Desde a escola, todo mundo aprende que a planta absorve luz solar, produz oxigênio e libera açúcar. Contudo, o que ninguém nos contou é que, durante esse mesmo processo, a planta também gera eletricidade. Além disso, pesquisadores de diferentes países já conseguiram capturar essa corrente elétrica e usá-la para acender lâmpadas, carregar celulares e alimentar sensores. Portanto, a planta que gera eletricidade pela fotossíntese deixou de ser ficção científica para se tornar uma das apostas mais sérias da ciência para o futuro da energia.Como uma planta que gera eletricidade pela fotossíntese funciona na prática?A resposta está em um detalhe que a biologia nunca escondeu, mas que a engenharia demorou décadas para aproveitar: durante a fotossíntese, a luz solar impulsiona dentro das células vegetais um fluxo constante de elétrons a partir da água. Segundo a pesquisa publicada na revista ACS Applied Materials & Interfaces, ao inserir eletrodos dentro das folhas de uma planta suculenta, os cientistas conseguiram capturar esses elétrons que normalmente seriam consumidos pela própria planta para produzir açúcar. Portanto, o princípio é simples: a planta já está gerando eletricidade o tempo todo, o desafio era apenas interceptá-la.O que ninguém te contou sobre as plantas pode mudar o que você aprendeu na escola- Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital) – – Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)Além disso, existe uma segunda via de geração que ocorre abaixo do solo, completamente invisível. Cerca de 70% da matéria orgânica produzida na fotossíntese não é aproveitada pela planta e é eliminada pelas raízes no solo. Lá, bactérias naturalmente presentes decompõem esses resíduos e, nesse processo, liberam elétrons que também podem ser capturados por eletrodos posicionados ao redor das raízes para gerar corrente elétrica.Quais são as pesquisas mais avançadas com plantas que geram eletricidade hoje?Suculenta como bateria viva (Israel): pesquisadores transformaram a Corpuscularia lehmannii em uma célula bio-solar viva, inserindo ânodos de ferro e cátodos de platina em suas folhas. Uma única folha gerou 0,28V e 20 µA/cm² de fotocorrente sob luz, com produção contínua durante o dia e potencial para gerar hidrogênio ao mesmo tempo.Plant-e (Holanda): spin-off da Universidade de Wageningen, a empresa testou com sucesso a geração de eletricidade pelas raízes em uma área verde de apenas 15 m², suficiente para carregar a bateria de um celular. A projeção dos pesquisadores é alcançar 3,2W por m², o que tornaria um telhado verde de 100 m² capaz de abastecer uma residência com consumo médio de 2.800 kWh por ano.Alinti (Peru): o engenheiro Hernán Asto desenvolveu um dispositivo de argila híbrida que capta a eletricidade gerada pela fotossíntese e pelas bactérias nas raízes, sem painéis solares, vento ou baterias externas. A invenção recebeu o Global eAwards 2024 da NTT DATA Foundation e um financiamento de €100.000 para desenvolvimento.Biocélulas com algas (UNESP, Brasil): pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da UNESP em Araraquara desenvolveram protótipos de células biofotovoltaicas usando algas que convertem luz solar em eletricidade enquanto produzem oxigênio, seguindo o conceito de células solares biológicas estudado desde os anos 2000.Pigmentos amazônicos (UFAM/Fapeam): o Laboratório de Bioeletrônica da Universidade Federal do Amazonas pesquisa células solares sensibilizadas por corantes extraídos de plantas como açaí, urucum e jenipapo, com custo projetado 50% menor do que o de células convencionais de silício.Pesquisadores descobrem que plantas liberam eletricidade o tempo todo– Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)Por que a suculenta foi a planta escolhida pelos cientistas para esse experimento?A escolha não foi aleatória. Plantas suculentas como a Corpuscularia lehmannii são adaptadas a ambientes áridos e por isso desenvolveram cutículas especialmente grossas para armazenar grandes quantidades de água e nutrientes dentro de suas folhas. Portanto, o interior dessas folhas funciona naturalmente como uma solução eletrolítica densa, exatamente o tipo de ambiente necessário para que uma célula eletroquímica funcione com eficiência. Além disso, a planta não é prejudicada pelo processo, já que os elétrons capturados pelos eletrodos são apenas uma fração do que seria de qualquer forma descartado durante a fotossíntese.Contudo, é importante ter clareza sobre os números atuais: uma única folha gera uma voltagem menor do que a de uma bateria alcalina comum. O que entusiasma os pesquisadores não é a escala atual, mas a perspectiva de conectar muitas folhas em série para multiplicar a tensão e, sobretudo, a possibilidade de transformar plantações inteiras em usinas vivas de energia renovável sem ocupar nenhum espaço adicional.TecnologiaFonte da energiaAplicação atualCélula bio-solar (suculenta)Elétrons das células foliaresPesquisa laboratorial; geração de H₂Plant-e (raízes + bactérias)Resíduos orgânicos no soloLEDs, Wi-Fi, carregadoresAlinti (argila híbrida)Fotossíntese + microorganismosIluminação rural, carga de celularBiocélulas com algas (UNESP)Fotossíntese de algas vivasProtótipo em desenvolvimentoComo essa descoberta pode mudar o acesso à energia em países em desenvolvimento?Essa é talvez a dimensão mais transformadora da tecnologia. Segundo estimativas citadas nos estudos do Alinti, 1,3 bilhão de pessoas no mundo ainda vivem sem acesso à eletricidade, a maioria em regiões rurais de países em desenvolvimento onde a extensão de redes elétricas convencionais é economicamente inviável. Além disso, o custo de implementação de sistemas baseados em plantas é estimado em até 70% menor do que o de sistemas solares convencionais, já que a matéria-prima, a planta viva, está disponível na própria comunidade.Portanto, para comunidades da Amazônia brasileira, do sertão nordestino ou de regiões isoladas do Peru e da África, a perspectiva de gerar energia a partir de plantas que já crescem no entorno representa uma mudança qualitativa real. Contudo, para que isso aconteça em escala, a ciência ainda precisa de mais alguns anos de pesquisa, financiamento e testes em campo, além dos laboratórios onde as suculentas já brilham, literalmente, como a energia do futuro.Leia mais:Essas plantas trabalham dia e noite ajudando a afastar escorpiõesA planta conhecida como “árvore milagrosa” que cresce rápido e tem alto valor nutricionalO post Planta começa a gerar eletricidade durante a fotossíntese e acende luz em laboratório apareceu primeiro em Olhar Digital.