Milena Pinto de Oliveira, mais conhecida como Ebony, é o tipo de artista que recusa limites. Aos 25 anos, a rapper da Baixada Fluminense consolidou-se como uma das figuras mais potentes e afiadas da música brasileira atual.Nesta segunda-feira (6), ela revisita sua própria trajetória com o lançamento de KM2 (De Luxo), demonstrando a segurança de quem sabe exatamente onde quer chegar. Leia Mais Ebony na SPFW: "Mostrar para meninas negras que esse lugar é delas" Duquesa leva rap feminino ao Tiny Desk Brasil Tasha & Tracie exaltam conexão entre a moda e o rap: "Extensão do que você é" A escolha do termo em português, em vez do tradicional deluxe, foi mais que estratégica — foi afetiva. “Meus pais nasceram em outra geração, 1952 e 1955. Quando eu disse que ia lançar o Deluxe, eles ficaram: ‘O quê?’. Aí expliquei que era uma versão ‘de luxo’, melhorada. E eles: ‘Ah, faz todo o sentido’. Eu quero me conectar com esse lugar onde todo mundo me entende”, revela em entrevista à CNN Brasil.Para a artista, o novo projeto é um exercício de autocrítica e evolução. Se o primeiro disco foi entregue pela Milena, o De Luxo tem a assinatura da Ebony, que já domina as pontes entre uma rima e outra.“Eu me perguntava: ‘Eu realmente fiz tudo o que podia por esse projeto? Eu realmente fui até o fundo disso?’. O álbum estava pronto para aquele meu momento, mas agora ele é diferente. Essa curiosidade de saber que, mesmo algo estando pronto, ele pode ser revisitado, me trouxe até o resultado de hoje”, reflete.Com sete novas faixas, entre canções e poemas, a evolução do projeto apresenta uma Ebony que já não se deixa abalar pelo ego masculino predominante na cena. Para ela, o mundo dos homens que se levam a sério demais é, no fundo, pueril.“Eu acho que é algo muito estrutural o fato de homens estarem no controle. Mas a gente tem a oportunidade de mostrar: ‘Ei, cara, tudo bem, você está no controle, mas sabia que a gente pode falar sobre isso de uma forma que você não saiba?’. É sério que você vai deixar o seu ego te impedir de ver isso?”, questiona.A rapper defende a pluralidade como estratégia: “Se a gente conseguir mostrar para esses homens que existe um mundo além do que eles conhecem e sabem nomear, acho que cria um efeito borboleta. A estrutura privilegia eles, e o que nós podemos fazer com isso? Declarar guerra? Ignorá-los completamente? Não! Eu venho nessa abordagem de não excluir ninguém, mesmo que a pessoa não conheça a minha vivência”.Ebony lança KM2 (De Luxo) • Fernando Mendes/Divulgação“E eu não sou uma mulher?”Um dos pontos altos do projeto é o resgate da voz de Sojourner Truth, abolicionista e ativista negra que, em 1851, proferiu o histórico discurso “E eu não sou uma mulher?” para denunciar a exclusão das mulheres negras nos movimentos da época.“A gente precisa pensar: por que a mesma pergunta feita em 1800 ainda vale para 2026? A gente não tem nem um pouco de vergonha disso, não?”, indaga Ebony.“Parece que estamos andando em círculo. Mas não tem nada melhor para provar a história do que a própria história. Tenho fãs de 12 anos que não sabem quem ela é. No momento em que eles sentem curiosidade de pesquisar, eu já sinto que é uma vitória coletiva. Todo mundo ganha”, acrescenta.A dualidade em ser nerd e “cria”Hoje, Ebony lida ainda com o que chama de “sinuca de bico” da percepção pública. De um lado, aqueles que a ama por ser “nerd” e cheia de referências; do outro, quem a celebra por ser “cria” e favelada.“Para esses dois grupos, a possibilidade de ser os dois não existia. Eu sou super nerd, mas também sou super cria. Se eu começo a falar inglês, os dois grupos travam”, diverte-se.Ela rebate com ironia a surpresa de quem se impressiona com sua eloquência: “As pessoas ficam: ‘caramba, mas você fala muito bem’. Meu bem, eu sou rapper e compositora há 10 anos. É meu trabalho falar bem. Por que a surpresa? Em que momento da sua vida você definiu que meninas negras podiam ser só isso? Eu fico curiosa”.Ebony lança KM2 (De Luxo) • Fernando Mendes/DivulgaçãoDos palcos ao Palácio do PlanaltoEm fevereiro, a carioca esteve no Palácio do Planalto para a assinatura do Pacto Nacional contra o Feminicídio, representando a juventude periférica no centro do poder.Sobre a responsabilidade política no rap, ela é categórica ao cobrar os colegas de cena. “Eu acho que o recalque masculino atinge um lugar muito perigoso. O rap feminino é uma exemplificação de responsabilização”.“Me incomoda sobrar para as mulheres falar sobre resolver um problema que é dos homens. Os caras se vangloriam de ter números, carros e lanchas… Irmão, as mulheres que fizeram a cultura estão morrendo. O que você vai fazer sobre isso além de um post no Instagram?”, critica.Um final feliz escrito pela vidaDiferente da versão original, que ela descreve como uma “ferida aberta”, o De Luxo termina em tom de triunfo com a faixa “Chefe”. É a transição da dor para a autonomia.“Eu não sentia que o álbum original era um álbum feliz. Eu queria passar a sensação de que, mesmo sendo denso, a história termina da forma que a gente decidir. A minha história termina da forma que eu decidi”, finaliza.Para Ebony, a mensagem é de esperança prática: “Eu quero que soe como uma história sendo contada, que tem nossos ápices de tristeza, mas que ainda é uma história feliz. Uma história que está sendo escrita pela vida e não pela morte”.Quem é Doechii, terceira mulher a levar Melhor Álbum de Rap no Grammy