Análise: Por que o Irã leva vantagem no Estreito de Ormuz?

Wait 5 sec.

O Estreito de Ormuz está efetivamente fechado há quase quatro semanas – mergulhando os mercados globais de petróleo no caos – e não há uma perspectiva clara de fim para essa situação.As ameaças e os ataques do Irã contra embarcações no Golfo aumentaram o risco de trânsito a ponto de interromper quase todo o tráfego pela estreita via navegável, principal corredor para cerca de 20% do petróleo e gás natural do mundo, além de fertilizantes essenciais para o cultivo de produtos agrícolas dos quais o mundo depende.À medida que a crise energética se agrava, o presidente dos EUA, Donald Trump, tem promovido esforços diplomáticos para encerrar o bloqueio, ao mesmo tempo em que se mobiliza para enviar milhares de soldados adicionais ao Oriente Médio e estuda a possibilidade de escolta de petroleiros pela Marinha dos EUA. Leia mais EUA consideram enviar mais 10 mil soldados para o Oriente Médio, diz jornal Hotéis que hospedam militares dos EUA podem ser “alvos legítimos”, diz Irã Análise: Irã resiste às negociações da guerra que os EUA iniciaram Mas o Irã ainda leva vantagem em muitos aspectos – em parte devido aos seus métodos de guerra não convencionais, incluindo drones baratos e minas marítimas, e em parte devido à sua localização geográfica.Considerando esses dois fatores em conjunto, torna mais difícil para os Estados Unidos ou outros países defenderem embarcações ou garantirem a segurança militar do estreito.E é lucrativo para o Irã manter o controle. Autoridades iranianas afirmaram que continuarão cobrando taxas pela passagem segura de alguns petroleiros pelo estreito, após a Lloyd’s List Intelligence divulgar um relatório em 23 de março afirmando que pelo menos duas embarcações pagaram altas somas para atravessá-lo.Por que a geografia favorece o Irã?O Estreito de Ormuz tem cerca de 38 quilômetros de largura em seu ponto mais estreito, de acordo com a empresa de análise de navegação Vortexa. E quase todo o tráfego marítimo passa por duas rotas principais ainda mais estreitas.Estreito de Ormuz • CNN“Ele é descrito como um ponto de estrangulamento por um bom motivo. Supostamente, existem muitos pontos de estrangulamento ao redor do mundo. Mas pode-se argumentar que este é um ponto de estrangulamento particularmente desafiador, porque não há alternativas”, disse Nick Childs, pesquisador sênior de Forças Navais e Segurança Marítima do IISS (Instituto Internacional de Estudos Estratégicos).Parte do desafio para embarcações e quaisquer operações potenciais de escolta naval reside na extrema restrição de espaço para manobras.“Em mar aberto, sempre existe a opção de mudar de rota; em um ponto de estrangulamento ou mar estreito, essa opção é impossível”, afirmou Kevin Rowlands, editor da revista do think tank Royal United Services Institute.“Isso significa que o Irã não precisa necessariamente procurar e encontrar seus alvos. Ele pode simplesmente esperar”, acrescentou.Isso cria, efetivamente, uma “zona de abate”, explicou ele, na qual o tempo de alerta para um ataque pode ser de meros segundos.Sem mencionar que o Irã possui quase 1.600 quilômetros de litoral, de onde pode lançar mísseis antinavio. Essas baterias de mísseis são móveis, o que dificulta sua eliminação, e a extensa costa do Golfo significa que o Irã pode atacar muito além do próprio estreito.“No lado norte, iraniano, não se trata de uma planície. Há colinas, montanhas, vales, áreas urbanizadas e ilhas costeiras. Tudo isso dificulta a detecção de uma ameaça iminente e facilita o ocultamento de sistemas de armas móveis pelo Irã”, disse Rowlands, ex-chefe do Centro de Estudos Estratégicos da Marinha Real Britânica, à CNN por e-mail.Quais são as ameaças enfrentadas pelas embarcações no Estreito de Ormuz?Analistas afirmam que a capacidade do Irã de causar danos a navios comerciais por meio de seu arsenal ofensivo diminuiu desde o início da guerra.“No entanto, é praticamente impossível reduzir o risco a zero, e podemos esperar que os navios enfrentem um nível residual de ameaça por algum tempo, proveniente de alguns ou de todos esses sistemas”, disse Rowlands.De acordo com Rowlands, a complexidade das ameaças significa que qualquer operação de escolta de embarcações provavelmente precisará ir muito além de um comboio tradicional de navios de guerra navegando à frente e atrás de petroleiros.“É mais provável que uma missão naval utilize uma abordagem de defesa em camadas, com vigilância por satélites, aeronaves de patrulha e drones. Os navios podem seguir uma rota específica que tenha sido desminada”, disse ele.Os EUA conseguiram degradar muitas das capacidades navais convencionais do Irã, afirmou Childs. Mas a maior ameaça ainda vem do arsenal não convencional iraniano, como drones, pequenas embarcações de ataque rápido e até mesmo barcos não tripulados carregados de explosivos.“Se os iranianos decidirem minar o mar, é possível remover as minas da popa de um barco à vela aparentemente inofensivo”, disse Childs à CNN.