte de cargas. A preocupação maior, para o Inmet está sobre as culturas de grãos e cereais de inverno, como trigo e aveia, em anos de El Niño.Pecuária e seguros também são foco de atençãoPara além da agricultura, os especialistas indicam possíveis riscos para a pecuária, especialmente na produção de carne bovina. Tanto o excesso de umidade quanto altas temperaturas e estiagem podem afetar a qualidade das pastagens, criando problemas na engorda dos animais. Além disso, o conforto térmico também é impactado, reduzindo o desenvolvimento e a produção de carne por conta do estresse. Até mesmo a perda de gado em casos mais extremos está no radar, explica Camila de Sá.A especialista ainda aponta que os riscos não param nos produtores, como também devem afetar empresas do setor. Ela lembra que fenômenos extremos aumentam a imprevisibilidade e a insegurança do mercado, cenário que pode ser visto, por exemplo durante o El Niño de 2024 e 2025. “O mercado de seguros agrícolas, por exemplo, também vai sofrer um impacto muito grande. O aumento do risco deve aumentar o prêmio do seguro”, explica, apontando uma relação direta o evento e custos maiores.Camila de Sá ainda completa que a tendência é que este seja um ano de volatilidade nos preços de forma global, tendo em vista que o El Niño afeta a produção agrícola ao redor do mundo.Planejamento será decisivo para enfrentar os riscosPara se preparar e lidar com os efeitos dos fenômenos, como o El Niño, os especialistas indicam algumas recomendações.Anderson Poersch, do Inmet, sugere que os produtores das regiões mais afetadas pela seca se preparem para não depender das chuvas para a semeadura: “O ideal é esperar chover, mesmo que atrase a época de semeadura, mas é melhor plantar com umidade, com uma situação favorável, e não assumir o risco de ter que semear de novo e aumentar os custos da produção”.Já a orientação do Instituto Equilíbrio é de preparação maior para eventos extremos, principalmente em meio às mudanças climáticas. “Produtores que adotam práticas de agricultura regenerativa, técnicas como manutenção da palhada no campo, por exemplo, saem em vantagem, pois já estão preparados para possíveis impactos.” Poersch ainda reforça a importância de acompanhar atualizações de órgãos oficiais antes de tomar decisões e planejar a produção: “Com essas informações, acredito que o produtor tem uma boa orientação sobre os riscos que ele infelizmente pode ter nessa safra. Isso serve para todas as regiões do Brasil”, finaliza. O monitoramento frequente de El Niño se mostra fundamental.*Com supervisão de Vitor Azevedo