Carne cultivada avança mas enfrenta desafios globais

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A carne cultivada em laboratório — produzida a partir do cultivo de células animais, sem necessidade de abate — vem avançando globalmente impulsionada por ganhos tecnológicos, investimentos de grandes grupos e avanços regulatórios em mercados-chave. Ao mesmo tempo, o setor enfrenta desafios relevantes ligados à escala industrial, à aceitação do consumidor e à resistência política em algumas regiões. Segundo relatório da Market Growth Reports, o mercado global de carne cultivada deve crescer de US$ 198,47 milhões em 2025 para US$ 827,93 milhões até 2034, o que representa uma taxa média anual de crescimento de 17,2%. Apesar do momento recente de retração nos investimentos, o estudo avalia que a indústria entrou em uma fase de consolidação, na qual empresas mais capitalizadas e tecnologicamente maduras tendem a sobreviver e liderar o crescimento de longo prazo. Redução de custos  Leia Mais Exportações de carne bovina aceleram em 2026 e reduzem impacto da China Alimentos devem ficar mais caros em 2026 Exportações de carne bovina fortalecem parcerias comerciais além da China Um dos principais entraves da carne cultivada – o alto custo de produção – vem sendo atacado por uma combinação de avanços científicos e industriais. Pesquisadores em Israel desenvolveram recentemente uma técnica que permite que células bovinas se multipliquem indefinidamente sem modificação genética, o que pode reduzir despesas operacionais e facilitar aprovações regulatórias, especialmente em mercados com restrições a organismos geneticamente modificados. Outro avanço relevante ocorreu na área de insumos. A britânica Multus Biotechnology lançou meios de cultivo celulares de grau alimentício voltados à produção industrial. Segundo a empresa, o custo do meio de cultivo, hoje responsável por grande parte do preço final da carne cultivada,  pode cair para menos de US$ 1 por litro, ante valores que já chegaram a dezenas ou centenas de dólares nos primeiros anos da indústria. Além disso, o GFI- Good Food Institute, em parceria com a Universidade de Tufts, passou a oferecer linhas celulares bovinas de acesso aberto, permitindo que startups e centros de pesquisa reduzam custos iniciais de desenvolvimento e acelerem o avanço tecnológico. Esses avanços ajudam a explicar por que, de acordo com a Market Growth Reports, os custos de produção por quilo de carne cultivada caíram até 85% desde 2020, aproximando a tecnologia de uma viabilidade comercial mais ampla. Escala industrial Apesar do progresso, a transição da escala piloto para a produção industrial segue sendo o principal gargalo do setor. Para enfrentá-lo, empresas têm buscado parcerias com grupos tradicionais de engenharia, alimentos e proteína animal. A Believer Meats (antiga Future Meat Technologies), por exemplo, construiu nos Estados Unidos uma unidade industrial avaliada em US$ 123 milhões, com capacidade projetada de até 12 mil toneladas anuais de frango cultivado. A empresa afirma que sua tecnologia permite produzir carne cultivada a um custo estimado entre US$ 6 e US$ 7 por libra, valor próximo ao do frango orgânico no mercado americano. Na Europa, a SuperMeat captou US$ 3,5 milhões para acelerar a entrada de seu frango cultivado no mercado europeu. A empresa afirma ter atingido paridade de custo com o frango convencional em ambientes controlados de produção, embora ainda dependa de aprovação regulatória para vendas em larga escala. Grandes grupos  O avanço da carne cultivada também tem atraído empresas tradicionais do setor de proteínas. A JBS, a maior produtora de carne do mundo, anunciou investimentos de cerca de US$ 100 milhões em tecnologias de carne cultivada, incluindo a aquisição da espanhola BioTech Foods. A companhia planeja iniciar a produção comercial nos próximos anos, inicialmente fora do Brasil. Outros nomes relevantes do setor incluem Upside Foods, Aleph Farms, BlueNalu, Wildtype e Mission Barns, com projetos focados em frango, carne bovina, peixes, frutos do mar e gordura animal cultivada para uso em alimentos processados. Aprovações regulatórias No campo regulatório, Estados Unidos e Singapura seguem na liderança. A Believer Meats recebeu autorização do USDA (Departamento de Agricultura dos EUA) para produzir e comercializar frango cultivado, tornando-se a primeira empresa estrangeira a obter esse tipo de aprovação no país. Já a Wildtype obteve aval da FDA para servir salmão cultivado em restaurantes selecionados nos Estados Unidos. Singapura, primeiro país a liberar a venda de carne cultivada, continua aprovando novas empresas e se consolidando como um laboratório global da tecnologia. Ainda assim, segundo a Market Growth Reports, cerca de 25% dos mercados potenciais ainda não contam com caminhos regulatórios claros, o que atrasa a entrada de novos produtos e aumenta o custo de capital para as empresas. Resistência do consumidor Apesar dos avanços, o setor enfrenta oposição crescente em algumas regiões. Estados americanos como Flórida e Texas aprovaram leis que proíbem a venda de carne cultivada, sob o argumento de proteger a pecuária tradicional. As medidas estão sendo contestadas judicialmente por empresas e entidades do setor, que as veem como barreiras à inovação e à livre concorrência. Na Europa, o debate ocorre de forma mais cautelosa. Autoridades ainda trabalham na definição de critérios específicos de segurança e rotulagem, enquanto pesquisas indicam que parte dos consumidores permanece cética. De acordo com a Market Growth Reports, 29% dos consumidores globais ainda demonstram hesitação em relação à carne cultivada, citando dúvidas sobre segurança alimentar, rotulagem e percepção de “naturalidade”. Por outro lado, aproximadamente 35% dos compradores institucionais de alimentos — como universidades, hospitais e refeitórios corporativos — já relatam interesse em incorporar proteínas cultivadas em seus planos de aquisição. Segmentos O relatório aponta que o segmento de aves cultivadas lidera o mercado global, seguido por carne bovina, frutos do mar, carne suína e pato, favorecidos por ciclos celulares mais curtos e menores custos produtivos. Em termos de canais, o mercado se divide principalmente entre: Consumo doméstico e varejo, que devem movimentar cerca de US$ 110 milhões em 2025, com CAGR de 17,1%; Serviços de alimentação e restaurantes, com aproximadamente US$ 88,5 milhões e crescimento anual estimado em 17,3%. A América do Norte concentra 37% da presença global de empresas e esforços de comercialização, seguida pela Europa e pela Ásia-Pacífico. América Latina e Oriente Médio aparecem como mercados emergentes, ainda dependentes de marcos regulatórios.