LONDRES — Depois de deixar o ensino médio em uma área industrial da Austrália, Josh Payne seguiu um caminho improvável até se tornar o chefe de uma empresa de data centers multibilionária, agora no centro da expansão impulsionada pela inteligência artificial.Ele passou três anos trabalhando em uma mina de carvão e criou sites vendendo suplementos proteicos e eletrônicos. Depois, fundou uma plataforma de recrutamento para trabalhadores da construção civil na Austrália antes de se envolver com energia renovável e mineração de criptomoedas.Leia também: Do Zero ao Topo Experience: Benchimol e líderes impulsionam empreendedoresEntão, cerca de dois anos atrás, Payne voltou sua atenção para data centers de IA.Foi um timing oportuno. Em 2024, após se mudar da Austrália para Londres, Payne fundou sua empresa de data centers, a Nscale, justamente quando empresas de tecnologia estavam desesperadas por parceiros que pudessem fornecer eletricidade, semicondutores e outros recursos computacionais necessários para construir IA. Com base em suas conexões em criptomoedas e energia, Payne conseguiu oferecer exatamente isso.Hoje, ele conta com Microsoft, OpenAI e ByteDance, dona do TikTok, como clientes. Jensen Huang, CEO da fabricante de chips de IA Nvidia, deu a Payne uma garrafa de uísque Johnnie Walker após assinar um contrato com a Nscale no ano passado.“Ele ficou surpreso ao saber que eu vim das minas de carvão”, disse Payne em uma entrevista recente.A Nscale anunciou que levantou US$ 2 bilhões com a Nvidia e outros investidores, incluindo a gigante industrial norueguesa Aker e a firma de capital de risco 8090 Industries. O acordo avalia a empresa em US$ 14,6 bilhões.Sheryl Sandberg, ex-diretora de operações da Meta, está se juntando à Nscale como conselheira e membro de seu conselho de administração. Nick Clegg, outro ex-executivo da Meta, e Sue Decker, ex-executiva do Yahoo, também passaram a integrar o conselho.A trajetória pouco convencional de Payne ilustra o atual boom da IA: investimentos em alta, empresas emergentes crescendo em ritmo acelerado e novas fortunas sendo criadas.A Nscale compartilha outra característica desta era da IA ao acumular obrigações financeiras significativas. No mês passado, a empresa assumiu US$ 1,4 bilhão em dívidas, incluindo financiamento da Blue Owl, uma firma de Wall Street sob escrutínio por práticas arriscadas de concessão de crédito. Em setembro, levantou mais US$ 1,1 bilhão com investidores.Nos próximos cinco anos, a empresa espera precisar de mais de US$ 45 bilhões para projetos de data centers no mundo todo, com empreendimentos em andamento no Reino Unido, Islândia, Noruega, Portugal, Texas e um local ainda não divulgado no Sudeste Asiático.Investidores globais mais cautelosos veem sinais de uma bolha mais ampla de IA. Eles argumentam que, mesmo sendo uma tecnologia de transformação geracional, empresas jovens correm o risco de gastar bilhões sem um caminho claro para gerar retorno. Estão construindo instalações com vida útil superior a 15 anos, mas frequentemente com contratos de apenas cerca de cinco anos.Críticos alertam que, se o boom desacelerar — ou se os clientes não renovarem seus contratos —, algumas empresas irão quebrar.“Cada vez mais, nos parece uma questão de quando, não de se, a bolha de IA vai estourar”, alertou o fundo de hedge Man Group em um relatório recente.Payne afirmou que a Nscale está construindo instalações apenas em locais onde já possui clientes. A energia necessária totalizará cerca de 5,5 gigawatts, equivalente ao consumo de aproximadamente 5 milhões de residências americanas.“Estamos vivendo uma demanda insaciável”, disse Payne.A Nscale faz parte de uma nova geração de provedores de data centers conhecidos como neoclouds, que buscam lucrar com a IA assumindo o risco financeiro de construir a enorme infraestrutura necessária para a tecnologia. Outras empresas desse segmento incluem a CoreWeave, sediada em Nova Jersey; a Nebius, em Amsterdã; e a IREN, em Sydney.A Microsoft e outras gigantes da IA estão usando neoclouds para transferir parte de suas próprias responsabilidades financeiras. Elas podem fechar acordos com empresas como a Nscale para adquirir capacidade computacional rapidamente e, então, esperar para ver como a demanda por IA evolui antes de se comprometer com seus próprios projetos caros.Oyvind Eriksen, CEO da Aker, uma das maiores empresas da Noruega, disse que conheceu Payne no ano passado após o líder da Nscale entrar em contato pelo LinkedIn. Eles fecharam um acordo para construir data centers na Noruega, e Eriksen agora integra o conselho de administração da Nscale.Ele disse que a empresa poderia resistir a uma desaceleração porque tem acesso a capital, eletricidade barata e confiável e contratos com clientes que ajudam a cobrir os custos de construção e de semicondutores.“É provável que haja volatilidade”, disse Eriksen. A Nscale, segundo ele, poderá adquirir outras empresas em dificuldades “quando a correção acontecer”.Payne afirmou que seu interesse pelo empreendedorismo começou ao ler livros como “Trabalhe 4 Horas por Semana” durante os períodos de folga na mina. Ele se interessou por data centers há cerca de cinco anos, enquanto trabalhava para investidores que financiavam projetos de energia renovável na Austrália. Os data centers eram vistos como consumidores ideais de eletricidade excedente.Ele descobriu que as regiões árticas do norte da Noruega tinham algumas das fontes de energia renovável mais baratas da Europa — energia hidrelétrica que custa cerca de 3 centavos de dólar por quilowatt-hora, em comparação com cerca de 20 centavos em média no continente. Em 2022, ele reservou voos de Sydney para Oslo que levaram mais de 24 horas.“Fiquei duas semanas lá e saí com uma carta de intenção para adquirir um projeto, que na época era uma mina de bitcoin”, disse.Após o lançamento do ChatGPT no fim de 2022, o interesse por data centers explodiu. Mas o grande avanço de Payne só veio no ano passado, quando conseguiu uma reunião com a Microsoft. A empresa agora é a maior cliente da Nscale; eles trabalham juntos em projetos na Noruega, Portugal, Reino Unido e Texas.O acordo com a Microsoft, estimado no ano passado pela Bloomberg em US$ 23 bilhões, envolve riscos consideráveis. Se a Microsoft decidir que não precisa mais da Nscale quando o contrato terminar, Payne terá de encontrar outro grande cliente para os data centers e os 200 mil chips de IA da Nvidia.A duração média dos contratos da Nscale é de cerca de 5 anos e meio, disse Payne, embora ele não tenha revelado os termos do acordo com a Microsoft. Ele afirmou que a Nscale espera ser parceira da gigante de tecnologia por “muito tempo”, mas que sua empresa será capaz de encontrar outros usos para seus data centers caso o contrato expire.A Nscale está tentando atrair mais clientes, incluindo governos europeus que buscam empresas de tecnologia não americanas para parcerias em IA, disse Payne.c.2026 The New York Times CompanyThe post Ele era mineiro de carvão e virou dono de uma empresa bilionária de data center appeared first on InfoMoney.