A Elibrè, centro de excelência em tratamento de saúde mental, localizado em São Paulo, está lançando uma linha de cuidado inédita no Brasil para tratar dependências digitais. O “Programa Elibrè para Dependências Digitais” apoiará adolescentes e jovens adultos que fazem uso excessivo e prejudicial de tecnologias, especialmente jogos e redes sociais. O objetivo é tornar a relação dos participantes com a tecnologia mais equilibrada.O uso problemático da tecnologia é um fenômeno recente que começa a acometer crianças, adolescentes e adultos jovens e muitas famílias ainda não sabem o que fazer quando se deparam com ele.— Não conseguimos mais viver sem o telefone celular. Os jovens, têm o celular quase como se fosse a extensão da mão. Ele já faz parte até da educação, de escola etc. Muitos utilizam de uma forma saudável, mas tem uma parte importante que utiliza de uma forma patológica e os pais não sabem o que fazer — diz o psiquiatra Arhur Guerra, sócio da Elibrè. — Estamos vendo cada vez mais crianças e adolescentes, de 10, 12, 14 anos, com uma ligação patológica (com a tecnologia). Chega ao ponto de o filho brigar, xingar e até bater nos pais porque tiraram o celular. Esses casos não são apenas publicações nas redes sociais. Eles acontecem na vida real.O programa foi criado após a equipe da Elibrè identificar cada vez mais pessoas adoecidas e internadas por conta da tecnologia e, por outro lado, poucos médicos especializados nesse tema.— Observamos muita gente precisando de ajuda, adolescentes que chegam a usar fralda descartável para não pausar o jogo para ir ao banheiro — afirma Mauricio Barbosa, sócio-fundador da Elibrè.A proposta do programa é acolher os jovens e adultos que estão usando as telas com mais frequência do que deveriam, com impacto negativo em suas vidas, mas com dificuldade de superar esse padrão problemático sozinhos.De acordo com Emílio G. Tazinaffo, médico psiquiatra, co-coordenador do Programa de Dependências Digitais da Elibrè, colaborador e pesquisador do Programa Ambulatorial Integrado dos Transtornos do Impulso (PRO-AMITI HC FMUSP), nem todo uso exagerado de tecnologia é considerado patológico ou problemático.— A dependência ocorre quando o indivíduo vai perdendo a capacidade de se autorregular ou quando ele vai perdendo a capacidade de se organizar, mesmo percebendo ou tendo prejuízos por conta do comportamento — explica o psiquiatra. — Para facilitar, costumamos fazer um paralelo com gamers. Gamers profissionais treinam 10 horas por dia. É o trabalho deles. Então, eles usam (a tecnologia) muitas horas por dia, mas conseguem desligar o jogo quando o trabalho acaba e ter sua vida normal. Então essa pessoa faz um uso, em termos de horas, muito intenso, mas não necessariamente tem prejuízo ou sofrimento. Portanto, não dá para dizermos que ele é dependente.Na dependência, o indivíduo, mesmo que não perceba, não consegue deixar de lado o jogo, o celular ou qualquer outro meio pelo qual tenha acesso ao meio digital, sem que isso lhe cause sofrimento. Com o tempo, isso também passa a causar prejuízos em vários aspectos da vida, como social, escolar e familiar.— Em último ponto, a dependência vai gerar prejuízos funcionais pessoais e interpessoais. Ou seja, para dizermos que um uso nocivo se tornou uma dependência, há um prejuízo na vida desse indivíduo. Esse indivíduo não precisa necessariamente ter a crítica sobre o prejuízo, mas todo mundo percebeu. Ele foi mandado embora do trabalho. As notas dele começaram a cair. Ele está brigando com os pais, está isolado. Isso é uma dependência — completa o médico.A primeira edição do programa está prevista para abril de 2026, em São Paulo, e terá duração de 90 dias. Poderão participar adolescentes a partir de 12 anos e jovens adultos. Inicialmente, todos os interessados passarão por uma consulta de triagem para verificar sua elegibilidade e necessidades específicas para o programa em si, que será dividido em duas fases.A primeira etapa é uma imersão intensiva de três dias, um período estruturado longe das telas e perto da natureza, em um hotel boutique perto da capital paulista. Depois desse período, os participantes retornam para suas rotinas e seguem em cuidados que envolvem intervenções multidisciplinares. No caso dos menores, os responsáveis estarão presentes em todas as etapas, inclusive durante a imersão.A organização do programa foi desenhada pelos psiquiatras Emilio Tazinaffo e Rodrigo Machado, que possuem longa experiência clínica em dependências digitais. Ambos são pesquisadores