Brasil projeta queda de até 92,6% em emissões da pecuária até 2050

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O Brasil apresentou na sede da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), em Roma, um estudo científico detalhado que projeta uma redução de até 92,6 % na intensidade de emissões da pecuária de corte até 2050.O trabalho “Trajetórias de Descarbonização da Pecuária de Corte no Brasil 2025 a 2050” foi desenvolvido pelo FGV Agro em parceria com a ABIEC (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) e apresentado pela ApexBrasil durante a Quarta Sessão do Subcomitê de Pecuária do COAG (Comitê de Agricultura da ONU).A apresentação ocorreu em um momento considerado estratégico para o debate climático global, no qual o setor agropecuário é pressionado a aumentar a produção de alimentos ao mesmo tempo em que reduz impactos ambientais.Diante de delegações internacionais e especialistas da FAO, o estudo foi apresentado como uma resposta baseada em ciência e tecnologia tropical, com foco em demonstrar que o Brasil pode ampliar a oferta global de carne bovina com menor intensidade de emissões.O diretor de Produção e Sanidade Animal e Diretor-Geral Assistente da FAO, Thanawat Tiensin, destacou a necessidade de cooperação internacional.Ele afirmou que a transformação da pecuária sustentável depende de um esforço conjunto entre governos, produtores, setor privado, academia e instituições de pesquisa, ressaltando que cada país precisa encontrar seu próprio caminho dentro da Agenda 2030. Leia Mais Carne bovina brasileira: o desafio já não é produzir, mas vender Pecuária brasileira acelera no primeiro trimestre de 2026 Demanda chinesa impulsiona avanço tecnológico na pecuária brasileira O estudo apresentado detalha cenários de descarbonização que indicam que o Brasil pode reduzir não apenas a intensidade, mas também parte das emissões absolutas da pecuária ao longo das próximas décadas.No cenário de referência, as emissões poderiam cair até 60% até 2050, enquanto a intensidade de carbono da carne bovina recuaria cerca de 80%, passando de aproximadamente 80 quilogramas de CO₂ equivalente por quilo de carne para cerca de 16 quilogramas.No cenário mais ambicioso, com maior adoção de tecnologias e expansão do Plano ABC+, a redução da intensidade chegaria a 92,6%, atingindo cerca de 5 quilogramas de CO₂ equivalente por quilo de carne produzida.Segundo a pesquisadora da FGV Agro, Camila Estevam, os resultados do modelo matemático mostram que as tendências já em curso no setor agropecuário brasileiro são capazes de promover mudanças estruturais significativas. Ela destacou que a combinação entre recuperação de pastagens degradadas, sistemas integrados e manejo eficiente do solo é central para o resultado projetado.Ela afirmou que o carbono fixado no solo pela integração lavoura pecuária floresta e pela recuperação de áreas degradadas atua diretamente na compensação das emissões da atividade.O estudo também evidencia o chamado efeito poupa terra, que descreve o ganho de eficiência produtiva da pecuária brasileira. Entre 2004 e 2024, a produção de carne bovina no país cresceu mais de 240%, enquanto a área total de pastagens caiu cerca de 11%, passando de aproximadamente 181 milhões de hectares para 160 milhões de hectares.Esse desacoplamento entre produção e uso da terra resultou na economia de cerca de 397 milhões de hectares que seriam necessários caso os níveis de produtividade de 1990 fossem mantidos.No cenário projetado mais avançado, o Brasil poderia estabilizar a produção em cerca de 18,2 milhões de toneladas de carcaça em 2050, mesmo com redução adicional de até 35% da área de pastagens.Esse aumento de eficiência estaria associado ao crescimento de aproximadamente 31% no peso médio das carcaças, que passariam de cerca de 211 quilogramas para 277 quilogramas por animal abatido.Durante a apresentação, o presidente da ApexBrasil, Laudemir Müller, destacou que o Brasil busca levar ao debate internacional uma visão baseada em dados e evidências científicas.Ele afirmou que a pecuária brasileira tem condições de avançar na agenda