Companhias aéreas enfrentam dilema tarifário enquanto preço da gasolina ameaça demanda por viagens

Wait 5 sec.

Companhias aéreas globais começaram a aumentar tarifas e reduzir capacidade para lidar com a súbita alta nos preços do petróleo, mas a capacidade do setor de se manter lucrativo pode depender de os consumidores reduzirem ou não as viagens aéreas, já que o custo da gasolina pressiona os orçamentos domésticos.Antes do início do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã no mês passado, o setor aéreo havia projetado lucros recordes de US$ 41 bilhões em 2026, mas a duplicação dos preços do combustível de aviação colocou essa previsão em risco e forçou as empresas a repensar suas rotas e estratégias.LEIA TAMBÉM: Tenha acesso às recomendações mais valorizadas do mercado sem pagar nada; veja como receber os relatórios semanais do BTG Pactual com o Money TimesCompanhias que vão da United Airlines à Air New Zealand e à escandinava SAS anunciaram cortes de capacidade e aumentos de tarifas, enquanto outras impuseram sobretaxas de combustível.“As companhias aéreas enfrentam um desafio existencial”, disse Rigas Doganis, que já liderou a antiga companhia nacional da Grécia, Olympic Airways, e atuou como diretor da easyJet, do Reino Unido.“Elas precisarão reduzir tarifas para estimular uma demanda enfraquecida, enquanto os custos mais altos de combustível as pressionam a aumentar os preços. Uma tempestade perfeita”, afirmou Doganis, que atualmente preside a consultoria Airline Management Group, com sede em Londres.Tráfego recorde de passageirosNo ano passado, o setor registrou um recorde de tráfego global de passageiros, que voltou a ficar cerca de 9% acima dos níveis pré-pandemia, mesmo diante de persistentes problemas na cadeia de suprimentos que afetaram a entrega de novas aeronaves.A forte demanda por viagens no período pós-pandemia e os gargalos na cadeia de suprimentos limitaram o crescimento da capacidade e deram às companhias aéreas um poder significativo de precificação, à medida que conseguiam ocupar mais assentos em cada avião.No entanto, a magnitude dos aumentos necessários para compensar a disparada no preço do combustível de aviação é enorme, justamente em um momento em que os consumidores enfrentam o impacto dos preços mais altos da gasolina, o que pode reduzir gastos discricionários.“A única forma de elevar preços é reduzir capacidade”, disse Andrew Lobbenberg, chefe de pesquisa de ações do setor de transporte europeu no Barclays. “É isso que eu espero ver desta vez, e foi o que vimos em ocasiões anteriores de crise; as empresas simplesmente precisam começar a enxugar a capacidade.”Passagens mais carasO CEO da United Airlines, Scott Kirby, disse à ABC News na semana passada que as tarifas precisariam subir 20% para que a companhia cubra os custos mais elevados de combustível.A Cathay Pacific Airways, de Hong Kong, aumentou as sobretaxas de combustível duas vezes no último mês e, a partir desta quarta-feira, uma viagem de ida e volta de Sydney a Londres terá uma sobretaxa de US$ 800. Antes do conflito com o Irã, uma passagem de ida e volta na classe econômica nessa rota custava cerca de 2.000 dólares australianos (US$ 1.369,60).Analistas afirmam que as companhias de baixo custo podem enfrentar mais dificuldades, já que seus passageiros são mais sensíveis a preços do que clientes corporativos e consumidores de alta renda, cada vez mais visados por concorrentes premium como Delta Air Lines e United Airlines.“Acho que, para os viajantes mais sensíveis a preço, até mesmo voos de curta distância podem ser substituídos por trem, ônibus ou outras alternativas”, disse Nathan Gee, chefe de pesquisa de transporte da Ásia-Pacífico no Bank of America.Choques do petróleoO conflito no Oriente Médio representa o quarto choque do petróleo para o setor aéreo desde o início do século, mas é o primeiro em que companhias como a Vietnam Airlines demonstraram preocupação em garantir o fornecimento físico de combustível, devido ao fechamento do Estreito de Ormuz.Houve um episódio em 2007–2008, antes da crise financeira global afetar a demanda; outro após a Primavera Árabe por volta de 2011; e um terceiro após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia em 2022.Uma série de fusões entre 2008 e 2014 — como Delta-Northwest e American Airlines-US Airways — reduziu de oito para quatro o número de grandes companhias aéreas nos EUA e inaugurou uma era de controle mais rigoroso da capacidade, enquanto empresas de baixo custo como Ryanair e a indiana IndiGo apostaram em frotas padronizadas e rápidas rotações para manter baixos os custos unitários.Substituir aeronaves mais antigas e menos eficientes por modelos mais econômicos em combustível é uma forma óbvia de reduzir custos, mas a escassez severa na cadeia de suprimentos após a pandemia e problemas com motores de nova geração atrasaram as entregas.E, embora companhias americanas de ultrabaixo custo tenham algumas das aeronaves mais novas e eficientes da indústria, uma eventual queda na demanda por viagens pode transformar o pagamento por essas aeronaves em um obstáculo à lucratividade.Dan Taylor, chefe de consultoria da empresa de assessoria em aviação IBA, afirmou que o atual choque do petróleo deve ampliar a diferença entre companhias financeiramente fortes e as mais frágeis.“Empresas com balanços sólidos, forte poder de precificação e acesso confiável a capital estão mais bem posicionadas para absorver as pressões contínuas”, disse ele no site da companhia. “Em contrapartida, companhias com baixa lucratividade e opções limitadas de financiamento podem enfrentar um estresse financeiro crescente”.