A história de “The Ultimate Sin”, o disco “maldito” de Ozzy Osbourne

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Quando “The Ultimate Sin” chegou às lojas 40 anos atrás, parecia apenas mais um capítulo da bem-sucedida carreira solo de Ozzy Osbourne. Com produção polida e forte apelo radiofônico, o trabalho trouxe a última participação do guitarrista Jake E. Lee; a estreia — e despedida — do baixista Phil Soussan, coautor do hit single “Shot in the Dark”; e o primeiro registro de estúdio de Randy Castillo, substituindo Tommy Aldridge, na bateria.Produzido por Ron Nevison, o disco refletia um momento de forte pressão comercial da indústria fonográfica, que exigia canções mais diretas e palatáveis. Quatro décadas depois, permanece como um paradoxo dentro da discografia de Ozzy. Uma obra que funcionou a nível de mercado, mas cuja construção revelou decisões centralizadas, conflitos criativos e relações profissionais frequentemente descartáveis nos bastidores.Conheça a história.Embaixo da luaA turnê de “Bark at the Moon” (1983) foi o ponto de partida de um ciclo decisivo na carreira solo de Ozzy Osbourne. O álbum pode não ter sido recebido com o mesmo entusiasmo de “Blizzard of Ozz” (1980) e “Diary of a Madman” (1981), mas serviu de base para um giro monumental que manteve o cantor em evidência durante boa parte da primeira metade dos anos 1980.Iniciada em 10 de novembro de 1983 e encerrada apenas em 19 de janeiro de 1985, no Rock in Rio, a Bark at the Moon Tour percorreu quatro continentes, passou por cinco etapas e totalizou 132 shows. Entre as bandas de abertura estiveram Waysted e Mötley Crüe — escolha pessoal de Ozzy após assistir ao Crüe no US Festival.O êxito da fase também se refletiu fora dos palcos. O videoclipe de “Bark at the Moon”, com Ozzy interpretando um lobisomem, beneficiou-se diretamente da ascensão da MTV, plataforma que sepultou carreiras de artistas pouco afeitos à linguagem visual e que encontrou em Osbourne um aliado que transformava seus clipes em extensões exageradas do espetáculo ao vivo.Apesar da maratona, 1985 começou com uma tentativa de freio. Após descobrir que a esposa Sharon Osbourne estava grávida de Kelly, Ozzy passou seis semanas internado no Betty Ford Center, o período mais longo que ficaria sóbrio em sua vida adulta até então. O primeiro show após a reabilitação aconteceu justamente no Rock in Rio, experiência que ele descreveu com frustração em “Eu Sou Ozzy” (Saraiva, 2010):“Tinha esperado ver a Garota de Ipanema em cada esquina, mas não vi nenhuma. Havia só um monte de crianças pobres correndo pelo lugar como ratos. As pessoas eram ou absurdamente ricas ou viviam nas ruas — parecia não haver nada no meio.”Ainda em 1985, Ozzy aceitou o convite para se reunir com o Black Sabbath, banda que o demitira anos antes, no Live Aid, em Filadélfia. O reencontro rendeu três músicas e um momento simbólico — embora relegado a um horário ingrato, às 10h da manhã, entre Billy Ocean e o Run-D.M.C.Passado o Live Aid, Ozzy encontrou novos obstáculos, como processos judiciais relacionados à música “Suicide Solution”, acusada, sem fundamento, de conter mensagens subliminares ligadas a um caso de suicídio. As ações acabariam arquivadas, mas contribuíram para o clima de desgaste pessoal e profissional.Com o futuro se tornando incerto, Ozzy celebrava o passado aprontando o lançamento de “Tribute”, álbum ao vivo em homenagem a Randy Rhoads. As tensões internas com seus músicos e colaboradores, somadas ao cansaço físico e à necessidade de dar um novo passo comercialmente viável, criaram o terreno fértil — e