Nem seis meses separaram esta passagem do Guns N’ Roses pelo Allianz Parque da até então mais recente. Na prática, os cinco shows do grupo pelo Brasil em 2025 sequer haviam terminado em Brasília, em 2 de novembro, quando, ainda no último dia de outubro, já se divulgara que eles seriam o headliner do Monsters of Rock 2026.Curiosamente, houve tempo para algumas mudanças nesse período. A saber:A intro visual não envolve mais armas e sim uma rotação que lembrou o girar do logotipo do “Sportscenter”, programa da ESPN;nome da turnê mudou de “Because What You Want & What You Get Are Two Completely Different Things” para “World Tour 2026”;Duas músicas foram lançadas, mais especificamente no início de dezembro: “Atlas” e “Nothin’”;Melissa Reese, responsável pelos teclados, sintetizadores e backing vocals, anunciou seu afastamento de toda a turnê de 2026, sem motivo explicado ou substituição trazida;Algumas alterações importantes de repertório, a serem pinceladas no desenrolar do texto;A duração (ou a quantidade de músicas) também caiu, de pouco além de três horas para em torno de duas horas e quarenta minutos.No mais, estiveram presentes no palco quatro representantes de formações clássicas, com Axl Rose (voz), Slash (guitarra), Duff McKagan (baixo) e Dizzy Reed (teclados), além do guitarrista Richard Fortus, que embora não pareça, está no grupo desde 2002; e o baterista Isaac Carpenter, trazido em 2025 para a vaga deixada por Frank Ferrer. Ver essa foto no InstagramUm post compartilhado por Igor Miranda (@igormirandasite)No mais: estádio lotado (embora sem dar sold out), Slash detonando como sempre e gente predisposta a detonar ou passar pano para a voz de Axl. Aqui há basicamente três grupos: quem o venera e não liga para problemas; quem sempre torceu o nariz e desconsidera acertos; e quem é ponderado.Por exemplo, “It’s So Easy” e “Mr. Brownstone” não ficam interessantes mesmo com a voz atual, por serem canções apoiadas no lado grave? De fato, começar a festa com “Welcome to the Jungle”, com notas lá no alto, inquietou alguns. Sejamos francos, bate aquela incerteza: “Como ele vai aguentar mais adiante no show?”. É fato que as seminais “You Could Be Mine”, “Sweet Child o’ Mine” e “Paradise City” são desafiadoras, bem como a bela “Estranged” e surpresas como “Dead Horse” e “Bad Apples” (tocada ao vivo pela primeira vez desde 1991, confiando em dados do site Setlist.fm), estas curiosamente ocupando vagas de hits excluídos da noite como “Don’t Cry” e “Patience”. Ver essa foto no InstagramUm post compartilhado por Igor Miranda (@igormirandasite)Porém, ficar pegando no pé do vocalista a esta altura do campeonato beira a falta de assunto. Não se trata de uma questão de isenção, mas o cara já foi exposto em transmissão de TV para todo o país no Rock in Rio 2022, gerando um pedido público de desculpas em redes sociais no dia seguinte, numa das poucas vezes em que este repórter, então como fã, desistiu de um show antes de seu final. Ao vê-lo hoje, você já sabe o que encontrará.Ainda em uma análise ponderada, há os recursos para amenizar desgastes vocais. Nesse sentido, “Civil War” mostra-se um caso à parte no setlist. Quando Axl faz os agudos do refrão, os backing vocais graves de Duff se tornam fundamentais, dando solidez. O baixista, aliás, sempre a alma punk da banda, seja ao vestir camiseta de Iggy Pop desta vez ou fazendo os vocais principais de “New Rose”, do The Damned. Ele faz o show na linha de frente, é constantemente mostrado no telão e não afina. Ver essa foto no InstagramUm post compartilhado por Igor Miranda (@igormirandasite)O que ainda dizer de Slash? Que linda sua guitarra de dois braços usada em “Knockin’ on Heaven’s Door” e, acredite, mesmo mais discreto do que o usual (seu solo teve apenas cinco minutos e começou por um lindo blues, acompanhado pelos colegas), ele permanece brilhando. Pertence a uma das gerações finais de uma era romântica no sentido de desenvolver sua técnica na raça. Vem da alma.Dizzy é o herói quase imperceptível. Até então tocando praticamente sob uma penumbra, seu