“Maioria dos cubanos quer ser capitalista”, diz neto de Fidel Castro à CNN

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Em um país onde o acesso regular à internet ainda é considerado um luxo, o dono de boate cubano Sandro Castro, neto do falecido líder Fidel Castro, acumulou mais de 150 mil seguidores no Instagram.Ao contrário do resto de seus parentes extremamente reservados e muitas vezes secretos, Sandro busca abertamente fama e notoriedade, chegando a provocar o governo comunista da ilha.Mas, em uma entrevista exclusiva concedida à CNN durante uma visita noturna, em meio a um dos frequentes apagões que assolam a ilha, o jovem de 33 anos afirmou ser incompreendido. Leia mais Petróleo russo em Cuba: por que o alívio na crise não será imediato EUA diz que não retirou sanções de Cuba após chegada de petroleiro russo EUA reabrem embaixada na Venezuela em “novo capítulo” diplomático “Estou fazendo vídeos sobre uma situação tensa e triste”, disse Castro, referindo-se ao aumento das tensões entre a ilha e o governo do presidente dos EUA, Donald Trump, que aceleraram ainda mais o colapso econômico de Cuba.“Pelo menos estou tentando fazer as pessoas felizes”, concluiu Castro.“Para arrancar um sorriso deles. Eu jamais zombaria de uma situação que também enfrento”, acrescentou.Uma vida de privilégios em CubaAs postagens de Castro oferecem um raro vislumbre de uma vida de privilégios inimaginável para a maioria dos cubanos, enquanto ele ocasionalmente critica os membros do aparato comunista que sucederam seu avô, falecido em 2016, e seu tio-avô Raúl, que deixou a presidência em 2018.Um vídeo recente no Instagram mostrava um ator com uma peruca malfeita fingindo ser Donald Trump chegando à porta de Castro e tentando comprar Cuba dele.“Podemos fazer negócios porque você é um showman e homem de negócios como eu”, diz o falso Trump ao verdadeiro Castro.“Você quer comprar o quê!? Calma aí!” responde Castro.Zombar da ameaça de Trump de tomar o controle de Cuba e da crescente crise econômica do país pareceria insensível, para não dizer perigoso, em uma nação que alertou seus cidadãos sobre a necessidade de se prepararem para a guerra.É difícil imaginar alguém que não seja Castro conseguindo se safar com uma manobra semelhante.Mas Sandro Castro disse que, assim como muitos outros cubanos, está farto dos rumos que o país está tomando.“É muito difícil”, disse Castro sobre a crise crescente que levou alguns cubanos a protestarem contra o governo e outros a vasculharem lixeiras em busca de comida.“Você sofre com milhares de problemas. Em um dia, pode faltar luz, água. As mercadorias não chegam […] É tão difícil, muito difícil”, disse Castro.Era noite, mas ele usava óculos de sol de grife para a entrevista em seu apartamento no bairro isolado de Kohly, em Havana, onde muitos militares e oficiais da inteligência cubana residem.Em meio a apagões, navio com petróleo russo se aproxima de Cuba | CNN PRIME TIME“A indignação gera curtidas”Em meio a uma crise energética que assola toda a ilha, o debate sobre o quanto Castro realmente sofre enquanto bebe cervejas cubanas geladas e alimenta seu moderno apartamento de solteiro com um gerador de bateria EcoFlow provavelmente só aprofundará a controvérsia em torno de um herdeiro da família mais famosa de Cuba.Castro afirma não ser “rico como Dubai”, que sua família não possui mansões ou iates e diz que nem sequer tem gasolina para abastecer o carro. Mas em um país onde o salário médio é inferior a US$ 20 por mês, Castro parece estar se saindo muito bem. Mesmo com a economia cubana em colapso, nas redes sociais, para Castro e seus amigos, a festa nunca acaba.Ele é talvez a figura mais rara em Cuba; alguém que une os dois extremos políticos que debatem há quase 70 anos o futuro da nação, compartilhando o desprezo por ele.Para os exilados cubanos que fugiram da revolução de 1959, ele é um símbolo de pura hipocrisia, um dos descendentes de um líder comunista que proibiu a iniciativa privada durante décadas e defendeu a austeridade, mas que, ao mesmo tempo, desfruta dos frutos do capitalismo.Para os apoiadores mais fervorosos da revolução cubana, ele é um traidor da classe proletária, que lucra com sua linhagem revolucionária para obter cliques e curtidas.