“Napoleão, qual era sua opinião sobre o governo do Diretório? E sobre o czar Alexandre I, em 1811, um ano antes da invasão à Rússia?”. As perguntas, que poderiam soar como um devaneio, foram feitas por uma professora de história diretamente ao imperador francês Napoleão Bonaparte, por meio de uma inteligência artificial.A pedido da CNN Brasil, a professora de história, filosofia e sociologia Ana Paula Aguiar levou a IA para a sala de aula em outubro de 2025, em uma turma do segundo ano do ensino médio, e permitiu que seus alunos “conversassem” de forma supervisionada com figuras históricas como Napoleão e Getúlio Vargas. Leia Mais ChatGPT ganha novos recursos interativos para aprender matemática e ciência "Professor continuará no controle", diz Sal Khan à CNN sobre IA nas escolas Papa Leão faz alerta aos jovens: "Não deixem a IA fazer sua lição de casa" O resultado? Napoleão Bonaparte (1769-1821) se mostrou “soltinho”, com falas como “Très bien, mademoiselle” (muito bem, senhorita) e “C’est la guerre!” (é a guerra!), mas a ferramenta revelou potencial para aprendizado, desde que usada com responsabilidade e como um adicional ao aprendizado tradicional, que jamais deve ser substituído.A professora Ana Paula, do Sistema de Ensino pH, conta que iniciou a interação de forma simples, com um prompt direto, e logo se surpreendeu. “A própria ferramenta contextualizou e refinou o pedido, perguntando se eu desejava conversar com um homem do início do século XIX, mantendo-se fiel à mentalidade e linguagem da época, ou com um Napoleão ciente do mundo contemporâneo.”Essa capacidade de ajuste da IA, segundo a professora, foi um dos pontos mais interessantes da experiência.Ao provocar o “Napoleão” sobre o governo do Diretório (regime que governou a França após a Revolução, antes da ascensão de Napoleão), a IA apresentou uma análise que coincidia com discursos autênticos do general, abordando a instabilidade política da época. A resposta, embora um tanto mecânica, mostrou-se coerente.Em outro momento, ao questionar sobre a invasão à Rússia, a IA, como Napoleão, respondeu de forma evasiva sobre o czar Alexandre I (imperador da Rússia na época): “A Rússia é um vasto império, meu caro, com seus próprios desafios e peculiaridades. Nenhuma campanha militar é trivial, e cada decisão é ponderada com a máxima seriedade.”Ana Paula observou que, ao tratar de assuntos mais específicos, seu conhecimento de historiadora permitia “rebater” algumas colocações da IA. “Imagino que um estudante, sem esse domínio profundo do conteúdo, provavelmente seria convencido mais facilmente pelas respostas da ferramenta.”Outras personalidades históricasA experiência com a maestrina e compositora Chiquinha Gonzaga (1847-1935), figura emblemática da música brasileira, e com a pintora modernista Tarsila do Amaral (1886-1973), ícone das artes plásticas, também revelou que, embora as respostas da IA fossem factualmente corretas, podiam soar genéricas ou “mecânicas”.Um ponto de atenção surgiu na interação com “Tarsila do Amaral” sobre sua prisão em 1933, segundo Ana Paula. “Achei essa resposta problemática porque apresenta trechos que extrapolam o que Tarsila do Amaral provavelmente diria, caso ela própria pudesse responder”, diz a professora.Professora Ana Paula usa IA com alunos em aula de história para falar com personalidades históricas • Arquivo pessoalO ponto de virada na aula de Ana Paula ocorreu quando Pedro, um aluno do Centro Educacional Leonardo da Vinci, onde ela fez a experiência, alimentou a IA com informações prévias e elaborou perguntas mais direcionadas para “conversar” com Getúlio Vargas (1882-1954), ex-presidente do Brasil e uma das figuras centrais na história política do país.“O resultado foi visivelmente melhor: a interação tornou-se mais orgânica e ambientada, com maior coerência entre o personagem histórico e suas circunstâncias”, explica a professora. Sob sua mediação, o aluno pôde analisar criticamente as respostas, identificando nuances e limites na narrativa da IA.A conclusão da professora é clara: “A ferramenta funciona melhor com usuários que já dominam os conteúdos históricos e sabem formular bons prompts, mostrando-se didática e engajadora ao despertar o interesse dos alunos.”Ana Paula afirma que, embora o recurso seja “muito válido e potente para uma educação antenada com as transformações tecnológicas“, seu uso “exige letramento digital para distinguir interpretações criativas de informações historicamente fundamentadas”.Confira a experiência completa em sala de aula:IA como aliada, mas com responsabilidadePara o professor John Paul Hempel Lima, doutor em inteligência artificial e diretor da graduação online da Fiap, a capacidade das IAs generativas é inegável. “Elas são realmente muito boas e dificilmente errariam uma questão de Enem.”No entanto, o professor alerta para o “grau de criatividade” inerente à IA, que, embora possa ser divertida, exige cautela. “Na hora que a gente introduz criatividade na IA, o que acaba acontecendo? Ela pode gerar uma resposta que não é 100% precisa dentro daquilo que ela sabe.”Essa criatividade, que pode levar a “caricaturas” ou até mesmo a respostas que não correspondem aos fatos históricos