Artemis II: entenda a rede tecnológica de empresas por trás da volta à Lua

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Durante a Guerra Fria, o espaço era território exclusivo dos governos. O vencedor da corrida espacial detinha a primazia da tecnologia no planeta, o que trazia ganhos simbólicos e estratégicos. Com o colapso da União Soviética, esse modelo começou a se transformar.Às vésperas do lançamento da missão Artemis II, que levará seres humanos à órbita lunar após uma ausência de 53 anos, a exploração do satélite se tornou um empreendimento que, segundo a Nasa, envolve a participação de mais de 2,7 mil fornecedores — de gigantes aeroespaciais a pequenas empresas especializadas. Leia mais Artemis II: entenda como funciona a comunicação entre Terra e astronautas Drones espiões: entenda a tecnologia de monitoramento aéreo de territórios Existe forma certa de “conversar” com a IA para obter respostas melhores? No centro desse ecossistema produtivo, está a espaçonave Orion, construída pela Lockheed Martin, que atua como contratante principal. Já o foguete Space Launch System foi uma construção conjunta: o estágio central é da Boeing; os propulsores sólidos, da Northrop Grumman; e os motores RS-25, da Aerojet Rocketdyne.Entre os principais contratantes, estão também: a Axiom Space, à frente da construção da primeira estação espacial comercial do mundo; a Bechtel, encarregada da infraestrutura de solo necessária para lançamentos mais pesados; e a Amentum, responsável pelo transporte e suporte operacional do foguete SLS.Estatal na visão estratégica e privado na execução operacional, o programa Artemis representa, segundo a Nasa, um novo modelo de desenvolvimento. Uma economia espacial em expansão pode alimentar novas indústrias e tecnologias, criar empregos e ampliar a demanda por uma força de trabalho altamente qualificada.Milhares de fornecedores no espaçoTécnicos da Lockheed Martin trabalham no módulo Orion no prédio de Operações e Verificação do Centro Espacial Kennedy da Nasa • Nasa/Rad Sinyak/DivulgaçãoIncluir quase três mil fornecedores representa uma mudança radical na estratégia de produção aeroespacial. Em vez de depender de um grupo restrito de contratantes, a estratégia da Nasa aposta na diversificação industrial como escudo contra crises.Isso faz com que os pesos-pesados da indústria — como a própria Lockheed Martin — tenham que incorporar algumas inovações. Além de reaproveitar diversos componentes da missão anterior, a espaçonave Orion teve mais de 150 peças impressas em 3D, um salto considerável em relação aos testes antigos.Durante a montagem, o uso de realidade aumentada reduziu tarefas de oito horas para apenas 45 minutos. Além disso, a propulsão do foguete SLS também trouxe uma “herança”: os potentes motores principais RS-25 foram reaproveitados dos antigos ônibus espaciais. Um deles já voou ao espaço 15 vezes.Essa imensa rede de conexões comerciais faz da Nasa um epicentro de inovação tecnológica. Com tantas empresas e produtos sendo testados pela Artemis II, a missão ultrapassa seu objetivo estritamente científico e acaba fazendo da Lua um destino econômico.O que a Artemis II traz de novo na economia?Artemis-1 Launch Cinematic 4K (FULL VOLUME) No Music (NASA's SLS Rocket)O que mais surpreende é que, mesmo sem realizar um pouso na Lua, a Artemis II já opera como catalisadora de uma economia espacial em formação. A missão conseguiu mobilizar, sob uma arquitetura coordenada pela Nasa, uma extensa rede industrial, com milhares de fornecedores distribuídos geograficamente e integrados.A rede não se limita aos Estados Unidos. O módulo de serviço da Orion, por exemplo, é fornecido pela Agência Espacial Europeia, indicando que a missão combina parcerias internacionais com a atuação de empresas privadas ao longo de toda a cadeia produtiva.Essa integração em larga escala já transformou o retorno ao espaço em um verdadeiro hub de negócios espaciais — e tende a se aprofundar nas próximas missões. A partir da Artemis III, a SpaceX e a Blue Origin entram como fornecedoras de módulos de pouso lunar.Embora não se possa dizer que a Artemis II rompeu totalmente com o passado — o Space Launch System, por exemplo, continua como um modelo industrial fechado —, é possível notar uma transição clara para uma arquitetura híbrida que, com a Nasa no comando, já depende estruturalmente de uma base industrial privada muito mais ampla e autônoma.Nasa adia missão tripulada para a Lua de novo: entenda os atrasos