A repetição leva à perfeição ou à estagnação?

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Tem um ditado que diz que, quando fazemos várias vezes a mesma coisa, alcançamos a perfeição. Você, com certeza, já viu isso na prática.Lembra de quando conquistou o seu primeiro emprego e, no começo, tudo era novo, dava insegurança e exigia mais esforço? Aposto que, com o tempo, você foi pegando o jeito, ganhando confiança e, de repente, estava tirando de letra.Inscreva-se gratuitamente na InfoMoney Premium, a newsletter que cabe no seu tempo e faz diferença no seu diaIsso acontece não só no trabalho, mas nos estudos, no esporte, quando estamos aprendendo um idioma novo ou mesmo a cozinhar. Enfim, praticamente tudo na vida funciona dessa forma: nós treinamos, treinamos e treinamos até que aquilo que antes parecia difícil se torna mais fácil. Adquirimos proficiência.Só que existe um outro lado dessa história toda: no caso do trabalho, a repetição também pode levar à estagnação. Estou me referindo a um tipo de paralisia que tem a ver com a falta de desenvolvimento de habilidades e que surge quando temos um apego muito grande à rotina de trabalho.Vou explicar melhor.O que acontece é que todo mundo, quando entra em uma empresa, tem um job description, ou seja, um conjunto claro de atribuições, atividades e entregas esperadas para o seu cargo. Ainda que um dia não seja exatamente igual ao outro, as responsabilidades, em geral, se mantêm as mesmas. E isso, por um lado, nos dá a oportunidade de repetir tarefas e processos até fazer bem feito.No entanto, por outro lado, quando uma pessoa fica presa somente ao escopo do seu cargo, ela corre o risco de cair em um cenário de mesmice onde não há muita brecha para descoberta de novos interesses e, consequentemente, de novas habilidades.Toda essa conversa nos leva a uma questão relacionada ao desenvolvimento de skills que é pouco discutida: nem todo aprendizado acontece de um jeito planejado ou formal.Apesar de existirem processos corporativos estruturados que viabilizam a descoberta de habilidades, também há (ou deveria existir) um espaço de experimentação que nasce no dia a dia, fora do roteiro, nas interações e nas oportunidades não previstas. Só que, para isso acontecer, é necessário não só que as empresas favoreçam esses espaços, mas que as pessoas demonstrem curiosidade e interesse para se aventurarem além do que está estritamente no seu escopo.Sabe quando você experimenta um prato que nunca tinha comido e, de repente, descobre um novo tipo de gastronomia? Ou quando escuta uma música de um estilo diferente e se surpreende? Ou quando, navegando em um streaming, resolve dar uma chance para uma série desconhecida e acaba gostando? São essas experiências simples, muitas vezes não planejadas nem obrigatórias, que ampliam repertório e abrem novas possibilidades.Ninguém pediu que você provasse um novo tipo de comida. Ninguém colocou fones na sua cabeça e obrigou a escutar determinado álbum. E ninguém recomendou aquele seriado na televisão. Essas descobertas vieram de uma disposição para explorar novas possibilidades.Da mesma forma, essa dinâmica deveria fazer parte da nossa vida profissional. Estou falando daquelas situações em que, por curiosidade, você se envolve em um projeto diferente, uma iniciativa nova ou uma reunião de outra área.São nesses momentos em que você se expõe a contextos novos e aprende na prática que acaba percebendo uma inclinação para algo que nem imaginava ter talento.Sei que, dependendo de como esse espaço é apresentado dentro das empresas, pode soar como um jeito disfarçado de colocar mais responsabilidade na sua mesa. E esse receio apareceu na nossa última pesquisa da Carreira dos Sonhos.Já há algum tempo, diferentes estudos têm indicado uma mudança no contrato psicológico entre organizações e profissionais. Existe uma busca por relações mais equilibradas e, com isso, pessoas passam a optar por recalibrar o quanto estão dispostas a ir além do que foi combinado. Em vez de sempre “andarem aquele quilômetro a mais”, elas entregam o básico bem feito, mais ou menos como funciona o modelo de negócio freemium.No freemium, um serviço básico é oferecido gratuitamente, enquanto funcionalidades adicionais são disponibilizadas mediante pagamento. Seria como se profissionais estivessem dizendo que, para fazer entregas diferentes, inovar dentro da sua área ou assumir outras responsabilidades, é necessário que as organizações ofereçam contrapartidas claras, seja em reconhecimento, desenvolvimento ou remuneração. E eu entendo a lógica por trás desse movimento.O meu ponto, no entanto, é que ater-se somente ao mínimo esperado pelo contrato pode ser ruim para a própria pessoa que se prende a uma rotina.Quando falo da importância de se abrir para experiências fora do escopo, não se trata de fazer mais por fazer, nem de aceitar qualquer demanda, muito menos de trabalhar além do limite. A questão é que fazer o básico bem feito não significa fazer sempre do mesmo jeito. Dentro do próprio escopo, existe espaço para melhorar a entrega, inovar na forma de fazer e se destacar sem necessariamente assumir novas funções.É sobre escolher sair do automático. E fazer isso de vez em quando pode ser muito bom para a carreira.Existe uma diferença grande entre assumir mais tarefas sem critério e se expor, de forma intencional, a experiências que podem ajudar no desenvolvimento. No primeiro caso, você só acumula afazeres. No segundo, você constrói repertório e amplia seu rol de skills.Isso exige maturidade para filtrar o que faz sentido, dizer não em situações que só aumentam a carga sem trazer aprendizado e, claro, aceitar oportunidades que podem abrir novos caminhos.A carreira não se constrói só com o que está no contrato. Se fosse assim, todo mundo com o mesmo cargo teria a mesma trajetória e não é isso que acontece. A diferença está justamente no que cada um decide fazer além do básico para ampliar sua capacidade profissional.Ficar só no que é esperado pode até trazer segurança e conforto no curto prazo, mas, com o passar do tempo, pode limitar seu desenvolvimento de um jeito silencioso.The post A repetição leva à perfeição ou à estagnação? appeared first on InfoMoney.