Nos relatórios económicos publicados em janeiro lê-se que a inflação está a desacelerar. Mas para muitas famílias portuguesas o custo de vida continua a pressionar o orçamento. E há uma razão clara para isso: parte dos aumentos dos últimos anos tornou-se permanente e agora as tensões energéticas voltam a empurrar preços para cima. No centro desta equação está um lugar distante de Portugal, mas decisivo para a economia mundial: o estreito de Ormuz.O estreito que pode mudar o preço de tudoEntre o Golfo Pérsico e o oceano Índico existe uma passagem marítima estreita que funciona como uma artéria energética do planeta. Por ali passa cerca de um quinto do petróleo transportado no mundo e uma parte significativa do gás natural liquefeito utilizado para produzir eletricidade. Quando há risco militar naquela região, os mercados reagem imediatamente. Foi o que aconteceu nas últimas semanas.O preço do petróleo subiu rapidamente para mais de 110 dólares por barril, depois de meses a circular entre os 70 e os 80. Pode parecer um movimento distante, reservado aos mercados financeiros. Na prática, é um choque económico que se propaga por toda a cadeia de preços.Porque o petróleo continua a ser a matéria-prima invisível de grande parte da economia. Assim, organizações económicas internacionais, como a OCDE, já estimaram que o conflito no Médio Oriente pode ter elevado as projeções de inflação global para 2026, acrescentando mais de um ponto percentualmente às expectativas anteriores, devido à subida dos preços de energia, comida e transporte.Combustíveis: a primeira fatura da criseUma das formas mais imediatas de sentir o impacto da guerra no Médio Oriente no dia a dia das famílias portuguesas é olhar para os preços dos combustíveis — uma conta que pesa no orçamento de milhões de pessoas e que condiciona toda a cadeia de preços na economia.Nos dados oficiais mais recentes sobre preços em Portugal, o preço médio da gasolina simples 95 estava em torno de €1,78 por litro na primeira metade de março de 2026, enquanto o diesel rondava os €1,82/litro — valores acima da média da União Europeia e em níveis elevados face a meses anteriores.Segundo a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), quando se calcula o chamado ‘preço eficiente’ (que reflete cotações internacionais, custos logísticos e margens), o gasóleo simples ultrapassou mesmo os €2,04 por litro e a gasolina simples 95 aproximou‑se dos €1,93/litro entre 16 e 22 de março de 2026.Para colocar estes valores em contexto: comparando com o início de 2025, os preços de referência dos combustíveis em Portugal subiram de forma consistente ao longo do mesmo ano e início de 2026, com revisões semanais a refletirem as cotações internacionais; em março, muitos dos aumentos semanais resultaram de crescimentos de dois dígitos nas cotações internacionais do petróleo e produtos refinados, parte dos quais diretamente associados às tensões no estreito de Ormuz e ao receio de cortes de oferta.Estes preços altos têm impacto imediato no custo de vida. Portugal depende fortemente de transporte rodoviário para abastecer: supermercados fábricas, comércio. A maior parte das mercadorias chega ao destino em camiões movidos a gasóleo. Cada cêntimo a mais por litro traduz‑se em custos mais altos de transporte de alimentos, bens industriais e matérias‑primas que mais tarde acabam refletidos no preço final ao consumidor.Em resumo, os combustíveis são um termómetro da economia e, neste momento, um espelho das tensões que se vivem no mercado energético global.O supermercado ainda sente os choques anteriores e a guerra agravou tudoOlhar para o preço dos alimentos em Portugal hoje é olhar para uma história de choques sucessivos que não desapareceram do dia para a noite. Mesmo antes da atual tensão no Médio Oriente — que está agora a pressionar novamente o mercado energético mundial — os preços alimentares tinham subido de forma persistente e contínua ao longo dos últimos anos. Vamos por partes. A Pandemia de Covid‑19 (2020–2022)originou perturbações nas cadeias logísticas, encerramento de fábricas e gargalos nos portos criaram escassez pontual de produtos e pressão sobre preços básicos. Depois a Guerra na Ucrânia (2022 em diante) com a invasão russa levou a rupturas no fornecimento de cereais, sementes oleaginosas e fertilizantes, setores em que Rússia e Ucrânia são grandes produtores mundiais. A Crise energética na Europa (2022–2024) com a subida do gás natural e do petróleo elevou os custos de produção agrícola, de transporte e de transformação alimentar.Há ainda as perturbações nas cadeias logísticas entre atrasos nos portos, falta de mão de obra e custos de transporte elevados, os bens demoraram mais a chegar ao destino — tudo refletido no preço final.O resultado destes choques sucessivos é claro nas estatísticas oficiais: mesmo quando a inflação geral abrandou, os preços dos alimentos permaneceram consistentemente elevados, criando um novo patamar de custos que não foi revertido.O que dizem os números oficiaisSegundo os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE): em fevereiro de 2026, os preços dos produtos alimentares aumentaram cerca de 3,6% em relação ao mesmo mês de 2025. Mesmo parecendo uma subida moderada comparada com anos anteriores, isso revela uma pressão persistente nos preços que ainda não desapareceu da vida das famílias.Quando