Eram quase duas da manhã, oficialmente já domingo (29), quando o vocalista e guitarrista Gabriel Franco anunciou a última música do intenso show de estreia do Unto Others no Brasil. Com óculos escuros durante a apresentação de 23 canções em pouco menos de uma hora e meia, ele revelou que “Blade and the Will”, primeira composição da banda americana Portland, encerraria a noitada madrugada adentro da Burning House, na zona oeste de São Paulo.O horário assustou um pouco. Não tem sido mais um hábito paulistano shows de metal terminando depois do funcionamento normal do transporte público na cidade, por volta de meia-noite. As portas da casa de eventos foram abertas apenas às 23h e, no olhômetro, metade da pista do diminuto espaço parecia ocupada.No caso do Unto Others, porém, o horário pareceu apropriado. O grupo trouxe um público bem dividido entre gêneros e que aproveitou o ambiente mais espaçado para dançar ou chacoalhar a cabeça, mas cantava sempre junto a cativante mistura de heavy metal, punk e música gótica.Plastique Noir traz inferninho gótico cearense para aquecer a madrugadaO aquecimento da noite ficou a cargo do Plastique Noir. A banda cearense, com trinta anos de experiência nas costas, fez um set enxuto, mas sua música dançante em clima de inferninho caiu bem para despertar o público não mais afeito ao horário.Foto de celular: Thiago ZumaO carismático vocalista Airton S., controlou a bateria eletrônica e os samplers enquanto corria o palco e foi correspondido ao incentivar a participação das pessoas. O trio foi completado pelas imponentes linhas de baixo de Deyvison T. e a pedaleira cheia de efeitos do criativo Danyel A. O guitarrista, menos de duas horas antes, mostrou sua identidade agressiva nos riffs vigoroso do power trio de grindcore Facada, num encontro barulhento para dividir o cenário do Sesc Belenzinho, no outro lado da cidade, com os paulistanos do D.E.R.Em pouco menos de quarenta minutos, o Plastique Noir tocou uma música nova, “Vertigem”, do próximo álbum “Orla Brutal”, primeiro apenas com letras em português e prometido para este ano. A maior parte do repertório esteve focada em faixas do disco “Iskuros” (2021), com destaque para a recepção empolgada do público para “Catedrais em Chamas”, que encerrou o set, e “Kafé”. Afinal, como não cantar junto o verso “Quero cafeína, não quero cloroquina” num show de abertura já depois da meia noite?Repertório – Plastique Noir:Asleep in the NightrainFugitive DawnImaginary WalksVertigemKaféAll Cats Shall CelebrateRose of Flesh and BloodCatedrais em ChamasEntre metal, punk e gótico no som e na presença de palcoApesar da curta trajetória, prestes a completar uma década no próximo ano, o Unto Others já passou por turbulências que enterram uma banda novata. Fundado em 2017 como Idle Hands, o quarteto foi obrigado a trocar de nome no meio da pandemia. À época, eles ganhavam relevância pela repercussão do álbum de estreia, “Mana” (2019) e dois cultuados EPs, “Don’t Waste Your Time” (2018) e a respectiva parte 2, de 2020.Quase metade das canções próprias executadas em seu debut brasileiro veio desses trabalhos. “A Single Solemn Rose”, do primeiro disco, falhou em coordenar as tradicionais palmas à sua batida inicial quando os músicos subiram ao palco um minuto antes do horário previsto. “Jackie” e “Nightfall” (vídeo abaixo), ainda nessa leva inicial, já colocaram o público na mão do animado quarteto de Portland.Unto Others – “Nightfall”Apesar de todos vestirem roupas pretas, apenas Franco portava os óculos escuros. Brandon Hill tinha o volume de seu baixo proeminente na equalização da casa e postura séria de um típico headbanger, além dos vocais de suporte mais agressivos. Sebastian Silva, por outro lado, encarnava um guitarrista de hair metal com sua leve maquiagem no rosto, capa preta de estilo “vampiro de verão” e todas as poses para seus solos. Era uma presença que percorria o acanhado espaço da Burning House e não se furtava a se juntar ao público.Um contraste necessário à vultosa presença central de Franco, de pouca mobilidade e comunicação eficiente, sem exageros, e voz imponente. Seu tom de barítono emula algo entre Peter Steele, Dave Gahan e Glenn Danzig.Repertório compreensivo de toda a carreiraA turnê latino-americana, encerrada no Brasil após visitas a México, Peru, Chile e Argentina, promoveu “Never, Neverland”, disco lançado em setembro de 2024. “Butterfly” foi a segunda da noite e tirou o público de certo marasmo do introspectivo número de abertura. Com apenas quatro de suas dezesseis faixas presentes no repertório, foi o álbum menos representado nessa estreia em terras brasileiras.