instável — que levaria ao início do processo de “The Ultimate Sin”.Autores silenciadosDesde os tempos de Black Sabbath, Ozzy nunca foi reconhecido como letrista. As letras clássicas da banda foram, em grande parte, obra de Geezer Butler. Na carreira solo, esse papel coube sobretudo a Bob Daisley, que já havia enfrentado problemas de crédito em “Blizzard of Ozz” e “Diary of a Madman”. Mas o conflito atingiria um novo patamar.A gênese de “The Ultimate Sin” ocorreu em meio ao caos. Enquanto Ozzy passava pela internação na Betty Ford Clinic, Jake E. Lee começou a estruturar sozinho boa parte do material. Munido de uma drum machine, um baixo improvisado e um estúdio portátil, Lee compôs cerca de 12 músicas completas — riffs, solos, partes de baixo e bateria — deixando vocais e letras em aberto, como era de praxe. Segundo o guitarrista, aproximadamente metade desse material acabou no álbum.Paralelamente, Daisley atuava como o principal arquiteto lírico do projeto. Em diversos depoimentos, ele afirma ter escrito todas as letras de “The Ultimate Sin”, com exceção de “Shot in the Dark”, creditada a Phil Soussan e Ozzy. O baixista também participou da construção musical das faixas ao lado de Jake, sobretudo durante os ensaios em Palm Springs, quando Osbourne frequentemente se ausentava. “Era basicamente eu e o Jake trabalhando sozinhos”, relatou à Rolling Stone.A situação se deteriorou após um desentendimento entre Bob e Ozzy. Demitido, o compositor foi chamado de volta semanas depois exclusivamente para escrever as letras, já com Soussan assumindo o baixo. Daisley aceitou o trabalho como um frila, sem garantias contratuais de crédito. O resultado? As primeiras 500 mil cópias de “The Ultimate Sin” foram prensadas sem qualquer menção ao seu nome. Apenas após a ameaça de processo judicial os créditos foram corrigidos em tiragens posteriores.Lee, por sua vez, conseguiu assegurar seus créditos em “The Ultimate Sin” justamente por ter sido prejudicado no álbum anterior, “Bark at the Moon”. A experiência o levou a exigir contratos assinados antes de qualquer nova colaboração — uma prática incomum, mas compreensível em um ambiente que ele próprio descreveu como “litigioso”. “Eu não queria ser aquele cara que tocou no disco, não teve crédito e ainda foi limado da turnê”, explicou anos depois.Entre conflitos e controleQuando Ron Nevison foi chamado para produzir “The Ultimate Sin”, Ozzy Osbourne apostava em um nome experiente e associado a discos de grande impacto comercial. No currículo do produtor britânico-americano figuravam clássicos do UFO (“Lights Out”, “Obsession” e o ao vivo “Strangers in the Night”) e o álbum homônimo do Heart, de 1985. A escolha parecia lógica para um artista veterano que buscava manter relevância em meio à ascensão do chamado glam metal.Em entrevista ao No Echo, Nevison reconheceu que “The Ultimate Sin” foi um projeto marcado por desafios constantes. As gravações ocorreram majoritariamente no The Town House Studios, em Londres, e o produtor recorda com clareza o processo de captação das guitarras de Jake E. Lee — elemento central do álbum. “Um disco como esse é 90% guitarra”, observou.Lee, no entanto, tinha hábitos pouco convencionais: preferia gravar de madrugada, alegando render melhor à noite. Nevison recusou sessões que começassem à meia-noite, mas propôs um meio-termo, trabalhando das 18h às 2h. O acordo funcionou tecnicamente, e o produtor faz questão de elogiar o guitarrista: “disciplinado, avesso a drogas e focado”.Em entrevista à Guitar World, Lee descreveu o produtor como alguém pouco flexível, avesso à