se olha para um período mais longo — por exemplo, desde 2020 — muitos produtos essenciais registaram aumentos acumulados que ultrapassam os 20% ou mais.Isto significa que, ainda que a inflação anual em termos agregados esteja hoje em patamares mais baixos, os preços dos alimentos continuam substancialmente mais altos do que antes dos choques sucessivos, e raramente voltam para trás depois de subirem.Casa: o verdadeiro centro do problema com números oficiaisQuando se fala de custo de vida, há poucas despesas tão determinantes quanto a habitação, seja como renda, seja como prestação de crédito à habitação. Nos últimos anos, essa pressão cresceu de forma significativa em Portugal.Segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE), o Índice de Preços da Habitação registou uma subida de 17,6% em 2025, o maior aumento anual desde que este indicador é publicado. Isto significa que os preços das casas que se vendem no mercado aumentaram quase 18% num ano, com as casas já existentes a subir mais (18,9%) do que as novas (14,2%).Esse aumento coloca ainda mais pressão sobre quem compra casa, porque, mesmo com taxas de juro um pouco mais baixas do que nos picos recentes, o custo de acesso à habitação está longe de ser equilibrado com os rendimentos.Um estudo recente do Banco de Portugal mostra precisamente isso: para uma família com rendimento mediano, a prestação do crédito à habitação pode absorver mais de 40% do rendimento mensal — um nível que os economistas consideram sinal de sobrecarga financeira.Despejos em forte crescimentoRelatórios do Instituto de Gestão Financeira e Equipamentos da Justiça (IGFEJ), enviados pelo Ministério da Justiça, em 2025, deram entrada no Balcão do Arrendatário e do Senhorio (BAS) 2.562 pedidos de procedimento especial de despejo, praticamente o mesmo número que em 2024, com um aumento próximo de 1%. Ainda assim, o número de despejos efetivamente concretizados disparou: foram emitidos 1.447 títulos de desocupação do locado, incluindo processos iniciados em anos anteriores, o que representa um crescimento de 44% face ao ano anterior, escreve a publicação.A maioria destes despejos está associada ao incumprimento do pagamento da renda, um problema que tem raízes na combinação de salários que não acompanham os preços e rendas que continuam a subir em muitas zonas urbanas intensamente procuradas.Sem‑abrigo: o outro lado da habitaçãoA questão da habitação em Portugal não se esgota nos preços e despejos e tem também um reflexo social dramático na vida de milhares de pessoas.Segundo o Inquérito de Caracterização das Pessoas em Situação de Sem‑Abrigo, realizado com referência a 31 de dezembro de 2024, em Portugal continental foram registadas 14 476 pessoas em situação de sem‑abrigo, um número que representa um aumento de 1 348 pessoas em relação a 2023. Destes, 9 403 viviam sem teto (nas ruas e espaços públicos) e 5 073 encontravam‑se sem casa, em alojamentos temporários ou respostas de emergência.Essas pessoas não são apenas invisíveis; muitas delas aparecem em abrigos temporários ou mesmo nas ruas das grandes cidades, e cada vez mais por não conseguirem pagar uma renda ou manter um lugar fixo para viver.Quando a casa consome mais do que permite viverO que todos estes números mostram é uma realidade simples, mas profunda: os preços das casas estão em máximos históricos, muito acima do crescimento dos rendimentos. Pagar uma casa através de crédito exige uma fatia muito grande do rendimento familiar — frequentemente acima dos 40%. Os despejos estão a subir fortemente, um sinal de que muitas famílias não conseguem acompanhar rendas e encargos. O número de pessoas sem‑abrigo continua a aumentar, mostrando que a crise habitacional tem consequências sociais profundas.Quando a habitação absorve uma parte tão grande do rendimento, sobra menos para alimentação, transportes, saúde, educação e lazer. E em muitos casos, a dificuldade de aceder a uma casa segura — seja por compra ou arrendamento — transforma‑se não numa crise social que Portugal ainda não conseguiu resolver.A geopolítica entra na carteiraDurante décadas, muitos portugueses viram as guerras no Médio Oriente como acontecimentos distantes. Hoje isso mudou. O mundo energético está profundamente interligado. Uma crise numa rota marítima pode alterar o preço da energia em poucos dias e afetar economias a milhares de quilómetros de distância.Portugal não é exceção. A dependência energética externa torna o país particularmente sensível a estes choques. No final, a economia mede-se menos em índices e mais em escolhas. Escolher viver mais longe da cidade. Escolher usar menos o carro. Escolher adiar a compra de casa.Cada uma dessas decisões nasce do mesmo ponto: o equilíbrio difícil entre rendimentos e despesas. E esse equilíbrio tornou-se mais frágil nos últimos anos. Porque o custo de vida já não depende apenas do que acontece dentro das fronteiras de um país. Depende também daquilo que acontece em lugares distantes — rotas marítimas, conflitos regionais, mercados energéticos.Às vezes, um estreito no Golfo Pérsico pode parecer muito longe. Mas basta olhar para o talão do supermercado ou para o visor da bomba de gasolina para perceber que, na economia global, não está assim tão longe quanto isso.O conteúdo Quanto custa viver em Portugal quando o mundo entra em guerra aparece primeiro em Revista Líder.