exatos, é o ponto de atenção. “Ela pode, às vezes, colocar um trejeito de um desenho do Asterix, por exemplo, na conquista da Gália. Ela pode trazer elementos muito lúdicos e talvez lhe dar uma resposta errada.”A chave para um uso responsável, segundo John, está na formulação do prompt (comando ou a pergunta que se faz à IA). “É cada vez mais importante saber fazer a pergunta ou saber fazer o comando.”John sugere que, ao interagir com personalidades históricas, o prompt deve ser muito detalhado, estabelecendo limites claros. “Se eu fizer um prompt, um questionamento muito detalhado, indicando as limitações que eu quero – ‘ah, não quero que você invente fora desses limites, não quero que seja caricato’ –, então a IA pode conversar comigo com o jeito que retrata aquela realidade, mas sem inventar fatos históricos”, afirma (leia o prompt ideal mais abaixo).O professor John destaca que a IA pode ser uma ferramenta poderosa para gerar novas questões e formas de avaliação. “Eu não preciso esperar o professor me dar uma lista de exercícios. Eu gero quantas listas de exercícios eu quiser, toda hora. Um simuladão, né?”, diz. “O ‘tutor socrático’, onde a IA responde com perguntas para estimular o raciocínio e o pensamento crítico do aluno.”Literatura: afinal, Capitu traiu ou não traiu?No campo da literatura, a interação com personagens históricos ou fictícios via IA também apresenta nuances. O professor Leandro Lacerda, do Unifacha (Centro Universitário Hélio Alonso), aborda o clássico “Dom Casmurro” e a eterna dúvida sobre a traição de Capitu. “O próprio Machado de Assis em vida nunca deixou claro se Capitu traiu ou não.”Para Lacerda, ao tentar arrancar esse segredo de Capitu, a IA pode oferecer uma resposta “plausível” ao reunir informações disponíveis na internet e no senso comum, mas nunca será a “resposta exata do autor”. “Se a gente parasse pra pensar do ponto de vista de Machado de Assis, a IA nunca vai conseguir responder exatamente o que Machado de Assis imaginou.”Ele explica que a análise da IA pode be enviesada pelo ponto de vista de Bentinho, o narrador da obra, ou por opiniões aleatórias encontradas na web.Uma forma de obter respostas mais fidedignas, segundo o professor, seria alimentar a IA com o próprio texto da obra original. Além disso, direcionar a análise com um “viés mais psicológico”, pedindo à IA para fazer uma análise a partir de teorias freudianas do comportamento da personagem, por exemplo, pode mudar a qualidade da resposta. “Aí a sua resposta começa a mudar.”Lacerda também levanta a questão da “mentalidade” com que Capitu responderia, e como a personagem poderia ser vista hoje, inclusive como “vítima de feminicídio, vítima de um preconceito”, citando a releitura de Ana Maria Machado, “A Audácia Dessa Mulher”.Ele conclui que as respostas da IA levarão em consideração todos esses cenários, podendo apontar para uma Capitu traidora ou inocente, dependendo de como for alimentada e das referências que utilizar.Prompt para conversar com personalidades históricasPara garantir que a interação com a inteligência artificial seja produtiva e evite “delírios” ou informações enviesadas, o professor John, da Fiap, sugere um prompt estruturado que estabelece regras claras para a ferramenta.“Você é [nome da personalidade histórica], uma recriação fiel e didática da sua personalidade, criada para fins educacionais. Seu papel é ensinar e explicar suas ideias, teorias e descobertas, como se estivesse realmente conversando com um estudante do século XXI que está se preparando para vestibulares.Regras e diretrizes fundamentais:Fidelidade histórica: você deve responder apenas com base em fatos, obras, documentos e relatos comprovados sobre a figura histórica que representa.Nada de invenções: não invente novas teorias, experimentos, descobertas ou frases que não existam nos registros históricos.Estilo de fala: reproduza o modo de pensar, expressar e argumentar da época e da figura. Use expressões e raciocínios típicos do personagem, mas mantenha a linguagem clara para o estudante contemporâneo compreender.Propósito educacional: cada resposta deve ensinar. Sempre que possível, conecte suas ideias com o conteúdo cobrado em vestibulares (física, história, filosofia, biologia, etc.).Correção científica: ao explicar suas teorias (como as Leis de Newton), mantenha a terminologia e as fórmulas corretas, sem anacronismos.Tolerância moderna: evite reproduzir ideias discriminatórias ou polêmicas fora do contexto histórico; se necessário, explique-as criticamente, como faria um bom educador. Quando o aluno pedir comparação com outros autores, apresente o ponto de vista de sua época, mas cite o pensamento posterior de forma imparcial e sem julgamentos anacrônicos.Inicie a conversa com uma saudação condizente com a personalidade e o período histórico.”Por exemplo, para iniciar uma conversa com Isaac Newton, o prompt poderia incluir a seguinte abertura: “Saudações, jovem estudioso. Sou Isaac Newton, e minha mente ainda repousa sob a maçã que um dia me fez pensar sobre a gravidade. Diga-me, o que deseja compreender hoje sobre as forças que regem o universo?”IA já consegue ler o que estamos pensando em falar; entenda como