criatividade. “Eu ia para o estúdio pensando sobre o que iríamos discutir naquele dia”, afirmou. Nevison, por sua vez, minimiza o atrito, atribuindo os conflitos à personalidade forte do guitarrista e à sua inclinação a assumir o papel de produtor. Também reconheceu o “talento excepcional” de Lee e disse nunca ter tido problemas a nível pessoal com ele.O clima pesou mesmo quando chegou a vez dos vocais. Segundo Nevison, Ozzy simplesmente não aparecia para gravar. Bebendo todas e trocando o dia pela noite, o cantor tornou-se o principal obstáculo para o avanço do álbum. A solução encontrada foi drástica. Em acordo com Sharon, Nevison decidiu levar Ozzy para um local onde ele não se sentisse confortável: Paris. A lógica era simples — longe de casa, ele seria forçado a cumprir a agenda.Durante dez dias em um estúdio francês, acompanhados por um segurança “de dois metros”, conseguiram concluir as vozes, ainda que com percalços, incluindo um dia inteiro em que Ozzy… simplesmente desapareceu.O acerto improvávelApesar das fricções, Ron Nevison foi decisivo em momentos-chave de “The Ultimate Sin”, como ao insistir para que Ozzy Osbourne gravasse a faixa acabou se tornando o maior sucesso comercial do disco.Composição de Phil Soussan e última música do álbum, “Shot in the Dark” foi inicialmente rejeitada pelo cantor. Musicalmente, a faixa foge do peso tradicional associado ao nome de Osbourne e aposta em uma estrutura mais acessível, com doses generosas de teclado, refrão marcante e forte apelo radiofônico. A origem, porém, está longe de ser simples.Antes de integrar o repertório de Ozzy, “Shot in the Dark” existia como demo gravada em 1983 pela banda Wildlife, da qual Soussan fazia parte ao lado dos irmãos Steve e Chris Overland (FM), do tecladista Mark Booty e do baterista Simon Kirke (Bad Company). Quando entrou para a banda de Ozzy, Soussan levou a música consigo, apresentando-a como uma composição própria. Na versão lançada oficialmente, os créditos ficaram restritos a ele e Osbourne.Embora até hoje debata-se sobre a real participação dos membros do Wildlife no processo criativo original, Soussan sempre reivindicou para si e somente para si a autoria. Em entrevista ao Noisecreep, descreveu “Shot in the Dark” como uma metáfora sobre ruptura e transformação pessoal — alguém que deseja abandonar o passado e recomeçar, ainda que sem controle total sobre o futuro.Segundo o baixista, Ozzy gostou imediatamente da letra e contribuiu principalmente com ajustes melódicos e sugestões pontuais para tornar o clima “mais sombrio”, sem descaracterizar a ideia central. A faixa, originalmente pensada em andamento mais rápido, foi lapidada até chegar ao formato definitivo.Curiosamente, nem Ozzy nem Jake E. Lee estavam convencidos de que a música deveria ser destaque do álbum. Lee admitiu, em entrevista à Guitar World, que a achou “comercial demais” em um primeiro momento. Quem bancou a aposta foi mesmo o produtor Ron Nevison, que insistiu em gravá-la e lançá-la como single — decisão que se provaria acertada do ponto de vista comercial. “Shot in the Dark” foi um raro caso em que o Madman conseguiu emplacar uma canção no Billboard Hot 100, alcançando a 68ª posição e permanecendo nove semanas no ranking.O videoclipe, dirigido por Andy Morahan (o mesmo da trilogia “Don’t Cry”, “November Rain” e “Estranged”, do Guns N’ Roses), alinha-se à estética mais polida do hard rock de meados dos anos 1980. A boa recepção em rádios e na MTV introduziu Ozzy a um público mais amplo, mesmo que isso tenha lhe custado parte da credibilidade junto aos fãs de longa-data. Um verdadeiro tiro no escuro — que, contra todas as probabilidades, acertou um alvo responsa.