A endometriose costuma ser associada apenas ao sistema reprodutivo feminino. Mas, nos últimos anos, a ciência começou a entender que a doença vai muito além das lesões visíveis nos ovários, útero ou cavidade pélvica. Hoje, sabe-se que a endometriose pode provocar alterações profundas em tecidos conjuntivos, aderências internas e processos inflamatórios que repercutem em todo o corpo.Isso ajuda a explicar por que muitas mulheres continuam sentindo dor intensa mesmo após cirurgias outratamentos hormonais aparentemente bem-sucedidos. Uma das estruturas que mais vêm chamando atenção nesse processo é a fáscia – tecido contínuo que envolve músculos, órgãos, vasos sanguíneos e diferentes estruturas internas do corpo. A relação entre endometriose e sistema fascial vem sendo cada vez mais estudada por pesquisadores da área de dor pélvica e medicina regenerativa.O que antes era visto apenas como uma doença ginecológica passou a ser compreendido também como uma condição complexa que envolve inflamação crônica, remodelagem tecidual e sensibilização do sistema nervoso.A endometriose também afeta o tecido conjuntivoA endometriose ocorre quando células semelhantes às do endométrio crescem fora do útero, provocando inflamação, dor e formação de aderências. Esse processo inflamatório persistente estimula intensa atividade de fibroblastos – células fundamentais do tecido conjuntivo responsáveis pela produção de fibras e pela reparação tecidual.O problema é que essa resposta pode se tornar desorganizada e excessiva. Com o tempo, ocorre formação de fibrose, aderências e alterações mecânicas nos tecidos da pelve. Na prática, isso significa que estruturas internas podem perder mobilidade natural e passar a gerar tensão contínua no organismo. Estudos recentes publicados em periódicos internacionais mostram que pacientes com endometriose frequentemente apresentam alterações miofasciais importantes, especialmente na região pélvica, abdominal e lombar. Em muitos casos, o tecido se torna mais rígido, sensível e reativo à dor.Isso ajuda a entender por que algumas mulheres apresentam dores intensas mesmo quando as lesões da endometriose parecem pequenas nos exames de imagem. A dor, nesses casos, não depende apenas da quantidade de lesões, mas também do impacto funcional e neuromuscular provocado pela doença ao longo do tempo.Quando a dor ultrapassa a própria lesãoA fáscia possui grande quantidade de terminações nervosas e participa diretamente da percepção corporal e da modulação da dor. Quando existe inflamação persistente e perda de mobilidade tecidual, o sistema nervoso pode entrar em estado de hipersensibilidade.É por isso que muitas pacientes com endometriose desenvolvem dor pélvica crônica, desconforto durante relações sexuais, dor lombar, prisão de ventre, sensação de tensão abdominal e limitação de movimentos mesmo fora do período menstrual.Em alguns casos, o corpo permanece em estado contínuo de proteção muscular e fascial, como se estivesse permanentemente “defendendo” a região dolorosa. Esse mecanismo pode gerar alterações posturais, compensações musculares e amplificação progressiva da dor.Hoje, especialistas em dor crônica reconhecem que a endometriose não deve ser analisada apenas pelapresença de lesões ginecológicas, mas também pelo impacto global sobre tecidos, movimento e sistemanervoso.O tratamento precisa ir além da lesão ginecológicaO tratamento da endometriose continua envolvendo acompanhamento ginecológico, controle hormonal, mudanças de estilo de vida e, em alguns casos, cirurgia. Mas cresce o entendimento de que o cuidado precisa ser integrado.A fisioterapia pélvica e as abordagens fasciais vêm ganhando espaço justamente porque atuam em aspectos frequentemente negligenciados da doença: mobilidade tecidual, aderências, tensão muscular e sensibilização dolorosa.Dependendo do caso, técnicas manuais, exercícios terapêuticos, mobilidade pélvica, trabalho respiratório e estratégias de reeducação corporal podem auxiliar na redução da dor e na melhora funcional. É importante deixar claro que a abordagem fascial não “cura” a endometriose. No entanto, pode representar um recurso importante dentro de um tratamento multidisciplinar voltado à qualidade de vida da paciente.Cada mulher vivencia a doença de forma diferente. Por isso, o tratamento precisa ser individualizado e baseado em avaliação médica e funcional adequada. O que a ciência vem mostrando é que a dor da endometriose não está apenas onde a lesão aparece. Muitas vezes, ela se espalha pelos tecidos, pelo movimento e pelo sistema nervoso – e compreender essa conexão pode transformar a forma como cuidamos dessas pacientes.Monica Schapiro | CREFITO – 423396-FFisioterapiaMembro Brazil Health