“Strength”, o primeiro trabalho já lançado sob a alcunha de Unto Others, em 2021, preencheu boa parte do set, com as animadas “Why” e “Downtown” incluídas na arrancada inicial da noite, além da cadenciada “The Fire of Youth”, extraída do EP de continuação do disco, “Strength II: The Deep Cuts”, lançado no ano seguinte.Deste segundo álbum, a trinca formada pela frenética “Heroin”, a urrada “When Will God’s Work Be Done?” e “Summer Lightning”, repleta de vocais de apoio agressivos, deu tons mais pesados ao show. O destaque ficou para a força das batidas de Colin Vranizan, acelerando o ritmo e também ajudando nos gritos de suporte.Ainda que desnecessários pela reação animada às composições próprias do Unto Others, dois covers presentes no EP “I Believe in Halloween II”, lançado no ano passado, temperaram o show com mais diversão. A fiel versão para “Halloween”, dos Misfits, veio como surpresa no meio do set e deu a atmosfera da sequência com um trio de faixas do álbum mais recente. “Suicide Today”, “Momma Likes the Door Closed” e “Raigeki” mantiveram o público aceso, cantando os refrãos com a banda.Unto Others – “Halloween” (cover de Misfits)Já a execução ao vivo de “Pet Sematary”, dos Ramones, pode ter perdido um pouco da ambiência gótica adicionada ao registro em estúdio. A energia, porém, esteve intacta, assim como os solos adicionados pelo empolgado Silva.Os músicos deixaram o palco com as duas faixas mais conhecidas de “Mana”: a veloz e agressiva “Give me to the Night” e a melancólica “Dragon, Why Do You Cry“. Sua contagem regressiva final foi feita em português como uma chamada para gritos finais dos fãs na Burning House.Final agridoce em estreia que mira o futuroA pausa para o bis não chegou a dois minutos e mal deu tempo de o público organizar seus gritos iniciais desajeitados de “olê olê olê”. O retorno, porém, não teve o mesmo impacto da sequência anterior.Foto de celular: Thiago ZumaA introspectiva “Over Western Shores”, das “obscuras” de “Strength II”, não empolgou. Mais tensa, “I Feel Nothing” teve seu refrão recebida de forma quase catártica ao preceder a já referida e animada “Blade and the Will”, encerrando a noite com a dupla do EP inicial do grupo, de 2018.Antes de executar “It Doesn’t Really Matter”, faixa da segunda parte do EP “Don’t Waste Your Time” lançado em 2020 ainda sob o nome de Idle Hands, Franco disse então que jamais imaginava tocar suas músicas na América do Sul. Habituada a ver artistas chegarem a essas terras já consolidados ou na decadência da carreira, a parcela de público que encarou a madrugada na Burning House teve a rara chance de ver uma estreia no país de uma banda ainda jovem e faminta. Pela resposta empolgada do público ao enérgico show do Unto Others, não há motivos para o quarteto transformar o Brasil em parada obrigatória de suas próximas turnês.Unto Others — ao vivo em São PauloLocal: Burning HouseData: 28 de março de 2026Produção: Kool Metal FestTurnê: Never, Neverland Latin America 2026Repertório:A Single Solemn RoseButterflyJackieWhyNightfallDowntownThe Fire of YouthHeroinWhen Will God’s Work Be DoneSummer LightningCan You Hear the RainIt Doesn’t Really MatterHalloween (cover do Misfits)Suicide TodayMomma Likes the Door ClosedRaigekiDouble NegativePet Sematary (cover dos Ramones)Give Me to the NightDragon, Why Do You Cry?Bis:Over Western ShoresI Feel NothingBlade and the WillQuer receber novidades sobre música direto em seu WhatsApp? 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