Pouco tempo antes do Banco Central cortar a taxa Selic, o mercado apostava que o ciclo de corte de juros no Brasil começaria mais agressivo, com redução de 50 pontos-base. No entanto, na mesma semana da decisão, as coisas mudaram: o choque do petróleo parecia mais intenso e fim do conflito no Oriente Médio, longe do fim. Nesse contexto, Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central do Brasil, disse que a autoridade monetária optou por um corte menor no juros justamente para “ganhar mais tempo”. Em sua avaliação, a postura mais conservadora do BC é o que permite a calibragem da política monetária neste momento.“A gordura acumulada com uma posição mais conservadora permitiu ganhar tempo para entender melhor o cenário e seguir com a trajetória planejada”, afirmou durante a sua participação no Safra Macro Day, nesta segunda-feira (30).Ao detalhar a condução da política monetária nos últimos meses, Galípolo destacou que a estratégia de manter a taxa básica de juros em patamar elevado por mais tempo foi, inicialmente, alvo de divergências no mercado, mas acabou se consolidando como o cenário base.Segundo ele, havia, de um lado, apostas de que a Selic precisaria subir ainda mais, para níveis próximos de 18% ou 20%. De outro, parte dos agentes avaliava que o patamar de 15% já era excessivamente restritivo. Com o passar do tempo, no entanto, ganhou força a leitura intermediária de que a manutenção dos juros em 15% por um período prolongado seria suficiente para garantir a convergência da inflação.“A ideia de 15% por um período bastante prolongado foi ganhando confiança dentro do mercado”, afirmou.Na avaliação dele, essa construção gradual de credibilidade foi fundamental para permitir que a autarquia acumulasse o que chamou de “gordura” na condução da política monetária, que deu “espaço de manobra” e possibilitou uma reação mais cautelosa diante de novos choques, sem a necessidade de mudanças abruptas na trajetória dos juros.Choques no petróleo não alteram visão do BCO presidente do BC ressaltou que, mesmo diante de novos choques, o BC optou por não alterar o plano traçado anteriormente. “Esses novos fatos não alteraram a conjuntura como um todo, nem a nossa trajetória de política monetária”, afirmou.Galípolo destacou ainda que o mundo enfrenta atualmente o quarto choque de oferta em menos de uma década, o que tem elevado a incerteza sobre inflação e crescimento global. “A nossa leitura, neste momento, é de inflação para cima e crescimento para baixo”, disse.Na avaliação do presidente do BC, o ambiente externo segue desafiador, especialmente diante do aumento do endividamento nas economias avançadas desde a pandemia. Segundo ele, esse movimento pressiona o custo de financiamento global e acaba afetando também países emergentes, como o Brasil.Apesar disso, Galípolo ponderou que o país se encontra em uma posição relativamente mais favorável em comparação com seus pares, especialmente por ser exportador líquido de petróleo e manter uma política monetária mais contracionista.Mesmo com esse cenário, a autoridade monetária seguirá adotando uma postura cautelosa, buscando separar “ruído de sinal” para definir os próximos passos da política monetária.O assunto mais importante no Brasil hojeAo abordar os desafios estruturais da economia brasileira, Galípolo afirmou que o avanço da produtividade é hoje o tema mais relevante para o país, com impactos diretos tanto sobre a política fiscal quanto sobre a condução da política monetária.Segundo ele, o Brasil tem apresentado, nos últimos anos, um padrão de crescimento baseado principalmente no aumento do uso da força de trabalho e no estímulo à demanda, com ganhos limitados de eficiência. Esse modelo, na avaliação do presidente do BC, tende a gerar ciclos curtos de expansão, seguidos por pressões inflacionárias que exigem respostas via juros mais altos.“É difícil achar um tema mais importante para o Brasil do que a questão da produtividade”, afirmou.Nesse sentido, Galípolo destacou que a superação desse padrão passa necessariamente pela ampliação dos investimentos, tanto domésticos quanto estrangeiros, em áreas capazes de elevar o potencial de crescimento da economia. O objetivo, segundo ele, é permitir que o país deixe de depender de estímulos de curto prazo e avance para um ciclo mais longo e sustentável de expansão.A avaliação do presidente do BC é de que a melhora do ambiente de negócios e a maior integração do Brasil às cadeias globais são fatores-chave para destravar esse processo e viabilizar ganhos mais consistentes de produtividade ao longo do tempo.