“Ele está se aproveitando do ‘me odeie’”, disse Ted Henken, professor de sociologia e antropologia do Baruch College, em Nova York, que estudou a disseminação da internet em Cuba.“As Kardashians, Paris Hilton e ele também estão se aproveitando dessa inveja ou desse ‘olhem para o meu estilo de vida fabuloso’”.“É impossível desviar o olhar”, disse ele.“A indignação gera curtidas e seguidores”, afirmou.Castro nega ser milionário e rejeita a possibilidade de que suas conexões familiares o protejam ou tornem sua vida mais fácil do que a de outros cubanos. Sua boate em uma das principais avenidas de Havana “apenas” lhe custou US$ 50 mil, disse ele, uma quantia que ultrapassa a imaginação da maioria dos cubanos.“O pouco que tenho é fruto do meu esforço, do meu sacrifício”, afirmou.Será que ser um Castro ajuda em Cuba? “Meu nome é meu nome. Tenho orgulho do meu nome, logicamente. Mas não vejo essa ajuda de que você fala. Sou apenas mais um cidadão”, disse ele.Durante a entrevista, Castro também se perguntou em voz alta como conseguiria um visto para os EUA para “visitar amigos em Miami” e se desculpou por seu inglês rudimentar.“É como o Maduro”, disse ele com um sorriso maroto, referindo-se ao ditador venezuelano preso pelos EUA em janeiro.“A maioria dos cubanos quer ser capitalista”Sandro Castro é um dos netos de Fidel Castro e Dalia Soto del Valle, que, segundo relatos, era professora no centro da ilha e viveu discretamente com o líder cubano por décadas.O casal teve cinco filhos: Alexis, Alex, Alejandro, Antonio e Angel. Fidel Castro, seja por querer proteger a privacidade de sua família ou manter o mistério de um revolucionário que só tinha tempo para o seu país, nunca revelou publicamente a existência da família.Alexis Castro Soto del Valle, pai de Sandro e engenheiro de telecomunicações, também já se aventurou nas redes sociais. Ele publicou na rede social X memórias de sua infância, bem como críticas veladas às recentes decisões econômicas do governo cubano.Mas em 2024, Alexis Castro anunciou que estava fazendo um “detox digital” e parou de postar em sua conta no X. Sandro estava ao telefone com o pai preparando os pontos principais da entrevista quando a CNN chegou para falar com ele.Não há indícios, porém, de que Sandro Castro tenha qualquer intenção de diminuir o ritmo de suas postagens, embora tenha admitido à CNN que sua família às vezes pede que ele remova suas publicações controversas, nas quais ele zomba de apagões e da escassez de combustível.“Estou apenas brincando”, disse ele, mesmo com blogueiros pró-governo pedindo sua prisão.Ele disse à CNN que quer produzir sua própria cerveja e comprar mais casas noturnas e carros, mas está frustrado com a burocracia que envolve todo o comércio em Cuba, resultado do sistema implementado por seu avô.Análise: Navio-tanque russo com petróleo bruto chega a Cuba | CNN NOVO DIA“Precisamos abrir o modelo econômico, eliminar a burocracia”, lamentou, sem ironia.“Sou um revolucionário, mas um revolucionário de ideias, de progresso, de mudança”, disse, fazendo referência ao slogan de “continuidade” do atual presidente cubano, Miguel Díaz-Canel.“Eu não diria que ele está fazendo um bom trabalho. Para mim, ele não está fazendo um bom trabalho”, disse Castro sobre Díaz-Canel, o primeiro chefe de Estado cubano nãodesde a revolução e que contou com o apoio declarado de Raúl e Fidel Castro ao longo dos anos.Sandro Castro afirmou que seus vídeos e críticas ao sistema levaram a Segurança do Estado cubano a intimá-lo para interrogatório. Ele foi liberado com apenas uma advertência, disse, não por causa de seu sobrenome famoso, mas porque nunca incitou a violência ou a mudança de regime.Ao elogiar seu avô Fidel e seu tio-avô Raúl, Sandro Castro se recusou a dizer se a revolução que eles lideraram havia melhorado a vida na ilha.“Eu nasci depois de 1959, então não posso dizer”, afirmou.Ele se mostrou mais enfático sobre como um acordo com Trump poderia revolucionar a economia da ilha. Em seu vídeo mais recente, ele apresenta o ator que interpreta o presidente americano com um hotel “Trump” imponente no horizonte de Havana.“Há muitas pessoas em Cuba que pensam de forma capitalista. Há muitas pessoas aqui que querem praticar o capitalismo com soberania”, disse.“Acho que a maioria dos cubanos quer ser capitalista, não comunista”, concluiu Castro.