Nos próximos meses, os brasileiros poderão acompanhar, mais uma vez, o quanto o país está preparado, ou não, para enfrentar extremos climáticos. O El Niño é um fenômeno capaz de alterar os padrões de chuva e temperatura, podendo intensificar precipitações em algumas regiões, agravar secas em outras, afetar reservatórios, produção agrícola, abastecimento de água e áreas já expostas a enchentes, além de causar deslizamentos e ondas de calor.Em nota técnica conjunta, INPE, INMET, Funceme e Censipam indicam probabilidade superior a 80% de formação do El Niño no segundo semestre de 2026, com possível persistência até o início de 2027. No Brasil, seus efeitos variam conforme a região e a intensidade do evento. Em geral, o fenômeno aumenta o risco de seca na faixa norte das regiões Norte e Nordeste e favorece volumes maiores de chuva no Sul.Planos, alertas e recursos existem. O problema é que a capacidade nacional de monitorar, financiar e responder a emergências ainda não se converteu, na mesma proporção, em prevenção e adaptação nos municípios. A falha da política climática brasileira está nessa distância entre o recurso anunciado e a ação concreta nos municípios.O governo federal ampliou a estrutura de monitoramento de desastres. Segundo informação apresentada pela ministra Luciana Santos em audiência no Senado, o orçamento do Cemaden em 2024 foi de R$ 29,68 milhões. A cobertura passou de 1.038 para 1.942 municípios, alcançando cerca de 60% da população brasileira. Na mesma ocasião, a ministra reconheceu uma das fragilidades do sistema: a dificuldade de estruturar as defesas civis municipais e transformar dados em planos e ações. (Senado Federal, 19 mar. 2025)Também há mais dinheiro disponível para a agenda climática. O Fundo Clima teve R$ 14 bilhões em orçamento público em 2025, com previsão de R$ 27 bilhões para 2026, e mobilizou R$ 52,4 bilhões desde 2023. O AdaptaCidades (MMA), criado para apoiar planos locais de adaptação, partiu de 260 municípios prioritários; 193 foram confirmados pelos estados na etapa inicial. Já a Lei nº 15.200/2025 abriu crédito extraordinário de R$ 520 milhões para ações de proteção e defesa civil. (BNDES/MMA, 2026; MMA, 2025; Senado Federal, 2025)No papel, portanto, há coordenação, orçamento e vocabulário técnico. Na prática, a engrenagem pública ainda funciona melhor quando o desastre já ocorreu.Prevenir é agir antes do problema acontecer: significa mapear riscos, controlar ocupações, rever obras, proteger encostas, melhorar a drenagem e planejar o abastecimento. É um trabalho a longo prazo. Adaptar é preparar cidades e serviços públicos para um clima que já mudou. Responder é agir quando o dano começou: abrir abrigos, distribuir água, reconstruir pontes e contabilizar perdas. O Brasil ainda apresenta como prevenção medidas concentradas na resposta emergencial.A conta aparece nos números. Em 2025, o relatório do Cemaden registrou aproximadamente R$ 2,9 bilhões em danos materiais e cerca de R$ 3,9 bilhões em prejuízos econômicos associados a desastres hidrometeorológicos. (Cemaden, Estado do Clima: Extremos de Clima e Desastres no Brasil, 2026)Os custos não se limitam ao balanço anual de danos. Estudo do Centro Internacional Celso Furtado, com apoio do Instituto Clima e Sociedade, estima que o Brasil perde cerca de R$ 110 bilhões do PIB por ano em razão de desastres ambientais ligados a chuvas e secas. Em cenário de aquecimento global de 2°C, esses prejuízos podem chegar a R$ 144,6 bilhões anuais. Já os custos da inação climática poderiam passar de R$ 48,1 bilhões para R$ 84,5 bilhões por ano.O paradoxo orçamentário reforça essa lógica. Enquanto recursos extraordinários são liberados para resposta e reconstrução, programas de prevenção e adaptação seguem disputando espaço. O Inesc apontou que o PLOA 2025 reduziu para R$ 1,7 bilhão a dotação do programa de gestão de riscos e desastres. Também indicou corte de R$ 380 milhões em ações de prevenção de desastres e adaptação climática em 2025. (Inesc, 2024 e 2025)A disparidade mais grave está nos municípios. Ali, enchentes invadem casas, pontes cedem, bairros ficam isolados e famílias perdem móveis, documentos, remédios, escolas, trabalho, memória e vidas. Também faltam equipes técnicas, dados atualizados, recursos próprios e planejamento.Segundo a revista Pesquisa FAPESP, com base em estudo publicado na Sustainable Cities and Society, menos de 13% dos municípios brasileiros apresentam boa capacidade institucional e instrumentos legais razoáveis para se adaptar às mudanças climáticas. Apenas 13% das cidades declararam, em 2020, possuir planos municipais de redução de riscos, e 5,5% tinham cartas geotécnicas. (idem)O país conhece o repertório da Agenda 2030: cidades resilientes, adaptação climática, redução de riscos e ação contra a mudança do clima. Governos repetem compromissos com facilidade, mas ainda executam pouco onde o desastre acontece: nos municípios.Esses dados mostram a razão de recursos nacionais não garantirem proteção local. Dinheiro em fundos, programas e créditos extraordinários só se transforma em ação com projetos, equipes, diagnóstico, governança e capacidade administrativa. Sem essa estrutura, a política climática chega mais facilmente como socorro, não como prevenção.O Brasil tem monitoramento, fundos, programas de adaptação e leis capazes de mobilizar recursos. Falta transformar toda essa estrutura em capacidade técnica e de ação municipal. Enquanto as cidades não tiverem plano, defesa civil estruturada, carta geotécnica e acesso efetivo ao financiamento, a emergência continuará recebendo mais atenção do que a prevenção.O El Niño de 2026 será mais do que um fenômeno climático a monitorar. Será um teste da capacidade brasileira de transformar alerta em planejamento, financiamento em execução e emergência em prevenção. O país já sabe identificar parte dos riscos. Falta demonstrar capacidade para reduzi-los antes de sua conversão em desastre.