Guerra na Ucrânia: regiões da Geórgia se dividem entre reintegração ou não à Rússia

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A guerra na Ucrânia, que completa quatro anos nesta terça-feira (24), colocou novamente sob holofotes os movimentos separatistas em regiões pertencentes à antiga União Soviética. Na Geórgia, há dois territórios autoproclamados com demandas de separação e que recebem proteção de Moscou: a Abecásia e a Ossétia do Sul.Internacionalmente, as regiões são reconhecidas como parte do território georgiano, exceto por Rússia, Nicarágua, Venezuela, Síria, Nauru e Vanuatu. Por sua vez, a Geórgia rejeita os termos Abecásia e Ossétia e identifica as regiões pelos nomes das capitais das regiões: Sukhumi e Tskhinvali, respectivamente.As regiões possuem diferentes demandas de separação. A Ossétia do Sul quer se unificar à Ossétia do Norte, território pertencente à Federação Russa. Já a Abecásia busca o reconhecimento de sua independência.Relação com a RússiaA Rússia anexou o território referente à Ossétia do Sul em 1801 juntamente à Geórgia. Ambas foram incorporadas ao então Império Russo. Já a Abecásia se tornou um protetorado russo em 1810 e foi capturada por São Petersburgo, sede da Coroa russa, em 1867, depois de período de guerras na região do Cáucaso.Com a Revolução Russa, em 1917, a Abecásia possuiu uma condição republicana por um breve período. Em 1931, a região foi incorporada à República Socialista Soviética da Geórgia, pertencente à antiga União Soviética.A dissolução da União Soviética, em dezembro de 1991, levou as forças separatistas em ambas as regiões a travarem um conflito civil contra a Geórgia. No mesmo ano, a Ossétia do Sul declarou-se independente, enquanto a Abecásia rompeu em 1992.Com a eclosão da guerra na Geórgia, em 2008, Moscou apoiou a Ossétia do Sul e a Abecásia com o envio de tropas às regiões. Após o fim do conflito, a Rússia reconheceu a independência das regiões e manteve tropas nos territórios.‘Irredentismo’Segundo Fabrício Vitorino, jornalista e pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Política Internacional, Segurança e Defesa da Universidade Federal de Santa Catarina (NPSeD/UFSC) e do Núcleo de Estudos da Ucrânia da Universidade de São Paulo (NEU/USP), a Ossétia do Sul mantém uma relação de integração “quase estrutural” com a Rússia. “Moscou garante segurança, financia parte significativa do orçamento local e coordena a defesa e a política externa”, explicou.O pesquisador disse que essa relação trata-se de “um caso com forte componente irredentista”. À Jovem Pan, Vitorino esclareceu que o conceito de “irredentismo” não se refere só ao separatismo, mas à reunificação de “um povo dividido por fronteiras”.“Os ossétios do sul se veem como parte da mesma nação dos ossétios do norte, a Alânia. (…) Norte e Sul compartilham a mesma língua de origem iraniana e uma identidade histórica comum. Portanto, a aspiração teórica não é ‘virar Rússia’, mas reunir as duas Ossétias”, declarou.Influência da guerra na UcrâniaO professor de relações internacionais Kai Kenkel, da PUC-Rio, avaliou que, com a guerra na Ucrânia, a Ossétia do Sul e Abecásia sentiram “deslocamento” e a “concentração do esforço russo” no país. Assim, segundo o docente, há uma certa preocupação dos movimentos separatistas na região de que o apoio de Moscou tenha enfraquecido.Somado a isso, Kenkel afirmou que, mesmo com um eventual fim da guerra na Ucrânia, a atenção russa não deve se voltar para a Geórgia. O professor explicou que isso se deve ao fato de o país não estar mais em busca de se unir à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e à União Europeia. À Jovem Pan, o docente esclaresceu que a atual agenda imperialista da Rússia busca conter a expansão da aliança militar e do bloco em áreas do seu entorno que ainda concentram populações russas.Já Fabrício Vitorino explicou que os conflitos na Geórgia “não derivam da guerra na Ucrânia”. No entanto, a ofensiva russa em território ucraniano “reforça a lógica russa de manutenção de zonas de influência”, como as mantidas nos territórios da Geórgia.Além disso, a Ossétia do Sul e a Abecásia podem entrar no centro das negociações de acordo de paz entre a Ucrânia e a Rússia. Em declaração a jornalistas na segunda-feira (23), a vice-presidente da Comissão Europeia, Kaja Kallas, confirmou que a União Europeia está formulando uma proposta na qual determina que o Kremlin decida por desocupar territórios na Geórgia, na Armênia ou na Moldávia. As informações são do jornal português Notícias ao Minuto.Kallas afirmou que a iniciativa seria uma forma de “equilibrar um pouco as negociações” entre Kiev e Moscou. Para ela, o objetivo principal é dar luz ao real problema existente no Leste Europeu: “A Rússia continua a atacar os seus vizinhos”. Leia também Kiev é alvo de novo ataque às vésperas de quatro anos da invasão da Rússia Hungria anuncia que bloqueará 20º pacote de sanções da União Europeia contra Rússia Negociações pelo fim da guerra na Ucrânia terminam sem sinais de avanço