Enquanto o Oriente Médio ferve e os mercados globais oscilam ao sabor de cada declaração de Donald Trump, os grandes alocadores internacionais estão de olho num destino improvável para o momento: o Brasil. A conclusão não vem de um relatório de banco — vem das reuniões. Lucas Collazo visitou recentemente cerca de 20 gestoras em Nova York, de hedge funds a private equity, de venture capital a real estate, e ouviu repetidamente o mesmo diagnóstico.“O Brasil está sendo chamado de Latam proxy lá fora”, relatou Collazo. “A turma não olha mais para a Europa, China virou não investível, Índia é muito longe e cara. Quando falam de emergentes, é América Latina.” Leonardo Linhares, head de Ações da SPX Capital, confirmou o movimento pelos números: mesmo com o conflito no Oriente Médio escalando, o fluxo de capital para o Brasil não arrefeceu. “O dinheiro continua entrando. O Brasil tem sido talvez o maior atrator de capital nesse movimento todo.”Veja mais: Fluxo estrangeiro volta à bolsa e Brasil se destaca por fraqueza dos rivaisE também: “Juros insustentáveis vão explodir o país”, alerta CEO da BR PartnersFoi esse cenário que pautou o debate no Aftermarket, do Stock Pickers, com apresentação de Lucas Collazo, reunindo Linhares, Andrew Reider, sócio e gestor do WHG Long Biased, e Christian Keleti, CEO da Alpha Key, para discutir onde estão as oportunidades — e as armadilhas — num mundo em compasso de espera.O argumento a favor do Brasil tem lógica estrutural. O país é exportador relevante de petróleo, não importador como boa parte da Europa e da Ásia. Isso significa que o impacto da guerra chega aqui filtrado principalmente pela discussão de política monetária e inflação — não pelo choque direto de abastecimento que castiga outros mercados. “Esse charme que a gente tinha no início do movimento não perdeu”, afirmou Linhares. Com eleições presidenciais à vista na Colômbia, Peru e Brasil, os gestores enxergam ainda possíveis catalisadores políticos nos próximos meses.Larry Fink vê risco de IA ampliar distância entre ricos e o restante da populaçãoMinistros das Relações Exteriores do Irã e de Omã discutem Estreito de OrmuzO fantasma do subprime — agora no private creditCom a guerra consumindo o noticiário, um segundo risco segue em segundo plano — mas os gestores não o ignoram. O private credit global acumulou apostas trilionárias em dívidas de empresas de tecnologia privadas. O problema é que a inteligência artificial está destruindo, em meses, modelos de negócio que levaram anos para ser construídos — e os valuations que embasaram essas apostas podem estar gravemente desatualizados.A equipe de tecnologia da WHG voltou da conferência do Morgan Stanley em San Francisco com dados que ilustram a velocidade da disrupção. “A Lyft investiu um milhão de dólares para desenvolver software interno e já está economizando 3 milhões de dólares por mês”, relatou Reider. Menos custo para a Lyft significa menos receita para seus fornecedores de software e serviços de TI — exatamente o tipo de empresa que o private credit financiou a valuations bilionários.O sinal de alerta veio de Jamie Dimon, CEO do JPMorgan, que comparou o momento atual do private credit ao que se via em 2005, 2006 e 2007 — véspera do colapso do subprime. “Começa a deixar a turma nervosa”, admitiu Collazo. Reider reconhece o risco, mas pondera que o mercado já mira o médio prazo. A temporada de resultados que se aproxima pode trazer surpresas positivas, com empresas apresentando margens expandidas pela IA num ciclo de eficiência que, na avaliação do gestor, está apenas começando. “Toda empresa tinha que falar de IA no call de resultado para a ação subir. Agora vai ter que mostrar corte de custo e eficiência de verdade.”Leia tambémNa crise, proteger a carteira ficou caro demais — e gestores preferiram andar leveMetade da bolsa brasileira está nas mãos de investidores estrangeirosTrader lucra R$ 5,2 mi com apostas em operações militares no Irã e levanta suspeitasDesempenho de 93% na plataforma Polymarket sugere acesso a informações privilegiadas sobre ofensivas militares de Israel e EUANo fundo, o mercado que os três gestores descrevem é um pêndulo — entre guerra e negociação, entre destruição de valor e ganho de produtividade, entre pânico e alívio. “Quando você está muito focado num tema, é hora de dar um passo para trás e tentar ser mais objetivo”, disse Reider. “O pêndulo vai voltar para o outro lado.” O desafio, como sempre, é estar posicionado quando isso acontecer.The post “Latam proxy”: por que o Brasil virou porta de entrada dos gringos em emergentes appeared first on InfoMoney.