“Embora os EUA provavelmente já tenham neutralizado os principais submarinos iranianos, ainda existem os ‘submarinos anões’ a serem considerados”, acrescentou, referindo-se a pequenos submarinos capazes de operar em águas rasas.Aliados dos EUA, incluindo o Reino Unido, a França e o Bahrein, também estão trabalhando para desenvolver planos viáveis ​​para proteger a navegação internacional na hidrovia.Qual a situação atual?O Irã atacou pelo menos 19 embarcações perto do Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico e no Golfo de Omã.Analistas observam que o Irã nem precisa destruir embarcações para atingir seu objetivo de interromper o comércio global de energia. Enquanto a ameaça permanecer suficientemente alta, é improvável que as empresas de transporte marítimo assumam o risco de retomar o trânsito. Algumas embarcações com ligações com o Irã, a China, a Índia e o Paquistão, no entanto, conseguiram atravessar o estreito.O Irã afirmou que “embarcações não hostis” podem transitar pelo estreito se coordenarem com as autoridades iranianas. O relatório da Lloyd’s List Intelligence afirmou que pelo menos 16 embarcações conseguiram atravessar, incluindo uma que teria pago uma taxa de US$ 2 milhões, além de vários petroleiros “zumbis” que usaram identidades falsas de embarcações desmanteladas.A CNN não conseguiu verificar o relatório de forma independente.Mesmo que todo o tráfego de petroleiros seja retomado eventualmente, levará tempo para eliminar o acúmulo de embarcações: quase 2 mil embarcações estão presas no Golfo Pérsico, de acordo com a Organização Marítima Internacional.O governo Trump tem alardeado o que considera progresso diplomático. O Irã, por sua vez, mantém a posição de que não está em negociações com os EUA, embora tenha reconhecido a troca de mensagens por meio de mediadores.As declarações de Trump sobre negociações ocorrem em um contexto de envio de milhares de fuzileiros navais e marinheiros americanos para o Oriente Médio.Dois oficiais americanos disseram à CNN no início desta semana que a 11ª Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais e o Grupo Anfíbio de Prontidão Boxer estão a caminho.Anteriormente, oficiais americanos também haviam informado à CNN que a MEU (Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais) do navio de assalto anfíbio USS Tripoli estava sendo enviada ao Oriente Médio, sem revelar exatamente onde seria implantada ou em que operações seria utilizada.Essas MEUs são normalmente utilizadas em missões de resgate e operações anfíbias que exigem deslocamentos de navio para terra, como incursões e assaltos.Isso aumentou as especulações sobre possíveis operações com tropas terrestres, embora o governo Trump tenha afirmado até o momento que descartou operações terrestres no Irã.Analistas militares disseram que os EUA podem estar contando com o fato de que a simples presença do USS Tripoli e de outros navios de guerra na região, representando uma ameaça, pode ser suficiente para alterar os cálculos do Irã.O navio de assalto dos EUA USS Tripoli • DEPARTMENT OF DEFENSE / REUTERSTrump também ameaça atacar mais alvos relacionados ao comércio de petróleo iraniano caso o país continue bloqueando o Estreito de Ormuz. Na última sexta-feira (20), as forças armadas americanas atingiram instalações militares na Ilha de Kharg, responsável por cerca de 90% das exportações de petróleo bruto do país.Ilha de Kharg, no Irã • Cortesia Planet Labs PBCLocais relacionados ao comércio de petróleo na ilha controlada pelo governo não foram atingidos, mas Trump alertou que podem ser os próximos alvos, o que representaria uma nova escalada.Trump estende suspensão de ataques a instalações do Irã por mais 10 dias | HORA HO que está acontecendo no Oriente Médio?Os Estados Unidos e Israel estão em guerra com o Irã. O conflito teve início no dia 28 de fevereiro, quando um ataque coordenado entre os dois países matou o líder supremo do país, Ali Khamenei, em Teerã.Diversas autoridades do alto escalão do regime iraniano também foram mortas. Além disso, os EUA alegam ter destruído dezenas de navios do país, assim como sistemas de defesa aérea, aviões e outros alvos militares.Em retaliação, o regime dos aiatolás fez ataques contra diversos países da região, como Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Catar, Bahrein, Kuwait, Jordânia, Iraque e Omã. As autoridades iranianas dizem que têm como alvo apenas interesses dos Estados Unidos e Israel nessas nações.Mais de 1.750 civis morreram no Irã desde o início da guerra, segundo a Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos, que tem sede nos EUA. A Casa Branca, por sua vez, registrou ao menos 13 mortes de soldados americanos em relação direta aos ataques iranianos.O conflito também se expandiu para o Líbano. O Hezbollah, um grupo armado apoiado pelo Irã, atacou o território israelense em retaliação à morte de Ali Khamenei. Com isso, Israel tem realizado ofensivas aéreas contra o que diz ser alvo do Hezbollah no país vizinho. Centenas de pessoas morreram no território libanês desde então.Com a morte de grande parte de sua liderança, um conselho do Irã elegeu um novo líder supremo: Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei. Especialistas apontam que ele não fará mudanças estruturais e representa continuidade da repressão.Donald Trump mostrou descontentamento com essa escolha, a classificando como um “grande erro”. Ele havia dito que precisaria estar envolvido no processo e pontuou que Mojtaba seria “inaceitável” para a liderança do Irã.(Com informações de Brad Lendon, Hanna Ziady, Helen Regan, Haley Britzky e Zachary Cohen, da CNN)Por que o Estreito de Ormuz é tão importante para a economia do mundo?