“Portugal atrai talento como quem recolhe turistas. O problema aqui é que o talento que não encontra raízes, também faz check-out.”O mundo entrou numa nova corrida global onde que está em disputa agora não são fábricas, nem sedes corporativas. O que está em disputa são pessoas que constroem valor. A mobilidade tecnológica criou uma classe global de fundadores, programadores, gestores, criativos e investidores que decidem onde viver, onde pagar impostos e onde fazer nascer as suas empresas. Esses decisores movem-se fora das bonitas campanhas de marketing, e em sistemas que funcionam.É verdade que Portugal construiu uma marca de destino, sim, de país bonito, estável, seguro e relativamente acessível até há pouco tempo. A comunicação pública transformou estas qualidades numa narrativa de atratividade, e a estratégia parou aí, num país que criou políticas de entrada, mas não construiu sistemas de permanência. E o resultado é visível: ciclos curtos de interesse, capital transitório e talento que chega com entusiasmo e sai em silêncio.Acontece que o ecossistema português ainda age com a mentalidade turística que facilita a chegada, e celebra a presença mas ignora a continuidade. Ao largo dos anos, as políticas de residência temporária multiplicaram-se, as conferências acumularam visitantes e os relatórios apresentaram números de entrada. Nenhum indicador de que se queira falar mediu quantos ficaram, quantos investiram e quantos construíram.“Um país que trata o talento como visitante atrai exatamente isso, visitantes.”O problema é que o talento que Portugal precisa não quer ser recebido. Gostava de ser integrado. Procura instituições que funcionem, impostos previsíveis, processos rápidos e ecossistemas profissionais que recompensem o mérito. Quer sentir que a energia que traz tem continuidade, e o país com vistas mas sem visão responde com zero planos.Com uma consistência invejável, esta falta de execução repete-se em todas as frentes, em políticas que mudam com os governos, iniciativas que vivem nos cabeçalhos e infraestruturas de inovação que morrem devolutas. O discurso político fala de retenção e ignora o custo da fuga de talento numa economia que se mantém dependente do turismo e dos serviços de baixo valor, enquanto os melhores cérebros do país e os fundadores estrangeiros escolhem ecossistemas que funcionam com infraestrutura e respeito pelo retorno do seu próprio investimento, capital e de vida.Há uma timidez culpada em reconhecer a realidade de que o talento global está em guerra e o terreno não é o nosso. Ignoramos que cidades como Tallinn, Vilnius, Lisboa e Berlim competem no mesmo mapa, e países como os Emirados, Estónia, Singapura e El Salvador oferecem sistemas integrados de residência, investimento e criação. Portugal, por seu lado, oferece uma experiência fragmentada, com bom clima e processos descoordenados.A transformação começa quando o país entender que toda a mobilidade humana é política económica. Toda. A criação de programas de residência produtiva, a integração entre startup visas e investimento real, e a simplificação radical do ambiente de inovação são medidas que definem quem quer criar aqui e quem só nos visita.Portugal tem talento, contexto e reputação para vencer nesta guerra. Precisa é de governo com visão, empresas com ambição e instituições maduras que deixem de ver a inovação como vitrina. O Portugal que compreender que o talento é um ativo soberano e não um fluxo temporário garantirá o seu lugar na economia do futuro. A guerra pelo talento está lá fora. Quem continuar a tratar pessoas como indicadores, em ciclos políticos curtos, já perdeu mais que pessoas. Perdeu o progresso, e perdeu o país.O conteúdo Portugal é turismo. Mesmo quando não quer aparece primeiro em Revista Líder.