Muitos motoristas, ao conduzirem seus veículos pelas ruas e estradas, não imaginam que estão operando tecnologias que foram testadas a mais de 300 km/h: a Fórmula 1 não é apenas um espetáculo de velocidade; ela funciona como o departamento de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) mais caro e eficiente do planeta. O que hoje é visto como um item de segurança ou conforto, muitas vezes foi o segredo de um título mundial de construtores décadas atrás.A transição das pistas para as ruas ocorre por um processo de simplificação e redução de custos, mas o princípio da engenharia permanece o mesmo. Para detalhar quais são os principais legados das corridas no dia a dia dos motoristas, a reportagem consultou o engenheiro automotivo Iago Atila. Segundo o especialista, essa troca de informações entre os grids e as fábricas é o que permitiu o salto de segurança e eficiência que vimos nos últimos 30 anos. Leia mais Chefe da Ferrari na Fórmula 1 avalia desempenho da equipe e faz projeção Jeep Renegade chega na linha 2027 híbrido 48V e até R$ 18 mil mais barato Guerra no Oriente Médio eleva preços: quando escolher etanol ou gasolina? 1. Célula de sobrevivência: o habitáculo blindadoUm dos maiores avanços da engenharia automotiva moderna é a forma como o carro lida com colisões. Antigamente, acreditava-se que um carro “duro” era mais seguro, mas a Fórmula 1 provou o contrário: o carro deve se destruir para salvar quem está dentro. “Na Fórmula 1, o método foi criado para resguardar o piloto com uma célula altamente durável, envolta por estruturas que conseguem absorver a energia do impacto”, explica o engenheiro.A grande virada tecnológica aconteceu em 1981, com o lançamento do McLaren MP4/1. “Foi o primeiro carro da F1 a contar com um chassi de fibra de carbono, o fundamento do conceito moderno da célula de sobrevivência”, destaca Iago. Nos carros de passeio, essa lógica foi adaptada através da junção de um habitáculo rígido com áreas de deformação programada.Hoje, modelos como o Honda Civic utilizam estruturas avançadas para dispersar a energia de batidas. “Um exemplo atual é a estrutura ACE, incorporada para proteger o habitáculo. Essa abordagem se intensificou a partir da década de 90 e se estabeleceu como padrão estrutural nas décadas de 2000 e 2010, com o uso extensivo de aços de alta resistência”.2. Controle de tração: estabilidade em superfícies escorregadiasO controle de tração eletrônico é outro exemplo clássico de “auxílio ao piloto” que migrou para a segurança pública. O sistema identifica quando uma roda está girando em falso e corta o torque para restabelecer a aderência. “Em essência, isso melhora as arrancadas em superfícies escorregadias e auxilia na estabilidade do veículo”, resume Iago.Essa tecnologia teve seu auge tecnológico na F1 no início dos anos 90, especialmente com o icônico Williams FW14B de 1992. “O modelo é um dos mais notáveis, com o sistema integrado em um conjunto eletrônico avançado”, explica o especialista. Naquela época, o sistema era tão eficiente que a FIA chegou a proibi-lo em 1994 por considerar que facilitava demais a pilotagem, retornando apenas em 2001.Nas ruas, o controle de tração deixou de ser luxo de carros importados para equipar modelos de entrada no Brasil. “A disseminação começou a acontecer mais intensamente nos anos 2000 e se tornou comum na década de 2010. Hoje, carros populares como o Chevrolet Onix, Fiat Argo, Volkswagen Polo e Hyundai HB20 oferecem o sistema como item de série ou amplamente disponível”, afirma Iago.3. Motores turbo de baixa cilindrada: a era do “Downsizing”A busca por eficiência e menor emissão de poluentes levou a indústria ao conceito de downsizing: motores menores, mais leves, mas com alto desempenho graças ao turbocompressor. Essa peça utiliza a energia dos gases que seriam desperdiçados no escapamento para injetar mais ar no motor.A Fórmula 1 foi a pioneira absoluta nessa exploração. “Um marco significativo foi o Renault RS01, que fez sua estreia em 1977 no GP da Inglaterra, tornando-se o primeiro carro turbo da categoria”, relata o engenheiro. O que era uma tecnologia focada apenas em potência bruta nas pistas, foi refinada para focar em economia de combustível nos carros de passeio.Iago explica que essa tendência marcou os anos 2010 no mercado brasileiro. “Motores menores com turbocompressor passaram a ser usados em compactos e sedãs de passeio. Exemplos notáveis incluem o Ford New Fiesta 1.0 EcoBoost e o Renault Clio TCe”, detalha. Atualmente, a maioria das fabricantes utiliza motores 1.0 turbo que entregam o desempenho de antigos motores 2.0 com uma economia significativamente maior.4. Câmbio semiautomático com paddle shiftersAs famosas “borboletas” atrás do volante, que permitem trocas de marcha rápidas sem tirar as mãos da direção, surgiram pela necessidade de milissegundos nas pistas. “A principal vantagem desse sistema é a redução do tempo de troca, permitindo que o motorista mantenha ambas as mãos no volante, o que proporciona aumento no conforto e controle”, explica Iago.O sistema estreou na F1 com a Ferrari 640, em 1989, uma criação do engenheiro John Barnard. Não demorou para que a tecnologia ganhasse as ruas. “A própria Ferrari afirma que o modelo 355 F1, de 1997, foi o pioneiro em incorporar o paddle shift em carros de rua”, observa o engenheiro. Atualmente, a funcionalidade é encontrada em uma vasta gama de veículos, desde sedãs executivos até SUVs, como o Toyota Corolla, Volkswagen Nivus e Honda Civic.5. Suspensão ativa e amortecedores adaptativosPor fim, a capacidade do carro de “ler” o terreno e ajustar a firmeza da suspensão em tempo real é uma herança direta da busca por aderência aerodinâmica. “O objetivo é proporcionar um controle superior sobre a rolagem da carroceria, a inclinação durante as frenagens e o conforto”, define Iago.Embora o conceito tenha surgido na Lotus em 1983, foi novamente a Williams de 1992 que transformou a suspensão ativa em um fator crucial de performance. Nas ruas, essa tecnologia evoluiu para sistemas eletrônicos que avaliam dados constantemente. “Um exemplo claro é o Ford Focus de 2018, que conta com um sistema de Amortecimento Controlado Continuamente. Ele avalia dados a cada 2 milissegundos e ajusta os amortecedores instantaneamente”, finaliza.Blog: pneu “frisado” pode ser perigoso e você não sabe