Para as indústrias hard-to-abate, a Captura e Armazenamento de Carbono (Carbon Capture & Storage – CCS) surge como uma solução estruturante para atingir a neutralidade carbónica e manter a competitividade industrial. É neste contexto que o Portugal’s Carbon Link – White Paper, desenvolvido pela Associação Portuguesa de Cimento (ATIC) em colaboração com a Boston Consulting Group (BCG) e outros parceiros da indústria e da academia, revela que operar sem CCS poderá comprometer a competitividade e viabilidade da indústria nacional a longo prazo.O relatório consolida e desenvolve a investigação existente, propondo uma abordagem estratégica para acelerar a descarbonização dos setores industriais mais difíceis de descarbonizar, em linha com os compromissos climáticos nacionais e europeus. 14 mil milhões para o PIB e 7 mil empregos até 2065Além dos benefícios ambientais, a CCS nacional poderá gerar um impacto económico, direto e indireto, de 14 mil milhões de euros no PIB e criar até sete mil empregos diretos até 2065. A infraestrutura proposta não só apoia o setor cimenteiro, como poderá servir outros emissores industriais e contribuir para a transição de Portugal para uma economia de baixo carbono, consolidando a posição do país na economia europeia.«A indústria portuguesa, e em particular a cimenteira, precisa de assegurar uma solução viável de descarbonização até 2040 que garanta a sua competitividade num contexto regulatório cada vez mais exigente. As alavancas tradicionais continuarão a ser fundamentais, mas, dada a natureza do processo produtivo, a captura e armazenamento de carbono deverá integrar esse percurso», afirma Carlos Elavai, Managing Director & Partner da BCG em Lisboa. Infraestrutura nacional de CO2: 660 km de rede e capacidade para 300 milhões de toneladasA proposta de solução passa por uma infraestrutura nacional integrada de captura, transporte e armazenamento de CO2, incluindo uma rede de aproximadamente 660 km de gasodutos onshore e 25 km offshore, conectando aproximadamente 20 emissores industriais a um local de armazenamento geológico na bacia sedimentar lusitânica. A capacidade de armazenamento prevista é de 300 milhões de toneladas de CO2, com potencial total estimado de cerca de três gigatoneladas de CO2 na bacia lusitânica – o suficiente para suportar a descarbonização industrial durante várias décadas.O investimento estimado para a criação desta infraestrutura é de dois mil milhões de euros, entre 2027 e 2056. O investimento traduzir-se-ia num custo de transporte e armazenamento projetado em cerca de 25 euros por tonelada de CO2 armazenada em termos de infraestrutura, enquanto os emissores suportarão custos de captura entre 80 e 110 euros por tonelada de CO2. Modelo regulatório e impacto nos custos: como viabilizar o investimento de 2 mil milhõesApesar da implementação de CCS poder aumentar os custos de produção do cimento em 60 – 80%, o impacto final nos custos de construção permanece residual, entre 2 – 4%, garantindo a competitividade industrial e viabilidade financeira do projeto.Para viabilizar a infraestrutura, o relatório recomenda o modelo de Base de Ativos Regulatórios (BAR), ao assegurar previsibilidade financeira ao garantir retornos para os operadores através de tarifas reguladas, distribuindo simultaneamente os riscos de investimento entre entidades públicas e privadas. A execução bem-sucedida depende também de um quadro regulatório claro e de mecanismos de financiamento público-privado, essenciais para reduzir incertezas e desbloquear o investimento necessário.«Sendo uma solução tecnicamente complexa, a CCS já está a ser desenvolvida em vários países europeus, criando um legado de aprendizagem que Portugal deve aproveitar. O passo seguinte passa por mobilizar os diferentes stakeholders e avançar para um projeto-piloto que permita testar o modelo, reduzir incertezas e criar confiança para uma decisão em escala», acrescenta Carlos Elavai. O plano de implementação organiza-se em três fases/blocos principais:Demonstrar viabilidade, aprofundando a viabilidade geológica, avaliando a capacidade de armazenamento e possibilidades de transporte de CO2;Potenciar desenvolvimento, criando grupos de trabalho multissetoriais, envolvendo emissores, o Governo e reguladores e atualizando o quadro jurídico para simplificar o licenciamento;Desenvolver infraestrutura, definindo corredores de transporte, aproveitando infraestruturas de gás existentes e lançando projetos-piloto de captura e injeção. O relatório identifica os principais riscos e respetivas estratégias de mitigação, nomeadamente a incerteza geológica, os riscos financeiros, os desafios de harmonização regulatória e a aceitação social, defendendo uma comunicação transparente e o envolvimento das comunidades locais.Portugal deverá iniciar ainda este ano a validação geológica, o enquadramento regulatório e a mobilização de financiamento, garantindo a resiliência industrial, sustentabilidade ambiental e liderança na economia europeia de baixo carbono.O conteúdo Captura de carbono pode valer 14 mil milhões à economia portuguesa aparece primeiro em Revista Líder.