Créditos de carbono são todos iguais?

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Créditos de carbono não são todos iguais. Mas, na prática, muitas decisões são tomadas como se fossem. Quando uma empresa entra no mercado de carbono, ela pode estar em dois lugares completamente diferentes: respondendo a uma obrigação regulatória ou tomando uma decisão estratégica.O problema é que esses dois contextos são frequentemente tratados como se fossem iguais. E não são. Na prática, eles operam com instrumentos diferentes. No mercado regulado, empresas lidam com permissões de emissão. No mercado voluntário, entram os créditos de carbono.Mas, na comunicação, tudo isso acaba sendo chamado da mesma coisa. E é aí que a confusão começa.Foto: Vivi NodaEssa distinção ficou mais evidente para mim recentemente, a partir de uma das aulas do MBA em Soluções Baseadas na Natureza da Universidade do Carbono.O curioso é que, embora seja uma diferença estrutural, ela ainda aparece pouco na forma como o mercado de carbono é comunicado. Quando a linguagem simplifica demais, a decisão também simplifica. Essa diferença não é apenas técnica. Ela define se o carbono está sendo usado como ferramenta de conformidade ou como alavanca real de transformação. Leia também: 1.Reciclagem avança rumo ao mercado de créditos de carbono 2.Em 10 dias, 1% mais rico esgota “cota” de carbono de 2026 Obrigação: quando o carbono vira regra do jogoNo mercado regulado, empresas operam sob limites claros de emissão. Existe meta, teto e penalidade. Se não conseguem reduzir suas emissões internamente, precisam adquirir permissões adicionais ou mecanismos equivalentes. Não é uma escolha estratégica. É uma exigência do sistema.Aqui, carbono não é narrativa. É regra.Esse modelo cria pressão real para redução de emissões. De acordo com a European Commission, o sistema europeu de comércio de emissões, por exemplo, já contribuiu para uma redução de cerca de 37% nas emissões dos setores cobertos desde 2005Aqui, emitir tem custo. E esse custo muda comportamento.Fazenda solar na Alemanha | Foto: Andreas Gücklhorn/UnsplashEscolha: quando o carbono vira posicionamento No mercado voluntário, o cenário é outro. Não existe obrigação. Empresas decidem compensar suas emissões, se posicionar como neutras e investir em projetos. Aqui entram os créditos de carbono. Segundo a Ecosystem Marketplace, esse mercado movimentou cerca de US$ 2 bilhões em 2022. É relevante, mas funciona com outra lógica.Sem regra, entra o critério. E nem sempre ele está claro. Sem regulação direta, a qualidade das decisões passa a depender de quem compra. Leia também: 1.USP lança registradora inédita de créditos de carbono 2.China reduz carbono impulsionada por renováveis O ponto cego: quando tudo parece a mesma coisaNa prática, essas duas realidades acabam sendo misturadas. Empresas comunicam “neutralidade” sem diferenciar contexto, instrumento ou impacto.Sem obrigação, é possível compensar sem reduzir de forma relevante, escolher créditos de baixa integridade e construir narrativa sem alterar o modelo.Dá para participar do mercado de carbono sem mudar o sistema que gera as emissões.Uma investigação da The Guardian com a Die Zeit apontou que mais de 90% dos créditos de REDD+ avaliados tinham baixa integridade climática. Isso não invalida o mercado, mas deixa claro que nem toda compensação representa impacto real.Cientistas dizem que um aumento acima de 1,5°C é agora inevitável. Foto: Mika Baumeister | UnsplashE no Brasil, o que está em jogo?O Brasil ocupa uma posição única nessa discussão. Segundo o SEEG, cerca de 70% das emissões brasileiras vêm do uso da terra, desmatamento e agropecuária. Aqui, a principal frente de mitigação não está na indústria. Está no território. No Brasil, carbono não é só emissão. É uso da terra.REDD+ e a escala da florestaProjetos de REDD+ no Brasil buscam evitar o desmatamento e manter a floresta em pé, conectando conservação com geração de renda. Estados como Acre e Mato Grosso avançam em modelos jurisdicionais, tentando integrar carbono, política pública e governança territorial.Mas a complexidade permanece: como medir o que foi evitado, garantir distribuição justa de benefícios e evitar que o carbono seja apenas uma camada financeira sobre o território?Escalar carbono sem governança é escalar