As comercializadoras independentes de energia avaliam acionar o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) contra grandes geradoras, em meio à deterioração das condições de liquidez no mercado livre de energia, apurou a CNN com fontes do setor.O movimento ocorre em um contexto de crescente tensão no ACL (Ambiente de Contratação Livre), no qual agentes relatam concentração de poder de mercado nas mãos de poucos grandes geradores e restrições cada vez maiores ao crédito e à negociação de contratos.O problema de liquidez já é conhecido no segmento, mas o relato que se escuta nos bastidores é que o poder de mercado está concentrado nas mãos de quatro grandes geradoras de energia e isso estaria “reduzindo a liquidez”, disse uma fonte com conhecimento das discussões.De acordo com esse interlocutor, o modelo de despacho “colapsou” e não há mais como prever preços.Segundo relatos de executivos sob condição de anonimato, grandes participantes passaram a restringir operações com comercializadoras independentes, reduzindo limites de crédito e alterando as condições de negociação.As operações não foram interrompidas, mas passaram a exigir aportes de garantias em negociações bilaterais, uma mudança que, na avaliação das comercializadoras, inviabiliza a atuação de parte relevante desses agentes no mercado. Sem acesso a crédito e sem capacidade de aportar garantias, essas empresas acabam reduzindo suas operações, o que contribui para a queda da liquidez.Uma das linhas de argumentação que pode embasar uma eventual representação no Cade envolve a concentração de oferta nas mãos de poucas empresas geradoras e a redução voluntária da liquidez no mercado.Segundo outra fonte do setor, empresas com grande participação na geração têm diminuído a oferta de contratos de longo prazo, o que dificulta a atuação de comercializadoras que precisam se reposicionar ao longo do tempo.O tema já foi levado a diferentes instâncias do setor, incluindo reuniões com o Ministério de Minas e Energia, o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica e a CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica). Ainda assim, agentes avaliam que não houve avanço suficiente para endereçar o problema.Falta de liquidezA deterioração do ambiente de crédito ocorre após episódios recentes de inadimplência contratual envolvendo comercializadoras, que aumentaram a aversão ao risco por parte de bancos e grandes empresas do setor. O efeito, segundo participantes do mercado, foi uma retração generalizada das linhas de crédito e maior seletividade nas contrapartes.Episódios recentes envolvendo comercializadoras, como os casos de recuperação judicial de empresas como 2W Ecobank e Gold Energia, além de reestruturações em outras tradings independentes, contribuíram para aumentar a aversão ao risco no mercado e levaram grandes agentes a rever limites de crédito e condições de negociação.Além das questões financeiras, há também fatores estruturais pressionando o funcionamento do mercado. Entre eles estão os cortes de geração de fontes renováveis (conhecido como ”curtailment”, no jargão do setor), o risco hidrológico e os impactos da expansão da micro e minigeração distribuída, que alteram a dinâmica de oferta e demanda de energia.No caso do curtailment, geradores que têm sua produção reduzida por determinação do ONS Operador Nacional do Sistema Elétrico) e precisam comprar energia no mercado para honrar contratos previamente firmados, o que aumenta mais a pressão sobre a demanda. E quando os agentes geradores restringem essa oferta, a pressão de liquidez aumenta.