rosto só foi aparecer no telão em “Nothin’”, superando uma hora de set. E só recebeu holofotes (e tempo maior de tela) durante o solo de “Estranged”. Se não fosse o caso, daria para duvidar de sua presença. Carpenter cumpre bem sua função, de modo a tocar de um jeito mais cru que Ferrer.Por fim, Fortus é como aquele bom coadjuvante de seu time de futebol, que se esforça, se desloca, corre, dá opção nas duas pontas do campo e pede bola. A pelota, diga-se, veio na forma do merecido crédito dado por Axl, junto a pedido por aplausos a ele, ainda durante o solo de “Knockin’ on Heaven’s Door”. Sem ironias, sorrindo, Axl cravou: “Richard, mais de vinte e cinco anos de dores e sofrimentos”. O guitarrista é muito bem pago e realizado na profissão, mas as “dores e sofrimentos” vêm por ele ter pertencido, também, à criticada “era ‘Chinese Democracy’”, nos anos 2000 e início de 2010. Ver essa foto no InstagramUm post compartilhado por Igor Miranda (@igormirandasite)De volta ao bom humor de Rose: pode parecer inacreditável, mas isso surpreendeu em algumas falas, tais como:“Como estão? Acho que ouvi alguém gritar: ‘O que está acontecendo?’. Não faço idéia. Diga-me: você sabe o que está acontecendo?”, deslocando-se a Slash, que respondeu: “Não tenho a menor ideia!” – logo entre “Welcome to the Jungle” e “Slither”, cover do Velvet Revolver, as duas primeiras da noite;“Sabem, vi um filme na noite passada. Ele dizia que um artista precisa descobrir sua obsessão mais forte para criar sua maior arte”, dando o gancho para “Bad Obsession”;“Tivemos um debate sobre qual música seria a próxima. Eu queria fazer ‘Macarena’, mas tudo bem”, antes de “Double Talkin’ Jive”, muito mais elaborada do que a versão crua apresentada no Rock in Rio II e, ainda inédita à época, creditada como “No More Patience” na transmissão ao vivo da TV Globo;“Quando nos pediram para fazer o último show do Ozzy [Osbourne], nos perguntaram se poderíamos tocar esta música e Sharon e Ozzy nos disseram: ‘De onde vocês pegaram essa música?’. Mas era algo que eu sempre praticava quando estávamos fazendo o ‘Appetite for Destruction’ e o Ozzy cantando metal sempre significou muito para mim”, ao encerrar “Junior’s Eyes”, do Black Sabbath, com imagens do Príncipe das Trevas no telão durante o solo reproduzido por Slash;“E agora, para vocês, o prazer auditivo de, aqui, reccriarmros e redesempenharmos a primeira música punk do mundo. Mr. Duff McKagan”, que já chegou soltando um: “Is she really going out with him?”, verso inaugural de “New Rose”, do The Damned; Ver essa foto no InstagramUm post compartilhado por Igor Miranda (@igormirandasite)No mais, saldo positivo, principalmente se você foi ao Allianz Parque esperando algum tipo de catástrofe. Quem odeia Guns N’ Roses — ou a fase atual deste — seguirá assim. Mas há de se ponderar sobre o esforço do grupo em se manter ativo e relevante onde realmente importa atualmente, o palco, a ponto de haver uma sensível renovação de público. Tal empenho do agora sexteto é recompensado com seu segundo show lotado num estádio em São Paulo em seis meses. É para poucos.Guns N’ Roses no Monsters of Rock 202601) Welcome to the Jungle02) Slither [Velvet Revolver]03) It’s So Easy04) Live and Let Die [Wings]05) Mr. Brownstone06) Bad Obsession07) Rocket Queen08) Perhaps09) Dead Horse10) Double Talkin’ Jive11) Nothin’12) You Could Be Mine13) Civil War [com Voodoo Child (Slight Return), de Jimi Hendrix, como “outro”]14) Junior’s Eyes [Black Sabbath]15) Knockin’ on Heaven’s Door [Bob Dylan] [com “Only Women Bleed”, de Alice Cooper, de intro]16) New Rose [The Damned] [Duff canta]17) Atlas18) Solo de Slash19) Sweet Child o’ Mine20) Estranged21) Bad Apples22) November Rain23) Nightrain24) Paradise CityOutro: The Writ [Black Sabbath]Quer receber novidades sobre música direto em seu WhatsApp? Clique aqui!Clique para seguir IgorMiranda.com.br no: Instagram | Bluesky | Twitter | TikTok | Facebook | YouTube | Threads.O post Guns N’ Roses surpreende com setlist e algum bom humor no Monsters of Rock apareceu primeiro em Igor Miranda.