A nostalgia do pregão do mercado financeiro foi tema da palestra “A experiência de quem tem mais de 30 anos de trade”, com o apresentador Pablo Spyer e o gestor da Armor Alfredo Menezes, uma das maiores lendas do mercado de juros e câmbio, neste sábado (28) na Expert Trader XP.O debate misturou o folclore do antigo pregão viva-voz com as novas tecnologias da gestão profissional moderna. Entre as histórias, risadas e termos técnicos, Menezes trouxe uma visão valiosa sobre o futuro do mercado, assim como dicas importantes de como navegar os mares da volatilidade atual.Leia também: Gigante do surf compartilha lições para traders sobreviverem no longo prazoAs histórias de Alfredo Menezes voltam a um tempo em que o mercado financeiro era movido pela lei da sobrevivência do mais forte. Pablo Spyer relembrou os tempos em que era diretor operacional na Mirae Asset e atendia ordens astronômicas de Alfredo. Em um desses episódios, Alfredo deixou ordens que somavam 20 vezes o caixa da corretora e saiu para almoçar. O mercado virou, as ordens executaram e a mesa entrou em pânico. Ao atender o telefone uma hora depois, Alfredo manteve a calma: “Não tem problema. Pode ligar lá no back office do Garantia, que está tudo certo. Eu queria comprar mesmo naquele preço, aquele preço estava bom”, disse.O próprio Alfredo relembrou manobras de “secagem” de liquidez em leilões do Tesouro Nacional. “Eu peguei o leilão inteiro, que era prefixado. Entrei dois ou três pontos abaixo de onde deveria para ninguém pegar além de mim. Deixei o mercado short (vendido). Aí a taxa despencou, aproveitei e saí batendo no DI. O pessoal que tinha tomado para pegar o leilão não teve jeito: tiveram que estopar”, relembrou Menezes. Leia também: Como as assessorias estão impulsionando os traders; “tinham vida curta; agora não”Segundo ele, a agressividade era tamanha que o próprio Tesouro ficava atônito: “Tomei o ‘ralo’ do Tesouro porque mandei dizer que a demanda era zero e bati tudo sozinho”.Além disso, para sobreviver a 41 anos de mercado, Menezes explica que desenvolveu uma disciplina férrea na Armor Capital. Ele enfatizou que o segredo não é apenas ganhar, mas saber perder sem se “aleijar”. A regra na gestora é matemática: se um gestor devolve 20% do lucro acumulado, a posição é encerrada compulsoriamente.Ele ainda ressalta que o emocional não aceita erros, e que aplica a punição do “gancho” até em si mesmo: “Eu mesmo já tomei stop e fiquei uma semana de gancho, estudando, para respeitar o emocional. Operar com o emocional ruim é a pior coisa que o indivíduo pode fazer”. Leia também: “Não se vende Bitcoin”: analistas falam em oportunidade, mas alertam para timingPetróleo e câmbioNo campo das análises para 2026, Alfredo manteve uma visão técnica e pragmática. Ele acredita que a alta do petróleo, embora pressione a inflação global, acaba sendo um “colchão” para o Brasil. Alfredo apresentou sua análise macroeconômica. Para ele, o cenário geopolítico favorece o Brasil no curto prazo. “Quanto mais tempo o petróleo ficar alto, melhora muito as nossas contas externas e melhora o lado fiscal. E além disso, a gente tem o maior carregamento, o maior juros para carregar moeda vendida. Então, acredito que o Real continua se fortalecendo”, explicou.Na sua perspectiva, ele vê o Real com a moeda mais forte contra alguns outros câmbios, especialmente Europa, que depende muito da importação de gás e combustível. Spyer complementou a ideia, falando sobre um estudo que saiu do Goldman Sachs, falando que se a guerra durar até julho, pode ir a US$ 200 e isso seria uma mudança de paradigma. Para Menezes, a proteção para isso seria investir nas empresas atreladas ao próprio petróleo, como a Petrobras (PETR4) e Prio (PRIO3), já que ele tem gosto por volatilidade.Leia também: Traders elevam liquidez e ampliam interesse pela Bolsa, diz Benchimol, da XPJurosAlfredo também projetou o comportamento dos Bancos Centrais diante da inflação persistente. Ele alertou que o mercado deve sofrer um baque na atividade econômica antes de ver os juros caírem.Sobre a política monetária, Menezes previu que o aperto de juros atual é um remédio de curto prazo que trará uma desaceleração mundial. “Quando você tem o choque do petróleo, qualquer autoridade monetária tem que combater o choque inflacionário. Não dá para combater o petróleo, pois não vai resolver. A demanda do petróleo é bem inelástica”, disse. Ele ainda explica que ao ver a bolsa dos EUA caindo 10-12%, é um choque da atividade muito grande. Por conta disso, ele acredita que haverá um aumento de juros no primeiro momento, para combater a inflação. Posteriormente é possível que haja uma queda relativamente significativa, porque o crescimento mundial vai cair, segundo Menezes.“Os Estados Unidos é a locomotiva do mundo. O preço do combustível é muito importante para diminuir a renda líquida do americano. É uma passagem importante da renda dele. Então, a minha visão é que o juros ao longo prazo cai e no curto por parte da inflação”, disse.Leia também: “Trade mais difícil é o certo”, diz Tom Hougaard, autor de O Melhor Perdedor VenceEleições Ao tratar da política doméstica na Expert Trader XP, Menezes demonstrou ceticismo quanto à capacidade de ajuste fiscal voluntário.“As pesquisas refletem insatisfação, seja o Bolsonaro ou o PT. Mas nós temos que olhar que o Lula deve estar nos piores momentos dele”, disse. Ele complementou explicando que se o Lula ganhar, será “mais do mesmo”. Leia também: Medo, hesitação e perdas: como traders podem driblar desafios e potencializar ganhos“O Lula só vai fazer o ajuste fiscal se ele for forçado, ou seja, os preços deteriorariam a tal ponto que ele seja obrigado a fazer”, explicou. “Já o Flávio, eu acho que ele vai ter o setor todo do lado dele, vai ser mais fácil fazer o ajuste, mas também não é para estimar”. The post Lenda do mercado, Alfredo Menezes aposta em real mais forte diante de cenário global appeared first on InfoMoney.