Indústria brasileira quer converter inovação em vantagem global

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Representantes da indústria, do governo e de instituições de fomento se reuniram em São Paulo, nesta quarta-feira (25), no Congresso de Inovação da Indústria, realizado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em parceria com o Sebrae. O evento marca o ponto de convergência de uma agenda construída ao longo de meses e tem o objetivo de discutir como transformar inovação em uma vantagem competitiva concreta para o Brasil em um cenário global redesenhado pela transição energética, pela digitalização e pela reorganização das cadeias produtivas.A jornada percorreu mais de 50 cidades, ouvindo empresários e mapeando gargalos estruturais, da dificuldade de acesso a crédito à baixa integração entre pesquisa e produção. A avaliação compartilhada entre lideranças públicas e privadas é de que o país reúne ativos relevantes, mas ainda opera aquém do seu potencial por falta de coordenação e escala.Para Décio Lima, presidente do Sebrae, essa articulação passa, necessariamente, pela base empresarial brasileira. “Não haverá soberania sem a pujança do modelo industrial e sem agregar valor à nossa riqueza. O Brasil tem ativos únicos, como seis biomas e mais de 70% de energia limpa. Precisamos transformar isso em estratégia de desenvolvimento, com inovação e sustentabilidade como eixo”, afirmou.À frente de uma instituição que atendeu cerca de 25 milhões de empresas no último ano, Décio Lima destacou o papel dos pequenos negócios na nova agenda industrial.Quando o empreendedorismo se conecta à indústria, à tecnologia e ao crédito, ele deixa de ser sobrevivência e passa a ser vetor de crescimento, Décio Lima, presidente do SebraePolíticas públicas e investimentosNo governo, a leitura é de que o Estado precisa atuar como indutor direto desse movimento. A ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, destacou que o país voltou a crescer acima de 3% ao ano, ao mesmo tempo em que reduziu o desmatamento e retirou milhões de pessoas da pobreza. Para ela, a combinação entre crescimento, inclusão e sustentabilidade cria um ambiente mais favorável à inovação.A ministra Esther Dweck destacou o crescimento da economia (foto: Nino Cirenza)A reforma tributária, que entrou em vigor neste ano, aparece como um dos pilares dessa agenda. A ministra citou cálculo da Fundação Getúlio Vargas, apontando que as novas regras podem elevar o PIB em até dois dígitos ao longo da próxima década, ao simplificar o ambiente de negócios e reduzir distorções históricas.Do lado da indústria, a pressão é por transformar esse ambiente em decisões concretas. O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, afirmou que o país não pode perder a oportunidade diante das transformações tecnológicas em curso, que vão da nanotecnologia à computação quântica. Para ele, o desafio está em encurtar a distância entre o debate e a implementação dentro das empresas.Os números indicam que a agenda já ganhou tração. Segundo José Luiz Gordon, diretor do BNDES, o banco encerrou 2025 com R$ 300 bilhões destinados à atividade industrial e prevê adicionar mais R$ 70 bilhões neste ano. Desde 2023, foram mais de R$ 84 bilhões voltados à transformação digital, além de investimentos em infraestrutura e bioeconomia.Pesquisa e desenvolvimentoNo campo da inovação, os aportes em pesquisa e desenvolvimento, em parceria com a Finep, se aproximam de R$ 70 bilhões. A aposta é que a combinação entre financiamento e política industrial ajude a reduzir o descompasso entre geração de conhecimento e aplicação produtiva.Essa lacuna aparece como um dos principais entraves. Para André Clark, líder da Mobilização Empresarial pela Inovação (MEI), o país ainda precisa avançar na articulação entre empresas, universidades e governo. Em um ambiente global sem modelos prontos, a capacidade de coordenação passa a ser determinante para o posicionamento dos países.A tentativa de aproximar ciência e indústria também está no centro da atuação da Embrapii. A instituição apoia atualmente mais de 1.400 projetos de inovação, muitos voltados ao aumento de eficiência e à redução de custos em processos produtivos. Segundo o presidente da organização, Álvaro Prata, o desafio é fazer com que o conhecimento gerado nos centros de pesquisa se converta em ganhos concretos para a indústria.A cientista Tatiana Sampaio falou sobre as pesquisas com polilaminina — molécula associada a avanços na regeneração da medula espinhal (foto: Nino Cirenza)Ciência e indústriaA programação do congresso reflete essa agenda, com debates técnicos, apresentação de soluções e a participação de especialistas nacionais e internacionais. Entre eles, a cientista Tatiana Sampaio, cuja atuação em pesquisas com polilaminina — molécula associada a avanços na regeneração da medula espinhal — ajudou a projetar o Brasil como referência nesse campo. No congresso, a proposta é mostrar como a ciência pode transbordar do laboratório para a indústria, gerando impacto concreto na vida das pessoas.A abertura do evento, que aconteceu na manhã de hoje, em São Paulo, trouxe uma síntese simbólica desse momento. À frente da Bachiana Filarmônica SESI-SP, o maestro João Carlos Martins dividiu a regência com um robô comandado por inteligência artificial em uma execução de Mozart que combinou precisão tecnológica e interpretação humana. Ao comentar a experiência, Martins ressaltou que a técnica pode ser impecável, mas ainda não substitui os elementos essenciais para a música: alma e coração.