Em fevereiro do ano passado, Andrej Karpathy, que passou por Tesla, OpenAI e Google, chamou de “vibe coding” uma forma de programar com IA sem ler o código gerado: aceitar tudo, colar erros no chat até sumir, guiado pela intuição e pelo resultado imediato.Nas palavras dele: “It's not really coding — I just see stuff, say stuff, run stuff, and copy-paste stuff, and it mostly works”.Não era manifesto, nem provocação, era um cara contando como usava IA para codar nos fins de semana. O mercado transformou aquilo em competência executiva. Hoje, CEOs e C-levels do mundo inteiro colocam “vibe coding” no LinkedIn e isso diz muito menos sobre democratização tecnológica do que parece.Quando um executivo celebra que “agora qualquer um pode construir software sem saber programar”, o que está sendo dito nas entrelinhas é que compreender o processo deixou de ser valor e virou obstáculo. O C-level que vibra com a IA sem entender o que está por baixo é o consumidor ideal: entusiasmado, dependente e sem repertório para questionar os termos da relação. Não é democratização. É qualificação de cliente.Foto: Lucian Fialho/arquivo pessoalA placa de tokens que a OpenAI presenteia a parceiros e grandes gastadores diz uma coisa sem querer: o que está sendo celebrado é consumo, não resultado. Em qualquer ambiente técnico saudável, o prêmio seria para quem faz mais com menos. Aqui, é para quem mais gasta. Não é brinde, é inversão de valores.A concentração da IA em quatro ou cinco empresas não é falha de mercado, é o resultado esperado de quem controlou capital, infraestrutura e talento por duas décadas. O vibe coding, na versão executiva, é o mecanismo de adesão voluntária a essa estrutura. Colonização nunca precisou de exércitos quando havia dependência econômica suficiente. A diferença agora é que a gente aplaude na keynote, posta no LinkedIn e assina os termos de uso com entusiasmo (ou nem tanto)…