Trabalhar muito dá muito trabalho (e às vezes não serve para nada)

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E depois há a inteligência artificial. A questão não é se a IA vai mudar a forma como trabalhamos. Isso já está a acontecer. A questão é se vamos continuar a fingir que não é connosco?Vários estudos recentes dizem que, a IA não vem substituir empregos em massa, mas sim tarefas, sobretudo aquelas repetitivas, mecânicas, que ocupam horas e acrescentam pouco valor.  Ou seja, tudo aquilo que muita gente ainda insiste em fazer “como sempre se fez”.Há aqui um elefante na sala. Ou melhor, há vários. Um deles chama-se resistência à mudança. Outro chama-se conforto. E há ainda um terceiro e mais perigoso, a ilusão de produtividade. Porque estar ocupado não é o mesmo que ser produtivo.Há profissionais que passam dias inteiros a responder a emails que podiam ser automatizados, a consolidar relatórios que uma ferramenta de IA faria em segundos, ou a participar em reuniões que, com sorte, poderiam ser um parágrafo bem escrito. E no fim do dia dizem: “Não tive tempo para o que era importante.”Claro que não tiveram. Estiveram ocupados a trabalhar para o processo, em vez de trabalhar para o resultado. A ironia deliciosa é que  nunca tivemos tantas ferramentas para libertar tempo e nunca estivemos tão presos a tarefas que não interessam.A inteligência artificial vem precisamente fazer isso, eliminar o ruído. Automatizar o trivial. Tirar as pessoas do modo “operacional crónico” e empurrá-las, com algum desconforto, é certo, para aquilo que realmente faz diferença.Pensar. Decidir. Criar. Questionar. E isso, é o que assusta.Porque quando a IA trata do trabalho repetitivo, sobra o trabalho difícil. Aquele que não dá para esconder atrás de um PowerPoint com gráficos coloridos. Aquele que exige critério, responsabilidade e, às vezes, até opinião. É aqui que o “novo normal” começa a incomodar.Mas há mais. Organizações que adotam IA de forma consistente já reportam aumentos significativos de produtividade, em alguns casos até 40% e ganhos claros de eficiência. Mais interessante ainda é que muitos profissionais dizem que a IA lhes liberta tempo para tarefas de maior valor acrescentado. Ou seja, não só trabalham melhor como, potencialmente, trabalham com mais sentido.E no entanto, em Portugal, uma parte significativa das empresas continua sem integrar a IA nas suas práticas, muitas vezes por falta de estratégia ou simplesmente por inércia. Inércia é uma palavra simpática para dizer: estamos à espera que alguém nos obrigue. Talvez seja isso que vai acontecer. Não por decreto, mas por pressão competitiva. Porque as empresas que adotarem IA vão fazer mais, mais depressa e melhor. E as outras vão continuar… ocupadas.A verdade desconfortável é que a IA não vai obrigar ninguém a mudar. Mas vai tornar muito evidente quem decidiu não o fazer. E isso tem consequências.Não se trata de substituir pessoas. Trata-se de redefinir o que esperamos delas. Menos execução cega. Mais pensamento crítico. Menos tarefas de baixo impacto. Mais decisões que movem o ponteiro.No fundo, trata-se de devolver o trabalho às pessoas, mas numa versão mais exigente. A pergunta final é simples, mas incómoda:Queremos continuar a parecer ocupados ou começar, finalmente, a ser relevantes?O conteúdo Trabalhar muito dá muito trabalho (e às vezes não serve para nada) aparece primeiro em Revista Líder.