Cientistas encontram 1ªs evidências de encontro entre neandertais e Sapiens

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Em um afloramento rochoso no Monte Carmelo, no que hoje é Israel, um grupo de humanos antigos enterrou seus mortos há cerca de 140 mil anos. Cientistas descobriram o local, chamado Caverna Skhul, em 1928 e, cerca de três anos depois, encontraram os restos de mais de uma dúzia de indivíduos.O sítio é um dos exemplos mais antigos de práticas funerárias entre humanos antigos, mas os pesquisadores ficaram intrigados com a anatomia dos hominíneos escavados.Algumas de suas características esqueléticas se assemelhavam às do Homo sapiens, enquanto outras eram mais próximas das dos Neandertais, tornando a espécie difícil de classificar. Leia mais Arqueólogos descobrem templo perdido de misteriosa sociedade na Bolívia Ferramentas de pedra podem revelar mais sobre misteriosos "humanos hobbit" Corpos de 14 vítimas de rituais de sacrifício são achados em templo no Peru O primeiro esqueleto descoberto no local de sepultamento de Skhul pertencia a uma criança de três a cinco anos, provavelmente uma menina. Usando varreduras de alta resolução do crânio e da mandíbula da criança, os cientistas agora propõem que o indivíduo possuía traços anatômicos tanto de Homo neanderthalensis quanto de Homo sapiens.Se essa conclusão for correta, a ossada — e outros restos encontrados na caverna — representa o exemplo mais antigo conhecido de cruzamento entre Neandertais e nossa própria espécie, segundo relataram os pesquisadores na edição de julho-agosto da revista L’Anthropologie.Análises anteriores de DNA nos genomas de humanos modernos e de Neandertais sugeriam que as duas espécies se cruzaram entre 50.500 e 43.500 anos atrás. As novas descobertas podem empurrar essa mistura genética para quase 100 mil anos antes, disse o autor sênior do estudo, Dr. Israel Hershkovitz, professor da Faculdade Gray de Ciências Médicas e da Saúde da Universidade de Tel Aviv.Elas também indicam um longo período de convivência pacífica entre humanos modernos e Neandertais no Levante, região que margeia o leste do Mar Mediterrâneo, disse Hershkovitz à CNN.“O que trazemos para a história da evolução humana não é uma sobreposição curta com nossos parentes, os Neandertais, mas uma sobreposição muito longa no tempo e no espaço”, disse Hershkovitz. “Você pensaria que esses dois grupos de Homo seriam populações em competição. De repente, vemos que eles conseguiram viver lado a lado.”O maxilar inferior da criança no sítio arqueológico da Caverna Skhul tinha características neandertais • Tel Aviv University via CNN NewsourceEssa interpretação da hibridização entre Neandertais e Homo sapiens exige cautela, no entanto, já que características anatômicas podem ser mais ambíguas do que dados genéticos, e fatores como a história de vida de um indivíduo podem afetar a expressão de certos traços, disse William Harcourt-Smith, pesquisador associado residente no Museu Americano de História Natural, em Nova York, e professor adjunto na Richard Gilder Graduate School do mesmo museu.A pouca idade do indivíduo do estudo também deve ser considerada, já que o crescimento na infância pode afetar variações anatômicas, acrescentou Harcourt-Smith, que não participou da nova pesquisa.“A maioria dos estudos comparativos de espécies tende a se concentrar apenas em indivíduos adultos, para minimizar esse problema”, afirmou. Os cientistas, portanto, precisam ter cuidado ao usar apenas dados esqueléticos como prova de que um fóssil representa uma espécie híbrida.Certas características também podem ser herdadas de ancestrais e não representam necessariamente hibridização, disse o Dr. Zeresenay Alemseged, professor no Departamento de Biologia Organísmica e Anatomia da Universidade de Chicago, que também não esteve envolvido no novo estudo. Ainda assim, a hipótese de que a ancestralidade da criança incluiu cruzamentos “não é descabida”, afirmou Alemseged em um e-mail à CNN.