A Petrobras concluiu o simulado de perfuração na Foz do Amazonas, considerado o último passo antes da concessão da licença ambiental. O exercício mobilizou mais de 400 profissionais, embarcações, aeronaves e a sonda já posicionada em águas profundas do Amapá. Para a empresa, trata-se de uma vitória operacional. Para o Ibama, é o início da etapa mais delicada: a análise técnica que dirá se o plano de emergência é suficiente para liberar a exploração. O avanço coloca a estatal a um passo da perfuração do poço Morpho, em área que o setor considera promissora, comparável às descobertas de Suriname e Guiana. Mas a proximidade da licença não encerra o debate. Pelo contrário: amplia as contradições entre a pressa em expandir a fronteira petrolífera e as falhas históricas do processo de licenciamento. A Avaliação Ambiental de Área Sedimentar (AAAS), que deveria mapear riscos e ordenar a exploração em toda a Margem Equatorial, nunca foi concluída. Sem ela, a decisão se apoia em estudos fragmentados, aumentando a vulnerabilidade jurídica e a insegurança regulatória. É nesse ponto que Ministério Público, sociedade civil e até técnicos do próprio Ibama levantam questionamentos: um licenciamento feito sem essa base pode não resistir à judicialização. Siga o canal da Jovem Pan News e receba as principais notícias no seu WhatsApp! WhatsApp Além disso, os riscos ambientais são expressivos. A região abriga recifes de corais de águas profundas, biodiversidade única e comunidades tradicionais que dependem de rios e mares hoje ameaçados pelo uso de mercúrio, pelo desmatamento e, agora, pela possibilidade de acidentes com petróleo. O simulado demonstrou capacidade de resposta, mas especialistas lembram que conter um vazamento em águas remotas, com correntes intensas e condições adversas, é uma operação de alto risco. Às vésperas da COP30, a possível licença carrega peso político. O Brasil se apresenta ao mundo como líder da transição energética, mas abre espaço para um novo polo fóssil em plena Amazônia Azul. O dilema é claro: ser protagonista da economia verde ou insistir em um modelo que pode comprometer sua credibilidade internacional. O Ibama não definiu prazo para a decisão. Mas o que está em jogo ultrapassa um parecer técnico. É a escolha entre reforçar a imagem do Brasil como potência da biodiversidade ou se arriscar em mais uma corrida pelo petróleo — em um planeta que já não tem tempo a perder. Leia também Brasil taxa plástico dos EUA e Canadá em meio a guerra comercial