“Reality show para gerar dinheiro”, diz sentença sobre Hytalo Santos e Euro

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A Justiça da Paraíba condenou, nesta sexta-feira (20), os influenciadores digitais Hytalo Santos e seu marido, Israel Nata Vicente, conhecido como Euro, pelo crime de exploração sexual de adolescentes na internet. De acordo com a sentença, o casal promovia uma espécie de “reality show” para ganhar dinheiro.Segundo a denúncia do MPPB (Ministério Público da Paraíba), acatada pelo juiz, os réus transformaram a própria residência, localizada em um condomínio de luxo, em um ambiente de gravação constante, expondo os jovens a situações de risco.O objetivo seria produzir conteúdo com forte apelo erótico e sexualizado envolvendo adolescentes vulneráveis, chamadas por eles de “crias”, para abastecer perfis nas redes sociais. Leia Mais Hytalo Santos: MPT torna influenciador e marido réus por exploração sexual MPPB denuncia Hytalo Santos e o marido Israel por crimes contra menores Hytalo Santos e marido viram réus por produção de pornografia infantil Para o juiz, os influenciadores criaram um “verdadeiro sórdido ‘reality show'”. Atraídos por falsas promessas de melhoria de vida, os adolescentes viviam em um ambiente de permissividade, com fornecimento de bebidas alcoólicas, enquanto suas necessidades de alimentação e educação eram negligenciadas.A sentença concluiu que o esquema causou danos e uma ruptura no desenvolvimento psicológico das vítimas, ensinando-as a buscar validação na internet “apenas por meio da exibição de seus corpos”.Vídeos de adolescentes foram cruciais para denúnciaUm conjunto de vídeos extraídos da internet formou as provas consideradas cruciais para embasar a condenação dos influenciadores.De acordo com a decisão judicial, a prova cibernética evidenciou a rotina na residência dos acusados. Os registros e capturas de tela mostraram o dia a dia dos jovens realizando danças e poses eróticas, sempre com roupas curtas e apelativas, com “clara conotação sensualizada e libidinosa”.Uma gravação ao som da música “Talarica” mostra dois rapazes abaixando as calças e entrando em um quarto com uma das adolescentes, simulando a prática de sexo a três. O vídeo conta, inclusive, com a participação do próprio Hytalo Santos.Em outra postagem, o cenário é uma festa onde três adolescentes, duas meninas e um menino, protagonizam um beijo triplo. Nas imagens, é possível ver outros jovens assistindo e rindo da situação.A Justiça também destacou um vídeo em que Hytalo interpreta um professor, enquanto as adolescentes atuam como suas alunas. A encenação acompanha coreografias virais ao som da música “Tropa do Hs”, que faz alusão a relações sexuais.Ainda segundo a sentença, as gravações frequentemente utilizavam músicas do gênero brega-funk e funk, cujas letras continham linguagem obscena e menções a sexo explícito.O documento cita o uso de músicas com letras que falam em “engravidar p******” e “quem será a sortuda que vai vir g**** primeiro” enquanto os adolescentes dançavam.O magistrado afirma que os fatos criaram um ambiente que se transformou em um “sórdido reality show”, em que os adolescentes eram expostos a um ‘clima adulto’ e a situações de risco extremo.Justiça diz que jovens eram “moeda de troca”Segundo a sentença, os jovens eram usados como “moeda de troca” para obtenção de lucros com vídeos produzidos e divulgados pelo casal na internet.Como prova testemunhal, a decisão corroborou com o depoimento de denúncia de outro influencer, Felipe Bressanim, mais conhecido como Felca. O criador de conteúdo apontou que a dupla “adultizava” os adolescentes.De acordo com ele, os homens “os divulgavam nas plataformas digitais e que esses vídeos tinham conotação erótica e pornográfica com fim de obter lucro”. Felca ainda disse que a “moeda de troca” era a audiência, e que “coisas diferentes” atraíam maior público e usuários.Durante uma das sessões da sentença, é constatado que “a prova digital que consta dos autos demonstra de maneira cristalina que os réus utilizavam os adolescentes como “moeda de troca”, visando audiência e lucro como bem falou a testemunha Felipe Bressamin, em um claro processo de “adultização” de adolescentes.Entenda a condenaçãoHytalo e Euro foram denunciados pelos crimes em 2025 e condenados nesta quinta (20). As condenações são de 11 anos e 4 meses de prisão e 8 anos e 10 meses de prisão, respectivamente.Quanto à pena de multa, foi fixado em 360 dias-multa, na base de 1/30 do salário-mínimo atual, levando em consideração a capacidade econômica do casal.Além disso, foi atribuído pagamento de indenização por danos morais, em R$ 500 mil. O valor se dá porque os danos morais devem ser suportados pelas plataformas digitais. A responsabilidade civil deve, também, recair sobre as empresas.A prisão preventiva dos réus ainda foi mantida na decisão.O que diz a defesa?A defesa de Hytalo manifestou, por meio de um comunicado oficial, crítica à decisão, que apresentou provas e testemunhas que atestaram a inocência do influenciador.“Decisão que, lamentavelmente, revela não apenas fragilidade jurídica, mas também traços inequívocos de preconceito. Ao longo de toda a instrução processual, a defesa apresentou argumentos consistentes, lastreados em provas e nos próprios depoimentos colhidos em juízo – inclusive de testemunhas arroladas pela acusação e das supostas vítimas – que afastam a tese acusatória”, diz trecho da nota da assessoria jurídica de Hytalo Santos e Israel Vicente.A defesa afirma que, mesmo com a sentença aplicada pela Justiça, está mantido, na próxima terça-feira (24), um julgamento do habeas corpus do influenciador, conforme noticiado pela CNN Brasil. O processo corre em segredo de Justiça.A influenciadora Kamyla Maria, conhecida como Kamylinha, filha adotiva de Hytalo, alegou em seu perfil do Instagram que a condenação é fruto de racismo e homofobia.“Todo mundo sabe que o Brasil é um país injusto, mas só quem vive a dor do preconceito sabe o que é. Fiquei muito abalada quando vi isso, porque sei de toda a dor e sofrimento que uma pessoa negra e gay sofre no Brasil, mas sei que a justiça não fechará os olhos para isso’, alega Kamylinha. *Sob supervisão de Pedro Osorio