O Brasil, durante décadas, foi exemplo de vacinação infantil para o mundo inteiro. Campanhas de vacinação eram seguidas por quase todos, e pais que deixassem de vacinar seus filhos eram vistos com desconfiança.Mas o que mudou? O fenômeno não é exclusivo do Brasil, mas, pelo sucesso que tivemos no passado, é extremamente preocupante. Segundo levantamento feito pelo Unicef e divulgado pela Folha de São Paulo, o “Brasil retornou à lista dos 20 países com maior número de crianças não vacinadas no mundo”.Segundo a OMS, 229 mil crianças brasileiras não foram vacinadas em 2024. Movimento antivacina é um dos responsáveis. Crédito: Peter Hansen/iStockMovimento antivacina é responsável pelo aumento de crianças sem vacinaDados da Organização Mundial de Saúde (OMS) afirmam que 229 mil crianças deixaram de ser vacinadas no país em 2024, 126 mil a mais que em 2023, no mundo, cerca de 14,3 milhões de crianças não tomaram vacina alguma. E um dos fatores citados por especialistas é o aumento do movimento antivacinaLevantamento do Ministério da Saúde afirma que a cobertura vacinal no Brasil, que era de 97% em 2015, caiu para 75% em 2020, o que já deveria ter ligado um alarme gigantesco entre as autoridades nacionais, mas não foi o que vimos.Tem acontecido uma epidemia de informações falsas divulgadas propositadamente por pessoas mal-intencionadas nas redes sociais.Fernando Bellissimo Rodrigues, médico infectologista da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, ao jornal da USP.E, para Rodrigues, “o objetivo desses indivíduos não é especificamente reduzir a cobertura vacinal, mas fazer lucro com a desinformação”.Segundo especialistas, essas são algumas causas da queda na vacinação infantil no Brasil:Aumento do movimento antivacinaDisseminação de fake news nas redes sociaisLucro com desinformação digital Falsa impressão de que doenças foram erradicadasMenor percepção de risco de doenças como sarampo e pólioEspecialistas afirmam que o Ministério da Saúde precisa investir em comunicação para combater notícias falsas e incentivar campanhas de vacinação. Crédito: Marcelo Camargo/Agência BrasilMas o que fazer para incentivar a vacinação infantil?Rodrigues acredita que o Ministério da Saúde deveria criar campanhas para combater notícias falsas em relação às vacinas.“A introdução de campanhas nacionais desmistificando conteúdo falso é de extrema importância para o esclarecimento das populações a respeito das vacinas”, acredita o infectologista. Além de incentivar políticas públicas voltadas para a atenção primária à saúde, com a ampliação do número de agentes comunitários da saúde.Leia mais:Cientistas avançam em possível vacina universal contra o câncerVacina do futuro pode ser aplicada usando… fio dentalCorte de Trump ameaça vacinas mRNA contra câncer e HIV“Esses agentes são responsáveis por ir até a casa das pessoas, verificar o cartão vacinal de cada membro da família e, principalmente, estimular uma maior adesão à imunização, cuja cobertura necessita ser expandida no Brasil”, afirma.E o SUS, por meio do Programa Nacional de Imunização (PNI) tem total capacidade para atender as necessidades de vacinação infantil, mesmo com todas as falhas já conhecidas, como a falta de vacinas em algumas unidades.O PNI tem, sim, condições de ofertar e vacinar todos, o que precisamos é levar essas crianças para as unidades de saúde.Fernando Bellissimo Rodrigues, médico infectologista da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, ao jornal da USP.Combater a desinformação e aumentar o investimentoA falsa impressão de que as doenças estão controladas levam a uma redução na imunização. Crédito: Romolo Tavani (Shutterstock)Mas o problema não está apenas nas fake news veiculadas corriqueiramente pelas mídias sociais. Existe também a falsa ideia de que as doenças contagiosas foram totalmente erradicadas no país.Esse alerta é feito pela pediatra Jorgete Maria e Silva, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. “Entre 2012 e 2016, começou a se observar uma queda na vacinação. Na época, passou-se a ter menos casos de sarampo e poliomielite”, explica.Segundo a pediatra, isso levou a “uma falsa impressão de que as doenças estavam controladas e que não era preciso receber imunização. Em conjunto a isso, houve também o crescimento de ideias de grupos antivacinas”, levando ao retorno de doenças que, até então, estavam erradicadas. Em 2024, por exemplo, o Brasil registrou o primeiro caso de poliomielite em 34 anos. Segundo a Associação Médica Brasileira, o caso envolveu uma criança de três anos e o Ministério da Saúde confirmou que ela não estava com o esquema vacinal completo.O maior impacto é trazer doenças imunopreveníveis, como surtos de sarampo, coqueluche e poliomielite.Jorgete Maria e Silva, pediatra do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, ao Jornal da USP.Para virarmos esse jogo, acredita a pediatra, “o Ministério da Saúde precisa obter mais espaço nos meios de comunicação e divulgar a importância dos imunizantes”, além de investir na educação da população geral, principalmente entre a população mais vulnerável.O post Fake news ameaçam a vacinação infantil no Brasil apareceu primeiro em Olhar Digital.