“Estudos anteriores de DNA mostram que as duas espécies se cruzaram, e as evidências fósseis indicam que elas se sobrepunham geograficamente no Levante antes de 100 mil anos atrás, quando o H. sapiens tentou pela primeira vez deixar a África”, acrescentou. “Mas o árbitro definitivo é o DNA ou outro marcador bioquímico.”Mistura e cruzamentosUm pesquisador do projeto usou um programa de software de IA para criar uma imagem de como seria uma família híbrida de Neandertal e Homo sapiens • Tel Aviv University via CNN NewsourceHumanos modernos e Neandertais compartilham um ancestral que surgiu na África, mas as duas linhagens divergiram há pelo menos 500 mil anos.Os primeiros Neandertais apareceram na Ásia e na Europa há cerca de 400 mil anos, enquanto o H. sapiens evoluiu na África há cerca de 300 mil anos e depois migrou para os continentes asiático e europeu.Fora da África, populações de Neandertais e H. sapiens conviveram e cruzaram até que os Neandertais se extinguiram, há cerca de 40 mil anos. Hoje, os genomas da maioria dos humanos modernos cujos ancestrais migraram para a Europa e a Ásia contêm cerca de 1% a 4% de DNA Neandertal.Quando os cientistas descobriram os fósseis de Skhul, há quase um século, sugeriram que a hibridização entre as duas espécies poderia explicar a anatomia incomum dos hominíneos. As ferramentas da época, no entanto, não permitiam examinar os ossos em alta resolução.O autor sênior do estudo, Dr. Israel Hershkovitz, diz que os neandertais e o Homo sapiens podem ter cruzado quase 100.000 anos antes do que se pensava • Tel Aviv University via CNN NewsourceNo novo estudo, porém, pesquisadores da França e de Israel usaram microtomografias computadorizadas (micro-CT) para capturar imagens das estruturas do crânio e da mandíbula da criança de Skhul em detalhes sem precedentes e, em seguida, modelaram os ossos digitalmente em 3D.Em sua forma geral — especialmente na curvatura da abóbada craniana ao redor do cérebro —, o crânio se parecia com o de um H. sapiens. Mas a estrutura do labirinto ósseo — uma área rígida que envolve o ouvido interno, pequena demais para ser vista sem micro-CT — se assemelhava mais à anatomia dos Neandertais.O formato da mandíbula inferior, a estrutura interna dos dentes e a rede pouco desenvolvida de vasos sanguíneos dentro do crânio também eram mais próximos das características Neandertais.Foram descobertos, na Caverna Skhul, esqueletos de sete adultos e três crianças enterrados intencionalmente, além de ossos isolados de outros 16 indivíduos. Dos 10 sepultamentos, cada pessoa possuía uma combinação diferente de traços de H. sapiens e Neandertais, disse Hershkovitz.Embora o crânio da primeira criança descoberta tenha sido o único fóssil de Skhul analisado no estudo, “todos eles manifestam o que chamamos de ‘morfologia em mosaico’, no sentido de apresentarem tanto características Neandertais quanto de Homo sapiens”.Os sepultamentos em Skhul também pedem uma reavaliação do desenvolvimento da cultura nos primeiros humanos, disse Hershkovitz. Ao designarem o afloramento rochoso como cemitério, as pessoas que enterraram seus mortos ali estavam demonstrando territorialidade, um tipo de comportamento social tipicamente associado ao início da agricultura, há cerca de 12 mil anos.“E aqui vemos que, 140 mil anos atrás, as pessoas já formavam algum tipo de grupo territorial”, disse Hershkovitz. “Precisamos voltar e refazer nossos estudos sobre o comportamento humano, não apenas a biologia.”Arqueólogos encontram passagens secretas subterrâneas incas