Quem entra em uma padaria ou livraria da região de Chiemgau, na Baviera, pode se surpreender ao ver clientes pagando com cédulas coloridas estampadas com gafanhotos, joaninhas e outros insetos. Longe de se parecerem com o euro, essas notas fazem parte do Chiemgauer, uma moeda criada pela própria comunidade e utilizada por cerca de 4,2 mil pessoas e 300 empresas. “Estimamos que de 10% a 15% dos clientes paguem dessa forma”, contou um livreiro ao jornal Deutsche Welle. O sistema, que funciona há mais de duas décadas, nasceu para fortalecer a economia regional e, mais recentemente, passou a atuar também como ferramenta de combate às mudanças climáticas. A história começou em 2003, em uma escola de ensino médio da região. O professor de economia Christian Gelleri e um grupo de estudantes buscavam uma forma de apoiar comerciantes locais que perdiam clientes para shopping centers e grandes redes varejistas. A solução foi criar uma moeda própria, pensada para manter os recursos circulando dentro da comunidade. O experimento rapidamente ganhou adesão de moradores e comerciantes. Hoje, segundo Gelleri, que continua presidindo a associação responsável pela iniciativa, “Cinco milhões de Chiemgauers são gastos anualmente”. Em seu escritório na cidade de Traunstein, nos contrafortes dos Alpes, Gelleri guarda no cofre da associação pilhas de cédulas que equivalem a mais de 200 mil euros. A relação é simples: um Chiemgauer vale exatamente um euro. As notas são produzidas por uma empresa especializada, contam com marcas d’água e dispositivos de segurança contra falsificação. Embora a legislação alemã restrinja a emissão de moedas paralelas, o Deutsche Bundesbank tolera o sistema por sua escala limitada e alcance regional. Para utilizar a moeda, é necessário se registrar na associação Chiemgauer. Foto: Luba | PexelsO funcionamento do sistema incentiva a circulação constante do dinheiro. Em Traunstein, comerciantes e consumidores utilizam o Chiemgauer tanto em espécie quanto por meio de um cartão vinculado a contas bancárias convencionais. Um cliente de uma loja de alimentos orgânicos contou à DW que utiliza a moeda para fazer suas próprias compras, enquanto uma comerciante de produtos mediterrâneos afirma pagar fornecedores com os Chiemgauers recebidos dos clientes. Para manter as notas válidas, os usuários precisam adquirir um selo semestral, cerca de 0,30 euro para uma nota de 10 Chiemgauers. Após três anos, as cédulas expiram. Pessoas físicas não podem converter a moeda em euros; empresas podem fazê-lo mediante uma taxa de 5%, destinada à manutenção do sistema e ao apoio de organizações sem fins lucrativos. Nos últimos anos, o projeto incorporou uma dimensão ambiental. Moradores passaram a receber bônus em Chiemgauers ao adotar práticas favoráveis ao clima, como consertar roupas em vez de comprar peças novas, utilizar serviços de compartilhamento de veículos ou melhorar o isolamento térmico de residências com materiais naturais. As recompensas variam de um a 200 Chiemgauers. “O dono deste conjunto de paineis solares ganhou 100 Chiemgauers”, diz Gelleri, apontando para dois paineis instalados em um quintal em Traunstein. “Em 20 anos, esse sistema de energia para varanda vai economizar 11 toneladas de dióxido de carbono (CO2).” Leia também: 1.Santos recebe Ecobarreira e loja comunitária com moeda social 2.Comunidades no Rio transformam lixo reciclável em moeda social Os incentivos são financiados por moradores e empresas que contribuem para um fundo coletivo destinado à compensação de emissões, em um modelo semelhante a um sistema local de comércio de carbono. Segundo os organizadores, para cada tonelada compensada pelo fundo, nove toneladas deixam de ser emitidas graças aos comportamentos sustentáveis estimulados pelo programa. A iniciativa inspirou outras quatro regiões alemãs a criarem sistemas semelhantes. Nos últimos quatro anos, esses programas evitaram a emissão de 12,8 toneladas de CO2, volume equivalente às emissões de aproximadamente 2 mil carros alemães no mesmo período, de acordo com auditorias independentes da TÜV Nord. O Chiemgauer integra um universo de cerca de 300 moedas complementares em circulação no mundo, concentradas principalmente na Europa e no Brasil. Em geral, essas iniciativas buscam fortalecer economias locais e promover benefícios sociais, ao mesmo tempo em que reduzem impactos ambientais associados ao transporte de mercadorias. “As moedas incentivam o consumo local, o que encurta as cadeias de suprimento, já que os comerciantes compram produtos produzidos localmente”, afirma Ester Barinaga, pesquisadora da Universidade de Lund, na Suécia. Segundo o MIT e a Agência Internacional de Energia, o transporte de cargas responde por 8% das emissões globais de gases de efeito estufa. Ainda assim, especialistas reconhecem limitações: produtos como roupas, eletrônicos e outros bens manufaturados continuam sendo importados, menos de 1% da população local participa do sistema e, caso a iniciativa cresça significativamente, poderá ser alvo de regulamentação mais rígida por parte do banco central alemão. The post Moeda local impulsiona ação climática na Alemanha appeared first on CicloVivo.