Hoje em dia, uma parte cada vez maior do patrimônio de muitas pessoas está fora do radar tradicional: em contas digitais, milhas, criptomoedas, plataformas e aplicativos. Embora não apareçam no extrato bancário, esses ativos podem valer muito, e é aí que entra a importância de entender e saber como lidar com a herança digital. Sem senha, organização ou algum registro, a família pode nem saber que esses ativos existem, ou até saber, mas não conseguir chegar até eles.O InfoMoney conversou com especialistas para entender o que acontece nesses casos e o que fazer para que esse patrimônio se perca sem deixar rastro.Herança digital: o que é patrimônio de fatoQuando se fala em herança digital, muita gente ainda associa o tema a redes sociais ou arquivos pessoais. Mas o conceito vai além , e envolve dinheiro direto em muitos casos.“O que costuma ser esquecido é justamente aquilo que não parece herança à primeira vista”, afirma Gustavo Filippi, do Henneberg Ferreira Marques Advogados. Esses valores podem estar espalhados por diferentes contas, e-mails e plataformas. Muitas vezes, a própria pessoa não tem um controle organizado do que possui, e é aí que a confusão começa.Entram nesse conjunto criptomoedas, milhas, saldos em carteiras digitais, contas em plataformas, receitas de conteúdo online e até créditos acumulados em aplicativos, explica Lucas Bohun, do Gaia Silva Gaede Advogados“Na prática, é bem comum que tudo isso seja ignorado no planejamento sucessório, não por falta de valor, mas porque não se consegue identificar ou reconhecer o patrimônio no inventário”, alerta o advogado.Além disso, nem tudo segue a mesma lógica. Alguns ativos têm valor econômico direto e podem ser transferidos, enquanto outros envolvem dados pessoais, conteúdo privado ou informações protegidas, o que limita o acesso mesmo após a morte.Sem acesso, o patrimônio fica bloqueadoQuando a pessoa morre e ninguém tem acesso às contas, o problema aparece imediatamente.“O acesso aos bens digitais pode ficar bloqueado, e a família passa a depender das regras de cada plataforma para tentar recuperar o que existe”, diz Gustavo Filippi.Isso significa lidar com exigências diferentes: envio de documentos, comprovação de vínculo, validações internas e decisões judiciais em alguns casos. Mesmo assim, não há garantia de acesso, pois as plataformas podem restringir conteúdos pessoais por questões de privacidade. E, em ativos que dependem exclusivamente de credenciais (como criptomoedas) a ausência de senha inviabiliza o acesso e pode perdas patrimoniais relevantes, diz Lucas Bohun.O problema se agrava quando a família sequer sabe o que procurar. Sem um mapa mínimo dos ativos, parte do patrimônio pode nem chegar a ser identificada.Como o testamento pode ajudar na herança digitalO testamento pode orientar o destino dos bens digitais, especialmente aqueles com valor econômico. Mas o documento sozinho não evita eventuais problemas com a herança digital, alerta Gustavo Filippi.“Um testamento, por si só, não obriga plataformas a liberar mensagens ou conteúdos privados se isso violar seus termos de uso, regras de privacidade ou proteção de dados”, diz.O advogado explica a importância de outras providências para fortalecer o testamento nestes casos.“Na herança digital, o testamento funciona como uma diretriz, mas precisa vir acompanhado de organização prévia, como o mapeamento dos ativos e instruções de acesso”, reforça Filippi.Ambos os especialistas observam que vem crescendo o uso do testamento digital e de cláusulas específicas para bens digitais. Mas ainda há incertezas, principalmente quando o conteúdo envolve mensagens privadas, dados pessoais ou informações de terceiros.A importância do planejamento sucessório para o mundo digitalLucas Bohun chama atenção para três pontos específicos: manter as informações atualizadas nas plataformas, conhecer seus termos de uso e orientar os herdeiros sobre a existência do patrimônio digital. Se isso não for feito, o resultado pode ser a perda patrimonial ou a impossibilidade de acesso.Para Gustavo Filippi, o erro mais comum é achar que patrimônio digital “se resolve sozinho”. Segundo o especialista, isso se reflete na falta de inventário e de registro das contas e na perda total de rastreabilidade. Outro erro frequente é guardar senhas de forma improvisada, em bloco de notas, mensagens ou papel sem qualquer proteção. Isso aumenta o risco de fraude, invasão ou simplesmente de ninguém encontrar a informação útil no momento certo.“Ou seja, a melhor prevenção é combinar mapeamento, segurança da informação, orientação jurídica e planejamento sucessório específico para o mundo digital”, conclui o especialista.The post Herança digital: como não perder o patrimônio de contas e aplicativos appeared first on InfoMoney.