A guerra na Ucrânia segue sem perspectivas para o seu fim. O conflito travado por Moscou contra Kiev completa quatro anos nesta terça-feira (24) com nenhum avanço concreto nas negociações de implementação de plano de paz.Em 23 de fevereiro de 2022, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, anunciou a realização de uma “operação militar especial” em território ucraniano. Por meio de pronunciamento televisivo, o líder russo disse que o objetivo da ação era proteger a população das províncias de Donetsk e Luhansk, localizadas na região de Donbass, no leste da Ucrânia, além de “desmilitarizar” e “desnazificar” a área separatista considerada independente pelo Kremlin.Segundo relatório do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês), publicado em 27 de janeiro, inicialmente, Moscou estabeleceu uma “campanha relâmpago” para derrotar rapidamente as forças militares ucranianas. Com isso, a guerra na Ucrânia se tornou o maior conflito desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945.Conforme estimativa do CSIS, de fevereiro de 2022 a dezembro de 2025, as tropas russas registraram aproximadamente 1,2 milhão de baixas — ou seja, quantidade total de mortos, feridos e desaparecidos. Do lado ucraniano, as perdas estão em torno de 500 mil a 600 mil. De acordo com a entidade, caso o conflito continue com o ritmo atual, o número total de vítimas pode chegar a 2 milhões até setembro de 2026.Até o momento, a Rússia conquistou cerca de 75 mil km² do território ucraniano, equivalente a 12% da extensão territorial do país, segundo dados do CSIS. O Kremlin controla 120 mil km², cerca de 20% de toda a Ucrânia, incluindo a Crimeia, anexada em 2014, e partes de Donbass tomadas antes da invasão de 2022.De acordo com o mapa mais recente formulado pelo Instituto para o Estudo da Guerra (ISW, na sigla em inglês), de 19 de fevereiro, as tropas russas ocupam as oblasts de Luhansk, Donetsk, Zaporizhzhia, Kherson e Kharkiv.Reprodução/ISWNegociações para a pazDesde o início da guerra na Ucrânia, foram promovidos encontros entre delegações de Kiev e Moscou para pôr fim ao conflito. Dias depois de Putin anunciar a ofensiva russa, em 28 de fevereiro de 2022, houve a primeira rodada de conversas entre os países sem a chegada de um consenso entre as partes.Em negociações seguintes, houve avanços em questões específicas, como humanitária, mas nenhuma resolução concreta para a implementação de um plano de paz, mesmo com participação ativa de países europeus e dos Estados Unidos nas tratativas. Com a chegada do presidente norte-americano, Donald Trump, para o seu segundo mandato na Casa Branca, em janeiro de 2025, ocorreram mudanças na atuação de Washington no conflito.Em encontro com Trump, em fevereiro, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, disse que não haveria “concessões” de Kiev e pediu garantias de segurança. Por outro lado, o republicano foi evasivo e acusou o seu homólogo de “jogar com a Terceira Guerra Mundial”. Durante a reunião, no Salão Oval da Casa Branca, eles chegaram a bater boca.Trump ainda priorizou lidar diretamente com Putin. Contudo, com a falta de progresso nas negociações, em julho, o republicano chegou a demonstrar o seu descontentamento com o líder russo. Em agosto de 2025, eles se encontraram no Alasca. A reunião terminou sem acordo.Em novembro, a delegação norte-americana apresentou a Zelensky uma sugestão de plano de paz elaborado por Trump. No documento, os Estados Unidos estabeleceram: concessão de territórios à Rússia; limitação do tamanho das Forças Armadas da Ucrânia; impedimento a ampliações futuras da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Os pontos eram considerados favoráveis a Moscou.No mês seguinte, Zelensky detalhou uma nova versão do plano elaborado por Trump. O documento negociado por representantes de Kiev e Washington foi enviado a Moscou. No rascunho de 20 pontos, foi excluída a concessão de territórios e adicionadas garantias de segurança à Ucrânia.A mais recente