A explosão das ações por assédio moral e sexual julgadas pela Justiça do Trabalho entre 2020 e 2025, com aumento de quase 45% no primeiro caso e de 126% no segundo, deixou de ser apenas um dado estatístico para se tornar um termômetro de como andam as relações de trabalho em todo o Brasil. Os números tabulados pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST) indicam, segundo especialistas ouvidos pelo InfoMoney, que o fenômeno vai além de um simples aumento de casos, revelando uma mudança estrutural no ambiente corporativo.De acordo com o TST, só em 2025, foram registrados 142 mil novos processos por assédio moral, alta de 22% em relação ao ano anterior. Já os casos de assédio sexual somaram 12 mil novas ações, com crescimento de 40% só no último ano.Fonte: TSTMais consciênciaPara os advogados, esses números precisam ser interpretados com cautela, porque o que cresce não é necessariamente o assédio em si, mas a visibilidade, a formalização e o enquadramento jurídico dessas condutas.Para Felipe Mazza, coordenador da área de Direito Trabalhista do Efcan Advogados, o aumento está diretamente ligado à mudança de comportamento dos trabalhadores. “Por muito tempo, essas situações foram negligenciadas, seja por receio, seja por serem tratadas como algo cultural. Hoje não há mais tolerância”, afirma.Na mesma linha, a advogada Barbara Moraes de Sousa da Silveira, sócia do escritório Chalfin Goldberg & Vainboim Advogados, avalia que o salto nos números reflete uma convergência de fatores, com destaque para a quebra do tabu sobre o tema. “O assédio deixou de ser invisível. O debate sobre saúde mental, a atuação do Ministério Público do Trabalho e os movimentos sociais fizeram com que os trabalhadores se sentissem mais encorajados a denunciar”, explica.Esse novo cenário também altera a forma como conflitos são levados à Justiça. Segundo Henrique Melo, sócio trabalhista do NHM Advogados, houve uma mudança relevante na estratégia jurídica. “Situações que antes eram tratadas como conflitos interpessoais passaram a ser enquadradas como assédio, ampliando o número de demandas”, diz.Leia Mais: Chamada de “véia” no trabalho, funcionária receberá indenização por assédio moralCanais de denúnciaDiante desse cenário, empresas passaram a investir mais em canais internos de denúncia. Mas, na prática, esses mecanismos ainda estão longe de serem uma solução definitiva. Para Mazza, os canais são essenciais para identificar e interromper condutas abusivas, além de acolher vítimas e aplicar punições.Barbara Moraes, entretanto, faz um alerta: a eficácia depende menos da existência do canal e mais da resposta da empresa. “O canal é só a porta de entrada. O que importa é a apuração séria, a proteção contra retaliação e a aplicação de medidas efetivas. Se a empresa ignora ou trata mal a denúncia, o trabalhador se sente legitimado a recorrer ao Judiciário, e isso pode agravar a condenação”, acrescenta a advogada.Redução de litígiosNa teoria, canais de denúncia bem estruturados podem reduzir a judicialização. Na prática, isso só acontece quando há uma política consistente de enfrentamento. “A resposta efetiva às denúncias permite resolver o problema dentro da empresa”, diz Henrique Melo.Mas, quando há falhas na investigação, o canal pode se transformar em uma etapa preparatória para o processo judicial, ajudando a estruturar provas e narrativas, de acordo com os especialistas. O avanço das ações nos tribunais revela justamente que há um descompasso entre a evolução da sociedade e a capacidade de adaptação das empresas.As empresas que enxergarem esse cenário como uma oportunidade de evolução, elevando o combate ao assédio ao patamar de governança corporativa, estarão não apenas reduzindo riscos jurídicos, mas construindo ambientes mais saudáveis, produtivos e sustentáveis a longo prazo, segundo Barbara. “Hoje o Brasil vive um momento de transição no compliance trabalhista. Muitas empresas já avançaram, mas outras ainda estão entre a adoção formal de políticas e a incorporação real dessas práticas na cultura organizacional”, afirma.Esse cenário é reforçado por mudanças regulatórias recentes, como a Lei 14.457/2022, que trouxe o tema do assédio para o centro das obrigações empresariais, exigindo treinamentos e canais de denúncia.CondenaçõesOutro ponto importante apontado pelos advogados é que o crescimento das ações não necessariamente implica aumento proporcional de condenações. Segundo Henrique Melo, há um número crescente de alegações que não se confirmam juridicamente, o que exige das empresas maior preparo na produção de provas e na condução de investigações internas.No final das contas, porém, o avanço dos processos por assédio funciona como um raio-x do ambiente de trabalho no Brasil. Mais do que falhas pontuais, os dados expõem um movimento de trabalhadores mais conscientes, com maior pressão institucional e empresas ainda tentando acompanhar esse novo padrão. “Controlar comportamentos individuais é praticamente impossível, mas criar uma cultura que desestimule abusos é o que realmente faz diferença e reduz riscos”, diz Mazza.The post Ações por assédio explodem na Justiça e expõem falhas no compliance das empresas appeared first on InfoMoney.