O frio da madrugada, a neblina nas serras e o cheiro de café recém-torrado recebem quem chega a Piatã. A 1.280 metros de altitude na Chapada Diamantina, a cidade mais alta do Nordeste brasileiro é também a que mais surpreende: no inverno, o termômetro já marcou 1°C, e o café produzido aqui já foi eleito o melhor do Brasil.Por que Piatã é tão fria para uma cidade nordestinaPiatã ocupa um platô entre a Serra da Tromba e a Serra da Santana, numa das formações geológicas mais elevadas do Nordeste. A sede urbana fica a cerca de 1.280 metros de altitude, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e áreas rurais do município chegam a 1.500 metros. Esse conjunto cria um microclima atípico para a região: a média anual não ultrapassa 20°C, e nas madrugadas de junho e julho os termômetros já chegaram a 1,2°C, com sensação térmica próxima de zero. Nas noites mais frias, lareiras acesas e quentão são rotina nas casas da cidade serrana.O título de “cidade mais fria do Nordeste” é disputado por ausência de medições padronizadas em todas as cidades da região, mas a altitude de Piatã é verificável e nenhum outro município nordestino sede tem altitude equivalente. O nome Piatã vem do tupi e significa “pé firme”, uma boa descrição para uma cidade que se sustenta em cima de uma das formações mais antigas do Brasil.Uma cidade que nasceu do ouro e encontrou no café sua riqueza mais duradouraA mais antiga povoação da Chapada Diamantina nasceu em meados do século XVII, quando garimpeiros encontraram minas de ouro nas serras da Tromba e da Santana. O povoado de Bom Jesus dos Limões, atual Piatã, cresceu às margens da Estrada Real aberta em 1725 para ligar Rio de Contas a Jacobina. Quando o ciclo do ouro se esgotou, a altitude que trouxera os mineradores revelou outra vocação.Solo fértil da serra transformaram Piatã na Terra do Café (Foto: Divulgação-perfectdailygrind)O clima ameno e o solo fértil da serra transformaram Piatã na Terra do Café. Em outubro de 2024, o café chapadense foi o primeiro produto baiano a receber o selo de indicação geográfica com denominação de origem, segundo a Wikipédia da Chapada Diamantina, com dados do Globo Rural. Na edição de 2022 do Cup of Excellence, considerado o Oscar dos cafés especiais no mundo, o café da Fazenda Tijuco, produzido por Antonio Rigno de Oliveira Filho, obteve nota 91,41 em 100 e venceu em primeiro lugar. O segundo colocado também era de Piatã. A família Rigno chegou ao tetracampeonato, tendo vencido também em 2009, 2014 e 2015. Na edição de 2016, Piatã ocupou nove das dez primeiras posições da categoria Pulped Natural.Como a altitude transforma o café em algo diferenteO segredo está na combinação entre altitude, amplitude térmica e colheita seletiva. A temperaturas mais baixas desaceleram o metabolismo do fruto, prolongam a maturação e concentram açúcares e compostos aromáticos nos grãos. Os cafés de Piatã têm notas de melaço de rapadura, mel, frutas vermelhas e acidez equilibrada, um perfil que os distingue dos cafés do Sul de Minas e que levou especialistas internacionais a classificar a cidade, ao lado de Carmo de Minas, como uma das origens dos melhores cafés do Brasil.A cidade mais alta do Nordeste produz um dos melhores cafés do mundo (Foto: Divulgação-bahia.ws)O que ver além das fazendas de café em PiatãAs serras que cercam a cidade guardam trilhas, cachoeiras e registros pré-históricos a poucos quilômetros do centro.Serra do Navio: trilha de cerca de 10 km no total, com subida exigente até 1.816 metros de altitude, o ponto mais alto do município. Do topo, vista panorâmica para toda a cadeia montanhosa da Chapada.Serra da Santana: subida de 2,2 km com a Capelinha do Senhor do Bonfim no topo, a 1.662 metros. Rota de romaria e um dos melhores mirantes para ver o pôr do sol da região.Pinturas rupestres da Serra do Gentil: registros estimados em cerca de 7 mil anos, com figuras em tons de amarelo e vermelho retratando cenas do cotidiano, animais e rituais. A visita recomenda acompanhamento de condutor local.Caldeirões do Vale da Lua e Cachoeira do Cochó: formações rochosas e quedas d’água com poços para banho gelado. A Cachoeira do Patrício tem 32 metros de altura e paredões rochosos que emolduram a queda.Pico do Barbado: o ponto mais alto do Nordeste, com 2.033 metros, fica próximo a Piatã e a trilha parte de Catolés, levando cerca de 2h30. Do alto, avistam-se o Pico das Almas, o Itobira e várias serras da Chapada.Cachoeira do Cochó (Foto: Guiachapadadiamantina)Quando ir e o que esperar do clima em cada estaçãoO inverno seco é a temporada mais procurada, com frios intensos e céu limpo. O verão tem chuvas concentradas, mas manhãs abertas.Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.Como chegar a Piatã saindo de SalvadorPiatã fica a cerca de 558 km de Salvador pelas BRs 324 e 242 e BA-148, com aproximadamente 8h de carro. O aeroporto mais próximo é o de Lençóis (LEC), a cerca de 200 km, com voos regulares de Salvador e Confins. Vindo de Lençóis, o trecho pode ser feito de carro ou com transfer contratado em agências locais. Não há ônibus direto de Salvador; a alternativa é ir até Mucugê e seguir os 106 km restantes de táxi ou transfer.Piatã é para quem quer o Nordeste que ninguém contaA cidade mais alta do Nordeste guarda em cada xícara e em cada paredão de pedra a história de um lugar que sempre soube aproveitar o que tem: altitude, clima, solo e gente dedicada. O garimpo que fundou Piatã foi substituído por um café que vence concursos mundiais, e as serras que abrigaram os primeiros moradores ainda guardam pinturas de quem veio muito antes.Você precisa ir a Piatã com casaco na mala e tempo para entender por que esse café tem um sabor que não existe em mais lugar nenhum.O post A cidade mais alta do Nordeste fica na Bahia, pode chegar a 1°C no inverno e já venceu o Oscar do café quatro vezes apareceu primeiro em Olhar Digital.