A bolsa brasileira vive um dos momentos mais desafiadores dos últimos anos. Levantamento elaborado pela Elos Ayta revela que, desde a máxima histórica registrada pelo Ibovespa, em 14 de abril de 2026, o principal índice acionário do país acumula a maior queda em dólares entre 21 mercados internacionais analisados.No período compreendido entre 14 de abril e 5 de junho de 2026, o Ibovespa recuou 14,92% em reais, passando de 198.657,33 pontos para 169.019,12 pontos. Em apenas 52 dias, foram perdidos 29.638 pontos, uma das correções mais expressivas já observadas após um recorde histórico do índice.Quando a análise é feita sob a ótica do investidor internacional, o cenário se mostra ainda mais severo. Convertido para dólares, o Ibovespa caiu de 39.886,22 pontos para 32.983,20 pontos, uma retração de 17,31%, equivalente à perda de 6.903 pontos em moeda americana.O desempenho coloca o Brasil na última posição do ranking global elaborado pela Elos Ayta.Entre os 21 índices analisados, nenhum outro mercado registrou queda de dois dígitos em dólares. O segundo pior desempenho foi observado no Chile, cujo IPSA recuou 8,95%, praticamente metade da perda registrada pela bolsa brasileira. Na sequência aparecem Peru (-6,96%), Portugal (-6,80%) e Colômbia (-5,94%).O dado chama atenção porque o movimento ocorreu em um período em que parte relevante dos mercados internacionais mostrou resiliência ou mesmo valorização. Enquanto o Ibovespa liderava as perdas, o Nikkei 225, do Japão, avançava 13,97% em dólares, tornando-se o mercado de melhor desempenho da amostra. Nos Estados Unidos, o Nasdaq acumulou alta de 8,76%, seguido pelo S&P 500 (+5,98%) e pelo Dow Jones (+4,80%). Até mesmo mercados europeus, pressionados por desaceleração econômica e incertezas geopolíticas, conseguiram encerrar o período no campo positivo, como Alemanha (+0,75%) e Itália (+1,18%).Brasil se distancia dos demais emergentesUm dos aspectos mais relevantes do levantamento é que a fragilidade não ficou restrita apenas à comparação com economias desenvolvidas.Entre os principais mercados latino-americanos, o Brasil também apresentou o pior desempenho. Chile, Peru, Colômbia, México e Argentina registraram perdas significativamente menores ou até estabilidade quando avaliados em dólares.O resultado sugere que a correção recente da bolsa brasileira possui componentes domésticos mais relevantes do que fatores globais, uma vez que a aversão ao risco não afetou os demais mercados emergentes na mesma intensidade.Saída recorde de estrangeiros reforça pressão sobre a bolsaA deterioração do Ibovespa coincidiu com um movimento expressivo de retirada de recursos internacionais da B3.Dados analisados anteriormente pela Elos Ayta mostram que os investidores estrangeiros retiraram R$ 13,27 bilhões da bolsa brasileira em maio, o maior fluxo negativo mensal desde o início da série histórica disponível em janeiro de 2022.O movimento interrompeu a trajetória positiva observada no primeiro quadrimestre do ano e representou uma mudança importante na percepção de risco em relação aos ativos brasileiros.Historicamente, o fluxo estrangeiro exerce influência direta sobre o comportamento do Ibovespa. Isso ocorre porque os investidores internacionais respondem por parcela relevante do volume negociado na bolsa. Quando esses recursos deixam o mercado, aumenta a pressão vendedora sobre as ações e, simultaneamente, cresce a demanda por dólares, ampliando o impacto negativo para quem mede o desempenho em moeda americana.O resultado dessa combinação aparece claramente nos números do levantamento: a queda do Ibovespa em dólares foi mais profunda do que a observada em reais, evidenciando que a desvalorização cambial ampliou as perdas para o investidor internacional.Mercado devolve parte da euforia observada no início do anoA máxima histórica alcançada em abril havia sido impulsionada por um cenário de forte entrada de capital estrangeiro, expectativa de melhora dos resultados corporativos e busca por ativos considerados descontados em relação aos mercados desenvolvidos.Entretanto, a correção observada nas semanas seguintes mostra que parte desse otimismo foi revertida com rapidez.Outro dado que chama atenção é a velocidade do movimento. Em menos de dois meses, o Brasil saiu da condição de mercado que renovava recordes históricos para a posição de pior desempenho global da amostra analisada.Mais do que a magnitude da queda, o levantamento evidencia um fenômeno relevante para investidores e gestores: enquanto 15 dos 21 índices acompanhados registraram recuo no período, a intensidade das perdas brasileiras foi desproporcional em relação ao restante do mundo.A combinação entre retirada recorde de recursos estrangeiros, perda de valor em dólares e desempenho inferior aos demais emergentes coloca a bolsa brasileira sob observação, especialmente porque o comportamento dos fluxos internacionais costuma ser um dos principais termômetros da confiança dos investidores globais em relação ao país.Metodologia: levantamento da Elos Ayta com base no desempenho de 21 índices acionários internacionais entre 14 de abril de 2026 (data da máxima histórica do Ibovespa) e 5 de junho de 2026. As rentabilidades foram analisadas em moeda local e também em dólares para permitir comparação homogênea entre os mercados.