Décadas de subinvestimento em mineração e refino na Europa e na América do Norte colocaram o setor manufatureiro em uma situação delicada. Mas para um grupo de cientistas, parte dessa crise pode ser enfrentada não com escavadeiras, mas com cogumelos. É difícil não ter se deparado recentemente com os termos “minerais críticos” ou “elementos de terras raras”. Esses materiais — como o níquel, no primeiro grupo, e o gálio, no segundo — são cada vez mais demandados para a produção de tecnologias de ponta, que vão de baterias de longa duração para veículos elétricos a centros de dados voltados à inteligência artificial e até espaçonaves.Tradicionalmente, esses recursos são obtidos por meio da mineração convencional. No entanto, cada grama que entra na cadeia de suprimentos acaba, mais cedo ou mais tarde, transformando-se em resíduo. É justamente nesse ponto que cientistas austríacos acreditam haver um enorme potencial inexplorado: extrair minerais valiosos desses rejeitos com a ajuda de cogumelos, em volumes suficientes para gerar impacto relevante na economia global. Para quem não está familiarizado com o tema, os chamados elementos de terras raras não são tão raros assim. Eles estão presentes praticamente em todos os lugares, porém em concentrações muito baixas. Essa característica torna sua extração pouco eficiente, fazendo com que, muitas vezes, sejam obtidos apenas como subproduto da mineração de outros minerais.Foto: Egor Kamelev | PexelsA técnica conhecida como “Mycomining”, termo cunhado por Alexander Bismarck e Michael Jones, da Universidade de Viena, propõe explorar a capacidade excepcional dos fungos de crescerem em áreas contaminadas. A ideia é recuperar terras raras a partir de resíduos industriais, como rejeitos de mineração e barragens de lama, ou até mesmo de cinzas de carvão. “Poderíamos fazer isso em grandes áreas e coletar [os cogumelos] com bastante facilidade usando máquinas agrícolas já existentes”, disse Jones à BBC.Por trás da aparência simples dos cogumelos que surgem no solo das florestas existe uma complexa rede de filamentos chamada micélio, responsável por mais de 95% da biomassa total do fungo. Esses micélios se infiltram em fendas microscópicas e se mantêm extremamente finos, ao contrário das raízes das árvores, que se tornam progressivamente mais espessas. É por meio do micélio que os fungos absorvem os nutrientes de que precisam — e não apenas isso. Há anos, pesquisadores estudam a capacidade dessa estrutura de absorver radiação nuclear, metais pesados tóxicos como chumbo e mercúrio, além de elementos de terras raras presentes na fabricação de smartphones e outros dispositivos eletrônicos.Jones e Bismarck reconhecem que, quando comparada a outras formas não minerárias de recuperação de terras raras, a concentração obtida em fungos seria relativamente baixa — talvez apenas um décimo da encontrada, por exemplo, em resíduos eletrônicos dissolvidos. Ainda assim, o método apresenta vantagens importantes: não exige aquecedores de alta potência para dissolver materiais, nem a manipulação direta de resíduos eletrônicos. Os fungos poderiam ser cultivados em áreas contaminadas que, em muitos casos, são perigosas para o trabalho humano. Leia também: 1.Aliados invisíveis: fungos e bactérias ajudam a restaurar florestas 2.Pesquisadores criam bateria a partir de fungos A BBC conversou com os dois pesquisadores sobre o projeto, que também vem sendo investigado de forma independente na Universidade do Arizona. Ali, a professora Oona Snoeyenbos-West planeja lançar uma startup dedicada ao uso de fungos que já crescem em áreas contaminadas, com foco em biorremediação e biorrecuperação de minerais críticos, especialmente terras raras e cobre. O interesse pela biorremediação não é novo no setor mineral. Grandes mineradoras já investem tempo e recursos nessas estratégias. A DRD Gold, subsidiária da gigante sul-africana Sibanye-Stillwater, produziu cerca de 160.000 onças de ouro no último ano fiscal exclusivamente a partir de rejeitos de mineração em processo de retratamento. O programa inclui ações simultâneas de reabilitação ambiental para tornar a água e os materiais não tóxicos, grande parte delas alimentadas por painéis solares.Imagem de Andreas por PixabayOs rejeitos de mineração correspondem ao material semelhante a cascalho que sobra após a extração da maior parte do ouro, prata, cobre ou outros metais, por meio de processos como moagem, flotação e/ou lixiviação. As instalações destinadas ao armazenamento desses rejeitos são caras, pois precisam conter materiais contaminados para evitar impactos ao meio ambiente ao redor. Nesse contexto, empresas podem encaminhar seus rejeitos diretamente às instalações da DRD Gold para recuperação, reduzindo custos e assegurando um tratamento adequado. Essa prática vem se tornando cada vez mais comum, à medida que grandes depósitos de rejeitos passam a ser vistos não apenas como um risco ambiental a ser eliminado, mas também como uma fonte relevante de ouro, prata e outros metais remanescentes de épocas em que as tecnologias metalúrgicas eram menos eficientes.O horizonte para estratégias de recuperação mineral tende a ser positivo. Todo o ouro do mundo, acima e abaixo da superfície, formaria apenas um cubo menor do que a Grande Pirâmide de Quéops. Com o tempo, é provável que haja mais ouro circulando nos efluentes do que disponível no subsolo. Um destino semelhante pode aguardar as terras raras. A quantidade crescente de lixo eletrônico — que deve aumentar de forma significativa nos próximos 25 anos — pode tornar inevitável um cenário em que os materiais já extraídos e utilizados superem aqueles ainda recuperáveis por meio da mineração tradicional. Nesse futuro, os cogumelos ainda terão um papel central? Não há como afirmar com certeza. Ainda assim, poucos métodos parecem tão promissores — e tão baratos — quanto eles.The post A mineração do futuro pode ser feita por cogumelos appeared first on CicloVivo.