do PRO-AMITI, referência latino-americana no estudo e tratamento de dependências comportamentais.Relações de uso problemático da tecnologia são um fenômeno recente e muitas famílias ainda não sabem o que fazer quando se deparam com ele. Segundo Machado, as dependências digitais não podem ser explicadas por um único fator.Embora aplicativos, redes sociais e jogos tenham evoluído para incorporar mecanismos de reforço que aumentam o risco de dependência, o fenômeno é multifatorial. Aspectos emocionais, dificuldades de regulação, isolamento social e dinâmicas familiares fragilizadas também contribuem para o quadro.Por isso, o programa valoriza tanto o trabalho clínico multidisciplinar quanto o fortalecimento dos vínculos familiares e a reconexão presencial entre seus membros. A Elibrè estruturou sua linha de cuidado com base em diversas estratégias já validadas para tratar transtornos digitais, reunindo as melhores práticas.— O programa é baseado em evidências científicas e acompanhamento multiprofissional para promover equilíbrio, autonomia e qualidade de vida — afirma Guerra.— Queríamos fazer o melhor possível. Então, basicamente, tentamos colocar intervenções que já têm evidências científicas comprovando que elas ajudam nesse tratamento das dependências digitais mas que, muitas vezes, elas são validadas de formas isoladas. Então, criamos um novo tratamento que juntasse essas intervenções isoladas em um único caminho para esse paciente — completa Tazinaffo.Por exemplo, durante o fim de semana de imersão, haverá uma série de intervenções para os adolescentes, jovens e as famílias. A primeira delas é a psicoeducação, onde os especialistas vão explicar o que é o diagnóstico, quais são os riscos e prejuízos causados na vida desses indivíduos.— Esse é um ponto muito importante porque muitas vezes os indivíduos adoecidos, principalmente os adolescentes, não têm muita crítica de que estão adoecidos. Às vezes os pais já perceberam, a escola percebeu, mas o adolescente ainda está ali naquele movimento de falta de percepção. Então, é muito importante podermos explicar o que é e porque estamos propondo um tratamento.Outras etapas incluem detox digital, jogos de tabuleiro, mindfulness, além de conversas mediadas por psicólogos e psiquiatras.— Os jogos de tabuleiro são uma parte muito importante do tratamento. Existem evidências robustas de que essa é uma excelente forma de ajudarmos esses adolescentes porque se trata de um contato físico e real. Por meio desses jogos, proporcionamos a resolução de problemas, a interação social, e traz essa perspectiva do jogo, da competitividade.Outro ponto importante é o contato com a natureza. Daí a escolha do local.— Existem vários estudos mostrando que áreas verdes e um ambiente com menos poluição auditiva e visual, como por exemplo, um hotel fazenda, por si só, diminui os níveis de estresse. Então, colocar esses indivíduos num ambiente com menos estímulos, com menos estresse, é uma das formas de conseguirmos criar um ambiente favorável para que eles comecem a olhar de forma diferente para essa psicoeducação e intervenções que vão acontecer — diz o psiquiatra.Ao final desses três dias, começa a fase de acompanhamento, que será desenhada de acordo com as necessidades de cada indivíduo, mas que contará com psicoterapia individual e em grupo, tanto para o indivíduo adoecido quanto para os familiares.— A terapia, especificamente a psicoterapia voltada para as dependências, é uma das principais formas de tratamento — pontua Tazinaffo.Se houver comorbidades, como TDAH, depressão e ansiedade, isso também será abordado e tratado. Ao final do tratamento, o objetivo não é que o jovem ou o adolescente parem de usar as telas, mas que eles usem de forma saudável.— Você não vai ver nenhum estudo dizendo para fazer abstinência de celular ou de computador porque isso seria impossível no mundo atual. O grande objetivo, quando falamos de dependência digital é criar uma relação saudável e de autonomia desse uso — avalia Tazinaffo.Para Ary Ribeiro, sócio-fundador e diretor executivo da Elibrè, ao cumprirem o programa, a ideia é que os participantes sintam que conseguiram adquirir os recursos necessários para uma relação saudável com a tecnologia “e que se tornaram capazes de utilizar os benefícios do mundo digital de forma consciente”. Após essa primeira edição, o plano da equipe é expandir o programa para escolas. The post Médicos brasileiros criam tratamento para crianças e adolescentes dependentes de tela appeared first on InfoMoney.