Desde 1º de fevereiro, cerca de 15 milhões de trabalhadores, aposentados e pensionistas brasileiros passaram a receber a sua remuneração mensal com menos ou nenhum Imposto de Renda descontado. Promessa de campanha do presidente Lula, a isenção do IR para quem ganha até 5 000 reais foi aprovada em outubro no Congresso Nacional e passou a valer neste ano. Quem recebe de 5 000 a 7 350 reais também ganhou um desconto gradual do tributo. Como os pagamentos referentes a janeiro só começaram a ser feitos recentemente, é também daqui para frente que os contemplados e, com eles, toda a economia devem começar a sentir os efeitos dos bilhões de reais a mais que vão deixar de ir para os cofres públicos e ficarão nas mãos das pessoas. Até então, eram isentos os que ganhavam até 3 036 reais, e todos com salário superior a 4 664 reais já pagavam a alíquota máxima da tabela, que é de 27,5%.Houve um alargamento considerável nas faixas do piso e que implica vários potenciais impactos. O primeiro deles é para os contribuintes beneficiados, que, na média, terão um bônus de 200 reais na conta todo mês. O segundo é para a economia. A estimativa do Ministério da Fazenda é que, ao todo, serão 31 bilhões de reais a mais para essas pessoas no ano. O terceiro efeito é político, dado que a isenção do Imposto de Renda é uma das principais apostas de Lula para a reeleição. “A isenção do IR é um tema central que vai para a disputa política”, diz o deputado federal José Guimarães (PT-CE), líder do governo na Câmara. “Ela ainda não surtiu o efeito esperado, mas é só questão de tempo.”Se todos os efeitos vão se concretizar conforme o desejo do Planalto, ainda é cedo para dizer. Mas os números confirmam a necessidade de atenção. Apesar do volume de programas sociais criados ou relançados neste terceiro mandato, a aprovação ao governo está estagnada desde a posse, com o apoio em torno de metade do eleitorado. Em relação à redução de IR, o alcance ainda é modesto, frustrando quem esperava um efeito mais imediato nos humores da população. Um levantamento da Genial/Quaest feito no início de fevereiro mostra que apenas 3% dos entrevistados apontaram a medida como a iniciativa federal de maior impacto em suas vidas. “Não é muito, mas qualquer dinheiro ajuda”, diz Cristina Aparecida de Jesus, uma professora de 46 anos de Salvador. Com um salário de 6 300 reais, ela terá cerca de 140 reais a mais por mês, o que deve ajudar a inteirar a condução dos filhos para a escola. Mal compensa, porém, os quase 2 000 reais que ela tem descontados em folha todo mês dos sete consignados que já contratou para completar as contas.PAGANDO AS CONTAS – Cristina Aparecida de Jesus, 46, é professora da rede municipal de Salvador. Ela ganha 6 300 reais e terá cerca de 140 reais a mais por mês. “Para quem é mãe solo como eu, é um dinheiro que ajuda.” (//Arquivo pessoal)A mesma pesquisa da Quaest também revelou que o governo tem tido dificuldade para emplacar novas bondades no gosto do eleitor. Nenhum dos novos programas de Lula 3 — o Pé-de-Meia, o Gás do Povo ou a nova CNH — atinge mais de 6 pontos percentuais na avaliação dos entrevistados, muito abaixo do Bolsa Família, que chega a 63%. O problema é que os programas sociais mais antigos também já não têm o mesmo impacto nas urnas. “Os eleitores não veem mais o Bolsa Família como algo do PT, ele já virou uma política permanente”, diz Eduardo Grin, cientista social e professor da Fundação Getulio Vargas.Ciente da necessidade de renovar a agenda, a equipe de Lula reforçou a artilharia sobre a redução do IR. No perfil oficial do governo no Instagram, as três primeiras publicações fixadas no topo são peças relativas ao tema. No YouTube, há seis vídeos publicitários sobre o benefício. Neste mês, os cidadãos também passaram a receber mensagens na conta pessoal do Gov.br e do WhatsApp informando o início da nova faixa de isenção. “O desempenho de Lula é tradicionalmente melhor na renda mais baixa, mas esses já eram isentos”, avalia Yuri Sanches, diretor do instituto de pesquisas AtlasIntel. “Com a ampliação das faixas, o governo tenta chegar a uma parcela da classe média que foi ficando cada vez mais vinculada ao bolsonarismo.” O assédio ao novo público é tanto que até entrou na mira da oposição — o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) anunciou que vai acionar o Tribunal Superior Eleitoral para apurar o caráter eleitoral da medida. “Querem mesmo que a gente acredite que isso é ‘comunicação institucional’ e não campanha antecipada?”, afirma.Na frente econômica, a largada está dada e o impacto não é desprezível. “A atividade está em desaceleração e o agronegócio não vai ter o mesmo avanço de dois dígitos do ano passado”, diz Italo Franca, chefe de política fiscal do banco Santander. “Por isso, a isenção do Imposto de Renda acaba sendo uma das medidas mais importantes para o crescimento de 2026.” A estimativa é de que o produto interno bruto (PIB) cresça entre 1,5% e 2% neste ano. Nas contas do Santander, até 0,3% disso deve vir do aumento de consumo decorrente do benefício tributário. É o maior peso no resultado vindo de uma medida só. Para Braz Ferreira, um aposentado de 64 anos, o plano é transformar o dinheiro extra em lazer. “Eu gosto de ir a restaurantes, ao cinema, viajar, e é isso que devo fazer”, afirma. Ele ganha 5 300 reais por mês do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e terá uma sobra mensal de 270 reais.O despejo de bilhões de reais na economia, entretanto, tem efeitos colaterais que não podem ser desprezados dentro da atual conjuntura. “É um choque de demanda que faz as empresas produzirem e contratarem mais”, diz Bruno Imaizumi, economista da consultoria 4intelligence. “Mas, com o mercado de trabalho apertado, os salários sobem e pressionam ainda mais a inflação.” A taxa de juros básica Selic está hoje em 15% ao ano, uma dose cavalar de desestímulo aos investimentos. Ela deve finalmente começar a ser cortada pelo Banco Central em março, mas de maneira lenta. As expectativas do mercado são de que a Selic encerre 2026 perto dos 12%, uma taxa ainda bastante amarga.EXTRA PARA O LAZER – Aposentado e morando sozinho em São Paulo, Braz Ferreira, 64, ganha 5 300 reais do INSS. Vai pagar 270 a menos de IR. “Já dá para cobrir a conta da TV e da internet”, diz. Com a sobra, afirma, planeja viajar. (//Arquivo pessoal)A projeção da 4intelligence é de que, sem o estímulo bilionário do IR, a taxa poderia cair até 0,9 ponto percentual mais que isso. Já a inflação, que está girando em torno dos 4% ao ano, poderia terminar o ano até 0,6 ponto menor — e chegar bem mais depressa à meta de 3%, que não é alcançada há anos. Com os juros mais altos por mais tempo, o resultado pode ser um PIB ainda mais deprimido em 2027. O Santander estima um crescimento de apenas 1% para o ano que vem, quando os efeitos da isenção do IR já terão se diluído.Com isso, mais uma vez o país pode ver novamente o mesmo filme: o dos efeitos colaterais da tentativa dos governos petistas de turbinar a economia somente à base do incremento do consumo, desprezando totalmente consequências negativas como o endividamento e a inflação. Para o Palácio do Planalto, no entanto, o futuro que importa é o horizonte das eleições de 2026.O post De olho na eleição, governo Lula inicia campanha para faturar com a isenção do IR apareceu primeiro em Vitrine do Cariri.