mobilização de conversas entre Kiev e Moscou se deu na semana do Carnaval. As delegações russa e ucraniana se reuniram em Genebra, na Suíça, sob mediação dos Estados Unidos. No segundo dia, na quarta-feira (18), a reunião terminou depois de duas horas.Zelensky se pronunciou na sequência. O presidente ucraniano disse que as discussões foram “difíceis” e alegou que a Rússia tenta prolongar as negociações “que já poderiam ter chegado à fase final”.Quais são as perspectivas para 2026?Para o professor de relações internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) Guther Rudzit, é muito “difícil” que a Ucrânia e a Rússia firmem um acordo ainda neste ano. À Jovem Pan, o docente disse que o principal impasse está na exigência russa de anexação de todo o território do Donbass.O cientista político e vice-reitor do Centro Universitário Processus (Uniprocessus), Gustavo Castro, acrescentou que a guerra também envolve “questões estruturais”, como segurança regional, expansão da Otan, identidade nacional ucraniana e “ambições estratégicas russas”. “Enquanto essas dimensões permanecerem sem uma solução negociada minimamente aceitável para ambos os lados, acredito que o conflito tende a continuar, ainda que, com oscilações de intensidade”, declarou à Jovem Pan.Similarmente, o chefe do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Rodrigo Medina, disse à Jovem Pan que, mesmo com um eventual cessar-fogo, “hostilidades” entre Rússia e Ucrânia devem permanecer em razão do “impasse” existente entre os países. “De ambos os lados, há uma notável irredutibilidade. Ambos os atores têm se apresentado como dispostos à paz na realidade concreta, mas não é isso que se verifica [na prática]”, afirmou.Segundo Castro, os principais desafios para o avanço nas negociações de paz são:Desconfiança mútua e profunda;Divergências sobre o status dos territórios ocupados por tropas russas;Garantias de segurança à Ucrânia;Pressões políticas internas em ambos os países;Envolvimento indireto de potências Ocidentais, principalmente os Estados Unidos.Em razão desses obstáculos, o cientista político e vice-reitor do Uniprocessus avaliou que o acordo para pôr fim ao conflito “exige mecanismos robustos de verificação e monitoramento”. Algo que, segundo ele, é “particularmente difícil em um ambiente de guerra ativa”.Somado a isso, Rudzit adicionou que a desconfiança é resultado do histórico da Rússia. “Depois da anexação da Crimeia, em 2014, e da Guerra Civil na região do Donbass, foram assinados entre Kiev e Moscou os Acordos de Minsk I e II, em 2014 e 2015”, explicou.De acordo com o professor de relações internacionais da ESPM, os tratados estabeleceram: cessar-fogo, retirada de armas pesadas da região, a autonomia de Donbass e controle de fronteiras. No entanto, a Rússia declarou inexistentes esses compromissos em 2022.Sobre a continuidade das negociações para paz na Ucrânia, Medina disse que o governo russo tem sido “bastante favorecido” com a mediação feita pelos Estados Unidos, o que garantiu a Moscou sair da “condição isolada de pária do Ocidente”. Diante desse cenário, o chefe do Departamento de Relações Internacionais da Unifesp acredita que, caso não haja “mudanças abruptas nesse quadro”, as tratativas diplomáticas “seguirão como estão”.“Ou seja, sinalizações bastante simpáticas com vontade de chegar a um ponto que atende interesses comuns, quando na realidade, os resultados são colhidos nos campos de batalha”, elucidou.Rudzit destacou um aspecto a ser observado para entender se as “intenções do Kremlin de negociar são sérias”. O professor de relações internacionais da ESPM apontou para a presença do chanceler russo, Sergey Lavrov, na delegação russa. Segundo o docente, o ministro das Relações Exteriores é “braço direito” de Putin na política externa, portanto, enquanto ele não participar das tratativas entre Kiev e Moscou, não se deve esperar formalização de “acordo para cessar-fogo, muito menos de paz”. 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