risco.Obras foram pintadas com tintas que usam cinzas de incêndios florestais, recolhidas por Mundano. Foto: Marina Persegani | @perseganiAgrofloresta e carbono: quando regeneração entra no mercadoNos últimos anos, começam a surgir iniciativas no Brasil que conectam sistemas agroflorestais ao mercado de carbono.A Belterra Agroflorestas , por exemplo, atua na estruturação de projetos que combinam restauração produtiva com geração de créditos de carbono.Já a re.green vem desenvolvendo projetos de restauração em larga escala, integrando soluções baseadas na natureza com geração de créditos associados à recuperação de áreas degradadas.Esses modelos apontam para um movimento importante: integrar produção, restauração e carbono no mesmo sistema. Mas ainda existe um desafio claro. Hoje, o mercado mede melhor o que é padronizável do que o que é regenerativo.Muitos sistemas agroflorestais regeneram mais do que o mercado consegue medir e, por isso, capturam menos valor do que poderiam.Foto: RAMA (Rede de Apoio a Mulheres Agroflorestoras)Decisão estratégica de verdadeNão é sobre neutralizar emissões no papel. É sobre assumir um processo de transição. O IPCC diz que compensações não substituem redução, apenas complementam emissões residuais.Uma decisão estratégica envolve reduzir ao máximo o que é possível internamente, assumir o que ainda não foi evitado e escolher projetos com impacto real.Estratégia não é compensar melhor. É emitir menos. E isso muda o papel do carbono. Ele deixa de ser apenas métrica. E passa a ser ferramenta de transformação.O papel real do mercado de carbono na transiçãoAo mesmo tempo, vale um cuidado importante. O mercado de carbono não foi criado para transformar territórios. Ele surgiu como uma ferramenta econômica para reduzir emissões ao menor custo possível, especialmente a partir de acordos como o Protocolo de Kyoto.Montagem: Vivi NodaA lógica era: colocar um preço no carbono para que reduzir emissões deixasse de ser opcional e passasse a fazer parte da conta. Isso não resolve as causas estruturais do problema, nem reorganiza sistemas produtivos por si só. Mas cria um mecanismo que começa a deslocar dinheiro e atenção para soluções que antes não eram consideradas viáveis.O problema não é o mercado existir, é o lugar que ele ocupa na estratégia. Quando usado para evitar mudanças, ele vira um atalho. Quando usado para acelerar uma transição que já está em curso, ele pode ser útil.O que deveria estar na mesa, e quase nunca estáUma decisão madura não se resume a preço por tonelada.Ela envolve perguntas como: esse crédito representa impacto real? Existe benefício concreto para o território? Há regeneração, ou apenas manutenção do mínimo?O Integrity Council for the Voluntary Carbon Market reforça critérios como adicionalidade, permanência e integridade. Mas talvez falte uma pergunta mais estrutural: isso está mudando o sistema ou apenas compensando ele?No fim, não é sobre carbono É sobre o tipo de futuro que está sendo financiado. Porque, na prática, existem dois caminhos: usar o carbono para ajustar um modelo que continua emitindo ou usar o carbono para acelerar a transição de sistemas produtivos.No Brasil, essa escolha é ainda mais evidente. Estamos falando de floresta, alimento, cultura e economia local. Leia também: 1.Transição da pecuária para agroflorestas pode dobrar renda rural 2.Sistemas agroflorestais aumentam em 30% estoque de carbono no solo Com o Sistema Agroflorestal, propriedades rurais conseguem diversificar a produção de alimentos. Foto: Carol CamposE talvez esse seja o ponto que ainda está faltando. Regeneração não entra no mercado de carbono apenas como solução técnica. Ela entra como mudança de lógica.Porque, no limite, a pergunta deixa de ser como compensar emissões e passa a ser como reorganizar sistemas para que emitam menos, e regenerem mais.Carbono pode ser contabilidade. Ou pode ser transição. O mercado de carbono pode apoiar essa transição. Mas não substitui ela. Leia também: 1.Menos de 1%: orçamento público ignora emergência climática 2.O que é regeneração? Colunistas CicloVivo: Neste espaço, especialistas de diversas áreas compartilham opiniões e pontos de vista, que não necessariamente refletem o posicionamento do CicloVivo.The post Créditos de carbono são todos iguais? appeared first on CicloVivo.