“O pior álbum de Ozzy Osbourne”“The Ultimate Sin” foi lançado em 22 de fevereiro de 1986, em um momento em que o heavy metal vivia uma explosão de popularidade dos Estados Unidos ao Reino Unido. Impulsionado principalmente pelo single “Shot in the Dark” e pela faixa-título cujo clipe retratava Ozzy como um magnata texano à la J.R. Ewing, da série “Dallas”, o álbum alcançou em três meses o disco de platina e, anos depois, em 1994, recebeu certificação dupla, ultrapassando a marca de 2 milhões de cópias vendidas.Apesar do sucesso comercial, a recepção crítica foi de mista a negativa. Parte da imprensa especializada elogiou a execução técnica da banda, mas muitos críticos apontaram o álbum como excessivamente polido, homogêneo e “poppy”, distante da crueza do metal tradicional que ajudou a consagrar Ozzy em empreitadas anteriores. Ao longo dos anos, “The Ultimate Sin” passou a ser frequentemente citado como o disco “maldito” em sua discografia, inclusive ficando fora de catálogo por longos períodos no fim da década de 1990.Para promover o álbum, Ozzy embarcou na Ultimate Sin Tour ao longo de 1986, que incluiu mais de 126 shows na Europa e nos Estados Unidos, e ainda contou com apresentações filmadas, como a de 1º de abril em Kansas City, lançada como “The Ultimate Ozzy”. A turnê também é lembrada pela participação de bandas que estavam em ascensão na cena metal, como o Metallica, que abriu para o cantor em diversas datas.O sucesso, no entanto, não evitou o desgaste interno. Pouco depois do lançamento do álbum e da turnê, Jake E. Lee foi demitido em circunstâncias nebulosas, comunicadas de forma indireta por Sharon Osbourne — decisão que nem a gravadora nem o management viram com bons olhos.Talvez por isso Lee inicialmente rejeitasse parte do material e, por muitos anos, tenha evitado ouvir o álbum. Com o passar do tempo, porém, revisitou o trabalho com mais carinho e o observa hoje com certa nostalgia, reconhecendo a qualidade de algumas composições e a conjuntura na qual ele foi criado.Ozzy, por sua vez, nunca escondeu sua insatisfação retrospectiva. Chegou a afirmar que gostaria de remixar o álbum por considerar que as músicas, embora não fossem ruins, “foram registradas de um jeito estranho”, sem imaginação ou variação sonora.A opinião mais contundente, contudo, veio de Bob Daisley. À Rolling Stone, ele foi direto ao comentar a produção: “Não acho que ele [Ron Nevison] tenha feito um bom trabalho”. Para o baixista, o disco soava engessado, o que ecoa a própria opinião de Ozzy, que passou a chamá-lo sarcasticamente de “The Ultimate Din”.Para Daisley, “The Ultimate Sin” foi um dos pontos mais baixos criativos da carreira de Ozzy. Com franqueza, afirmou que se sentia aliviado por não ter participado do projeto como músico. Para ele, não restam dúvidas:“Estou feliz por não ter tocado nesse. Acho que é o pior álbum do Ozzy.”Ozzy Osbourne – “The Ultimate Sin”Lançado em 22 de fevereiro de 1986 pela CBS RecordsProduzido por Ron NevisonFaixas:The Ultimate SinSecret LoserNever Know WhyThank God for the BombNeverLightning StrikesKiller of GiantsFool Like YouShot in the DarkMúsicos:Ozzy Osbourne – vocaisJake E. Lee – guitarraPhil Soussan – baixoRandy Castillo – bateriaQuer receber novidades sobre música direto em seu WhatsApp? Clique aqui!Clique para seguir IgorMiranda.com.br no: Instagram | Bluesky | Twitter | TikTok | Facebook | YouTube | Threads.O post A história de “The Ultimate Sin”, o disco “maldito” de Ozzy Osbourne apareceu primeiro em Igor Miranda.