climática sem abrir mão da produtividade e reforçou o papel da agência na promoção da imagem do país como fornecedor confiável de alimentos.Müller também destacou a importância da Integração Lavoura Pecuária Floresta como diferencial competitivo do modelo brasileiro. Segundo ele, o país já conta com cerca de 17 milhões de hectares sob sistemas integrados, o que permite maior eficiência no uso da terra e redução da pegada de carbono por unidade produzida. Ele afirmou que o Brasil possui um modelo tropical único que combina produção agrícola, pecuária e florestal na mesma área.O estudo reforça ainda que o Brasil ocupa posição relevante no cenário global de uso da terra e preservação ambiental. O país utiliza cerca de 30,2% de seu território para atividades agropecuárias, enquanto mantém aproximadamente 66,3% de vegetação nativa preservada, sendo que cerca de 33,2% está protegida por legislação ambiental dentro de propriedades privadas.No contexto internacional, o relatório também compara o Brasil com grandes blocos produtivos. Segundo os dados apresentados, o Mercosul opera com rebanho no menor nível dos últimos seis anos, a América do Norte registra o menor rebanho em 70 anos e a União Europeia enfrenta o menor rebanho em três décadas. Já o Brasil mantém o maior rebanho comercial do mundo, com aproximadamente 192,6 milhões de cabeças de gado em 2024.O estudo também detalha o conceito de emissões da pecuária brasileira dentro do inventário nacional de gases de efeito estufa. A fermentação entérica responde pela maior parte das emissões do setor agropecuário, representando cerca de 63% das emissões do segmento em 2021, seguida pelo manejo de solos e sistemas de produção, incluindo arroz irrigado e uso de fertilizantes e insumos.O relatório também destaca que práticas como aração intensiva e uso excessivo de calcário podem contribuir para emissões adicionais de carbono, enquanto sistemas conservacionistas reduzem esse impacto.Outro ponto abordado é a redução da intensidade de emissões por animal ao longo do tempo. Apesar do aumento do rebanho e da produção total, houve queda aproximada de 8% nas emissões por cabeça, resultado de melhorias em manejo de pastagens, nutrição animal e genética.Isso indica que o sistema produtivo brasileiro vem se tornando mais eficiente em termos de emissões por unidade produzida, ainda que o volume total tenha aumentado.O estudo também destaca o papel da remoção de carbono, diferenciando tecnologias industriais de captura e armazenamento de carbono das práticas agropecuárias. O Brasil aparece como um dos líderes globais em remoção associada a matriz energética e biocombustíveis, como etanol de cana, etanol de milho, biodiesel e uso de biomassa. Essa combinação coloca o país como o segundo maior em capacidade de remoção entre tecnologias avaliadas, atrás apenas dos Estados Unidos.Durante fala técnica em evento promovido pela Famato (Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso), o pesquisador da Embrapa, Roberto Giolo de Almeida, reforçou o papel central do estado na modernização da pecuária brasileira e na adoção do Plano ABC. Ele destacou que o Mato Grosso se tornou uma referência nacional em agricultura de baixa emissão, com forte integração entre ciência, setor produtivo e políticas públicas.Ele também destacou que todos os estados brasileiros possuem comitês do Plano ABC, mas que no Mato Grosso esse trabalho está mais estruturado e em plena execução por meio de programas como o ABC Mais em Ação.Segundo ele, o Plano ABC deve ser compreendido como uma estratégia de eficiência produtiva e não apenas como uma política ambiental, pois permite produzir mais com menor impacto ambiental e maior resiliência climática.O pesquisador reforçou ainda que a pecuária brasileira já apresenta queda nas emissões por animal em função da melhoria de pastagens, nutrição e genética, embora o aumento da produção total tenha elevado o volume global de emissões. Esse movimento, segundo ele, demonstra ganho de eficiência e reforça a importância da intensificação sustentável.Preservação ambiental passa a valer mais no mercado de carbono