A tokenização de ativos, vista por parte de Wall Street e do mercado cripto como um caminho para cortar custos, eliminar atrasos de liquidação e ampliar o funcionamento 24 horas por dia dos mercados, pode também criar um efeito colateral relevante: fazer crises financeiras se desenrolarem mais rápido do que bancos centrais conseguiriam reagir. O alerta foi feito pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em um relatório assinado por Tobias Adrian, conselheiro financeiro da instituição.No documento, o FMI afirma que a tokenização não deve ser tratada como um mero ganho marginal de eficiência, mas como uma “mudança estrutural na arquitetura financeira”. A avaliação é que, ao transformar ativos em tokens negociados em infraestrutura programável e com liquidação quase instantânea, o sistema elimina fricções que hoje também funcionam como amortecedores em momentos de estresse.A lógica é simples: no sistema tradicional, janelas de liquidação que podem levar um ou dois dias dão tempo para autoridades monetárias, câmaras de compensação e grandes instituições organizarem liquidez, compensarem exposições e tentarem conter efeitos em cadeia antes de a liquidação se tornar definitiva. Em ambientes tokenizados, com execução automática e operação contínua, esse colchão tende a desaparecer. Segundo o FMI, chamadas de margem automatizadas e loops algorítmicos de feedback comprimem drasticamente o tempo disponível para intervenção, enquanto os instrumentos de emergência dos bancos centrais foram desenhados para crises que acontecem em horário comercial, não em mercados automatizados 24/7.Leia também: Transferências de ações tokenizadas aumentam 80% no mês e somam US$ 2,8 bilhõesO relatório também aponta as stablecoins como um ponto estruturalmente frágil dessa nova arquitetura. Adrian compara esses ativos a fundos de mercado monetário: funcionam bem em tempos calmos, mas podem ficar vulneráveis a corridas por resgate quando a confiança se rompe.Mesmo stablecoins totalmente lastreadas, diz o FMI, dependem da capacidade operacional dos emissores para honrar resgates e da liquidez dos mercados de títulos públicos que servem de reserva. Por isso, o documento defende salvaguardas adicionais de infraestrutura, com colchões maiores de liquidez e exigências mais conservadoras de margem para compensar o risco do ativo de liquidação.Outro ponto levantado pelo FMI é que o crédito tokenizado ainda não decolou de forma relevante. A instituição atribui isso, em parte, à própria pseudonímia das blockchains, que dificulta avaliação de crédito e empurra o mercado para modelos de sobrecolateralização.Além disso, o relatório argumenta que muitos tomadores de crédito preferem a flexibilidade de negociar com credores em momentos de estresse, em vez de enfrentar a execução automática de contratos inteligentes. Nesse contexto, Adrian faz uma crítica direta ao princípio cripto de que “code is law”, ao afirmar que, em infraestruturas financeiramente sistêmicas, mandatos legais de estabilidade precisam prevalecer sobre a execução automática.Há ainda uma camada jurídica. Segundo o relatório, quando ativos existem como tokens em registros distribuídos, surgem dúvidas sobre qual legislação se aplica, onde exatamente o ativo está localizado e como reivindicações seriam tratadas em casos de insolvência. Para o FMI, essa incerteza legal precisa ser resolvida se a tokenização quiser sair do estágio de inovação promissora para o de infraestrutura financeira mais ampla.O documento desenha três cenários possíveis para a evolução desse mercado: um sistema coordenado e ancorado em moedas digitais de banco central para uso no atacado; um mosaico fragmentado de plataformas nacionais incompatíveis entre si; ou um mundo dominado por stablecoins privadas, em que os mecanismos públicos de proteção perdem força.Como resposta, o FMI propõe um roteiro de cinco pilares: ancorar a liquidação em dinheiro seguro, aplicar regulação equivalente para atividades equivalentes, dar segurança jurídica aos ativos tokenizados, criar padrões de interoperabilidade e adaptar as ferramentas dos bancos centrais para ambientes de operação contínua.O alerta do Fundo vem justamente em um momento de aceleração institucional nos Estados Unidos. Em março, a NYSE anunciou um memorando de entendimento com a Securitize para apoiar uma plataforma de valores mobiliários tokenizados, enquanto a Nasdaq obteve aprovação regulatória para um modelo em que ações tokenizadas possam ser negociadas como fungíveis com papéis tradicionais no mesmo livro de ordens. No fim de 2025, a DTCC também recebeu uma no-action letter da SEC para um piloto envolvendo a tokenização de determinados ativos custodiados.Leia também: Tokenização pode remodelar finanças como a internet fez em 1996, diz CEO da BlackRockEssa corrida institucional ajuda a explicar por que o FMI decidiu elevar o tom. Os números do setor mostram uma expansão rápida: a RWA.xyz aponta valor distribuído on-chain de cerca de US$ 27,65 bilhões em ativos do mundo real tokenizados, enquanto o mercado de stablecoins gira em torno de US$ 299 bilhões. Em outras palavras, ainda se trata de um segmento pequeno frente ao sistema financeiro global, mas já grande o suficiente para que reguladores passem a discutir não apenas eficiência, mas risco sistêmico.Para economias emergentes, o FMI vê um risco adicional. Em relatório anterior, publicado em dezembro, a instituição já havia alertado que stablecoins lastreadas em dólar podem acelerar a substituição de moeda local em países com sistemas monetários mais frágeis. No novo documento, Adrian aprofunda essa preocupação e diz que mercados emergentes estão particularmente expostos caso stablecoins globais emitidas por empresas privadas ganhem tração onde as moedas domésticas são mais fracas.A mensagem central do Fundo não é que a tokenização deva ser interrompida, mas que ela não pode ser tratada como simples modernização tecnológica. Para o FMI, a promessa de mercados mais rápidos, baratos e programáveis vem acompanhada de uma redistribuição do risco e da confiança dentro do sistema financeiro. E, sem adaptações regulatórias e operacionais à altura, o ganho de eficiência pode acabar cobrando um preço alto justamente quando o mercado mais precisar de tempo.Crédito sem burocracia de banco, sem impedimento de score! No MB, seus ativos digitais podem virar garantia para um crédito liberado em até 5 minutos, direto pelo app. Você mantém a sua estratégia enquanto organiza o que precisa, com pagamento único em até 12 meses e taxas a partir de 1,69% ao mês. Conheça agora!O post FMI alerta que tokenização pode acelerar crises financeiras apareceu primeiro em Portal do Bitcoin.