“O etanol estraga o motor do carro”. Por décadas, o etanol brasileiro conviveu com desinformação e equívocos que ajudaram a criar resistência entre os consumidores na hora de optar pelo biocombustível. Quase todo brasileiro já ouviu, de um amigo ou colega, o mito — em forma de afirmação — de que o álcool faz mal ao carro.Apesar de contar com a maior mistura de etanol na gasolina e de ficar atrás apenas dos Estados Unidos na produção do biocombustível, o Brasil ainda enfrenta barreiras para ampliar o uso de álcool — especialmente na hora de o consumidor encher o tanque. No país, 85% da frota é composta por veículos flex, mas apenas 26% dos abastecimentos são feitos com etanol.“Muitos acreditam que o etanol hidratado prejudica o motor, mas isso é uma falácia. Se você observar a troca de óleo, o carro que roda apenas com etanol apresenta o motor mais limpo, pois não gera material particulado. Já a gasolina acaba afetando a lubricidade do motor”, explica Plinio Nastari, fundador e presidente da Datagro.Nastari relembra as décadas de 1980 e 1990, quando coexistiam frotas movidas exclusivamente a álcool e a gasolina, período em que também lecionava na FGV. Ele cita um estudo realizado com táxis no Aeroporto de Guarulhos sobre a longevidade dos motores.Os veículos movidos a álcool apresentavam durabilidade significativamente maior do que os a gasolina. O recorde observado foi de um carro a álcool com 1,35 milhão de quilômetros rodados sem necessidade de retífica, contra cerca de 450 mil quilômetros de um veículo a gasolina, que demandava uma ou duas retíficas de motor.“Essa vantagem vem justamente da maior lubricidade. Além disso, o álcool queima a temperaturas mais baixas, o que reduz o desgaste do motor em comparação com a gasolina. Existem mitos que precisam ser desconstruídos com informação técnica e de qualidade, para que a população aproveite algo extraordinário que o Brasil construiu: uma rede de 42 mil postos com etanol”, afirma.A Lei do Combustível do Futuro, sancionada em outubro de 2024, prevê que o Brasil atinja uma mistura de 35% de etanol na gasolina até 2029. No entanto, desde o início da guerra no Oriente Médio, já há movimentos do governo e do setor de biocombustíveis para acelerar essas metas de descarbonização.O futuro do etanol diante da eletrificaçãoSe, por um lado, o Brasil conta com uma posição privilegiada pela ampla disponibilidade de etanol e por um sistema de distribuição já consolidado, por outro surge a dúvida: como o biocombustível se posiciona diante do avanço da eletrificação?Em 2025, as vendas globais de veículos elétricos atingiram 20,7 milhões de unidades, segundo dados da Benchmark Mineral Intelligence (BMI) e da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). No Brasil, as vendas de elétricos e híbridos cresceram 26% em relação a 2024.Para Nastari, o caminho mais eficiente dentro da transição energética passa pelos veículos híbridos. “O motor elétrico é mais eficiente que o motor a combustão. O modelo híbrido combina essa eficiência com a disponibilidade de um combustível líquido de baixa emissão de carbono, como o etanol”, afirma.Ainda assim, o executivo faz críticas ao modelo atual de mobilidade. “Não faz sentido construirmos veículos de mais de uma tonelada para transportar uma pessoa de 80 ou 90 quilos. É como se estivéssemos andando com um pequeno tanque de guerra.”Segundo ele, esse problema se intensificou com a eletrificação, já que os veículos elétricos podem chegar a cerca de 2,3 toneladas.“Passamos a gastar mais energia para movimentar veículos ainda mais pesados, e, em alguns países, essa eletricidade ainda é gerada a partir de combustíveis fósseis. No Brasil, temos a vantagem de uma matriz elétrica majoritariamente renovável, com cerca de 93%. Mesmo assim, há um gasto energético elevado para mover veículos tão pesados”, pondera.Nastari também reforça a importância de avaliar as emissões com base no ciclo de vida completo — do “berço ao túmulo”.Segundo ele, a legislação brasileira já adota esse critério, considerado mais científico, para determinar a sustentabilidade dos combustíveis.“O Brasil está na vanguarda e é o único país que utiliza essa abordagem. A ciência indica que um veículo elétrico a bateria pode ter emissões semelhantes, ao longo do ciclo de vida, às de um veículo movido a etanol. Cabe ao mercado decidir a solução vencedora, com base em preço e conveniência”.